O quereres


 

ELIS NA TERRA E NO CÉU

 

“Ah, quisera esquecer a moça que se foi

De nossa Vera Cruz

E o pranto que ficou

Da morte que sonhei

Nas coisas de um olhar”

(Vera Cruz  - Milton Nascimento/Marcio Borges)

 

Para mim, a encarnação da música (em todas as suas manifestações e gêneros, em todos os períodos da história musical da humanidade) se chama Elis Regina. Ela se foi há trinta anos? Não. A obra de Elis está viva. Elis está viva. Suas canções, sua vida, sua garra, sua perfeição, sua entrega, continuam pulsando na vida e no coração de todos os brasileiros.  Daí porque, quando fiquei sabendo que sua filha, Maria Rita, estrearia um show cantando os grandes sucessos da mãe, pensei: “quem precisa de alguém que parece Elis, cantando as canções de Elis, se Elis está tão presente e sempre estará?”

Pertenço àquele grupo que se encantou com Maria Rita, no seu surgimento, mas depois, por um ou outro relevante motivo, alcançou o estado que no Nordeste chamamos  de “tomar abuso”. Ela ficou cansativa, redundante, chata, e ainda dizia desaforos nas revistas de fofocas, sobre Deus, Elis e o mundo. No palco, jamais vi performance corporal mais bizarra. Dela eu só podia ouvir a voz, e só, e nem isso, nos últimos tempos...

Mas sou barroco, dialético, me permito todas as contradições. E não gosto de dar os casos por encerrado tão de imediato. Então, me animei dos melhores propósitos e fui assistir ao show “Viva Elis”, que Maria Rita protagoniza em algumas cidades brasileiras, e que todo mundo em Sampa esperava ansiosamente. Fiquei com medo das energias do antigo Carandiru, atual Parque da Juventude, mas está tudo “ limpo”, e lindo, por lá. E se havia ainda alguma corrente sendo arrastada, algum sangue jorrando,  algum crime pedindo expiação, Maria Rita e Elis “cantaram pra subir”, como bem disse uma amiga minha.

Show marcado para as 15. Às 15 e 10 já ouvíamos Maria Rita cantando. Um dia lindo, uma luz que só mês de maio proporciona, uma imensa e acolhedora plateia. E ela, emocionada, nos mostrou o quão importante era essa ideia, esse projeto, essa homenagem.  Maria Rita estava linda, em tudo: cabelo, maquiagem, figurino. E sua habitual e fantástica banda também. E Elis. Unindo todas as gerações, todas as vozes, todos os cantos da metrópole. Um repertório muito bem escolhido, que não se restringiu ao mais conhecido, ao que tocou nas rádios, que se permitiu momentos jazzísticos, de delicadeza, que poderiam ter impacientado a multidão. Mas não. Tudo foi recebido com alegrias, palmas, vozes em uníssono, lágrimas.

Era uma gente bonita, contente, generosa, de todas as idades, que foi se reencontrar com Elis. E sua filha entendeu isso. E foi generosa no show, que durou praticamente duas horas. E conversou muito com a plateia, com serenidade, maturidade, um texto elegante e bem articulado, revelando suas poucas lembranças mas o muito de respeito que hoje ela  tem por  Elis, a mãe que perdeu aos quatro anos de idade.

Eu entendi, embora ninguém tenha pedido meus palpites psicanalíticos, porque Maria Rita precisou por tanto tempo “negar” a mãe, dizer que não a conhecia, que não a ouvia, que não se inspirava nela.  Elis é uma potência, uma deusa, a Voz! Dona de uma biografia rica, carreira construída em meio a um doloroso período de ditadura, uma mulher forte que nos deixou muito cedo, envolta numa bruma de dor e desamparo. Ecoa diariamente em nossas vidas, nossos ouvidos, em tudo que veio depois dela na música brasileira.  Como é nascer filho de um mito? Como é encontrar sua voz, sua identidade, seu canto, seu lugar, sua autonomia, sendo filha de Elis Regina? É quase impossível, é preciso “lamber o chão dos palácios”, é missão para uma vida inteira. E Maria Rita era jovem. Precisou negar, de uma certa forma, o sangue materno, para sentir-se viva, gente, ser único. Mas não podemos, nem devemos, nem conseguimos, negar o oco de onde viemos. Ele está lá, como José gritando para o céu seco*  e somos constituídos dele e de tudo o que trouxemos por nós ou que vamos adquirir. Nem só um nem só o outro. *(“José”, Caetano Veloso)

Mas é preciso matar a mãe, e o pai, para que sejamos nós mesmos. Para então perceber que ainda somos os mesmos e vivemos como eles. E esta parece ter sido a descoberta de Maria Rita. Mergulhar na obra da mãe,  descobri-la, redescobri-la, imantá-la de carinho filial, fizeram a filha crescer, e se assumir como alguém com identidade própria, e que por isso mesmo pode citar, homenagear, imitar (no melhor sentido do termo) a trajetória da matriarca. Sem deixar, com isso, de construir sua própria história. Sem se preocupar com comparações, críticas, maledicências. Deixando a emoção correr solta, permitindo que milhares de pessoas lhe dessem as mãos para lhe contar, cantar, entender e propagar sua origem.

Maria Rita estava lá: grata e inteira. Elis estava lá: inteira e eterna. E nós pudemos amar uma e outra, rever uma delas pela presença do rebento, presenciar o rebento virar flor com perfume e beleza únicos. Era a voz de Elis. Era a voz de Maria Rita. Era novo, e era antigo. Era agora e era lembrança. A perfeita união do que se foi e do que é. Agora Maria Rita está pronta para dizer: “eu sou a filha. Esta é minha mãe. Nós duas somos duas estrelas. E nos amamos!”

Mesmo com o texto já tão alongado, estou longe de descrever o que foi aquele momento. Foi sublime, foi mágico. Foi ímpar. Tudo foi perfeito. Até a presença de palco de Maria Rita se modificou. Foram-se as bizarrices, ficou o talento puro. Admiração restaurada! A vida do Brasil, e a nossa vida, passando pelos nossos olhos num filme nostálgico, por vezes doloroso, mas belo. E só acredito na arte com beleza, com emoção, com entrega.  Como é bom chegar, de metrô, para assistir a um momento glorioso e inesquecível num parque público. Mais um exemplo vigoroso de como menos é mais. Ponto para a Nívea, patrocinadora do evento.

Como foi cacete e custo$o comprar, chegar, assistir (local horrível e com péssima acústica), ao show de Chico Buarque numa das distantes e badaladas casas de show paulistanas, não faz muito tempo.  Mas isso é outro show... Fazemos qualquer sacrifício por Chico!

“Viva Elis”. Quem viu, viu. Quem não viu, não se conforma.



Escrito por RENAN BARBOSA às 21h01
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DE COMO SÃO FRANCISCO, GAL, ROSA E BETHÂNIA ESTÃO LIGADOS

 

 

Desde que me tornei devoto de São Francisco de Assis, há alguns anos, venho tentando me livrar do supérfluo e ficar com a essência. Dar o valor devido ao que de fato tem valor. As pessoas riem, acham que é piada, porque me enxergam sofisticado, pedante, arrogante, luxento. E eu respondo com um sorriso simples de quem sabe do que verdadeiramente anda à procura. Simplicidade, eis tudo. Um desafio que pode ocupar uma vida inteira.

E por coincidência (ou não), na música, por ser um conservador que demora a incorporar as revoluções e os modismos, isso também se mostra verdadeiro. Ainda prefiro o simples, o tradicional, o pão de queijo normal ao recheado, o clássico que não sai de moda nunca (alguém pode me apontar uma única gravação de Elis Regina que soe “datada”?).

Tenho cada vez mais respeito às vozes e trabalhos puros, e resisto à modernidade que, muito frequentemente, serve para ocultar a deficiência e a falta de talento, mas rende capa na Ilustrada, show no Studio SP e uma legião de fãs bichos-grilos de butique. Ainda fico com Elis,  Elizeth, Nara, Clara Nunes, Ney, Milton, João Bosco, Ivan Lins, Chico... Não me apresentaram, nas novas gerações, ninguém à altura! 

E nos últimos meses, me senti brindado por três vozes “antigas”, tradicionais, de divas que nos arrebatam há gerações sem deixar de surpreender e soar modernas. Elas lançaram CDs novos, com projetos gráficos e encartes belos e bem cuidados. Trata-se dos trabalhos de Gal Costa (Recanto), Rosa Passos (É luxo só) e Maria Bethânia (Oásis de Bethânia). E nos três trabalhos, há a essência que só os grandes mestres conseguem alcançar, simplicidade acima de tudo, de diferentes maneiras: uma casada com a tecnologia, a outra transformando doçura em artigo de luxo, outra devotada ao acústico e à plenitude da voz.

O trabalho de Gal, dirigido por Caetano e Moreno Veloso, é um caso à parte. Caetano compôs para a amiga letras deprimentes, cansadas, que se queixam da velhice que o atormenta e o que o faz repetir, como uma canção de ocaso: “dói, tudo dói.” As músicas não foram feitas para mostrar o brilho da voz de Gal, que ainda conserva sua potência. Elas sufocam a voz, fazem-na dobrar-se como presa de reumatismos e outros achaques. Gal, que aparentemente está deprimida, aceita o fardo, prende a voz e o espírito, como se concordasse que cantar é um desastre que sucede a alguns... Mas lá está o minimalismo que fez de Gal a grande intérprete que ela é, a voz dentro da panela da bossa-nova, a preguiça mesclada com a inventividade.  As programações eletrônicas trazem mais morbidez do que modernidade, tudo se associa para quase calar a voz. Impossível não gostar, mesmo à primeira audição, de Autotune Autoerótico, Neguinho, Miami Maculelê. E no fim, a fórmula menos é mais prevalece. Gal mostra que ainda vive, que é inteira, nos convida a um passeio contemporâneo pelas mesmas ondas de Caymmi e João Gilberto: mar calmo, vento a favor(?), sem pressa. O disco não convida a novas audições. Mas, se a gente insiste, e de vez em quando põe o CD a tocar, o prazer vai aparecendo. Demora-se a gostar, mas é possível! Somos nós que teremos que descobrir a genialidade do trabalho, isso ela não facilita. E um dia: pronto! Acordamos gostando do CD. No fim, vence a simplicidade forrada de tecnologia. Música feita de silêncio e sombras. Lá vamos nós, descobrir os recantos escuros de Gal Costa.

E aí, passamos para o luxo da vozinha de Rosa Passos. E como essa vozinha  (e orgulhosa vovozinha) tem força, história, sucesso fora do Brasil, a companhia de todos os grandes músicos de jazz do planeta. Ela escolhe revisitar Elizeth, mas deixando de lado pérolas como Autonomia, Boneca de piche, Barracão de zinco, O sol nascerá. Não há problema. São apenas dez faixas (os cantores andam econômicos, atualmente). Mas elas nos encantam do começo ao fim. O disco tem a grife Biscoito Fino, e a perfeição, o carisma e a simplicidade de Rosa. Todo dia, no facebook, ela nos conta o que está fazendo, conversa de verdade com os fãs, e nos convida para um chá com bolinhos nos finais de tarde. Momentos simples, que a vida na metrópole nos rouba. E o CD tem essa expressividade, essa intimidade, de quem não se preocupa com o tempo, de quem vivencia a essência das coisas. Ela sabe a cadência que uma baiana tem no andar. Nem vou falar do show, que assisti no SESC Vila Mariana (que teve o auxílio luxuoso de Fábio Torres ao piano). Acompanhada “apenas” por violão, baixo e percussão, no CD, Rosa mostra que sua voz tem longevidade e beleza para mais outro tanto de carreira. E tudo é simples, e bonito, e caprichado. Há que se ouvir, para entender o que estou descrevendo: é um luxo só, que apaixona à primeira audição.

E lá vamos nós, descobrir onde está o oásis de Bethânia. Está em ela ser sempre fiel a si mesma, sem temer reinventar-se, ou fazer o novo sem deixar de beber na tradição e no “antigo”. Aqui, uma nova Bethânia. E por sorte, a mesma, mesmíssima Bethânia Nesse oásis, ela explica numa entrevista (http://www.youtube.com/watch?v=AVabA3iKnSM), cada música pediu uma cara, um criador, um desamarrar-se dos esquemas conhecidos e confortáveis. É o mar, é o sertão, unidos pela vontade solar de uma deusa. Em algumas músicas (e são apenas dez! Nossas cantoras tornaram-se avarentas?) ela se faz acompanhar por apenas um instrumento, um único músico. Para que a voz soe: simples, direta, lúcida e reverente. Para que o instrumento exercite a sua vocação sublime, enquanto dá de beber à voz-força que nunca seca. Na árida estrada do dia a dia, há uma fonte no meio do caminho. É a voz de Bethânia. Mais não precisa ser dito. É coisa de acender, beber, tomar, tocar. Descansar, que é para isso que os oásis foram feitos. Para as miragens de prazer e bonomia.

Renan



Escrito por RENAN BARBOSA às 15h02
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                    MUNDANAS

 

 

 

RESPEITO É BOM...

 

Ela brigou com o namorado porque ele olhava para todas as bundas e mulheres do barzinho. Após a briga, ela foi pra casa. Ele aproveitou a raiva pra tomar uma cerveja na Augusta e uma coisa levou a outra: sexo pago era sempre mais gostoso. Voltou no dia seguinte para se desculpar com a namorada. Lindas flores. Ela ficou satisfeita: falta de respeito tinha limite!  

 

 

 

SELEÇÃO NATURAL

 

Ele sempre se apaixonava, mas sua amiga é que acabava ficando com os homens que desejava. Também, quem mandava ter tanto faro para heteros interessantes e solteiros?

 

 

 

FIM DE VERÃO

 

Pegou o gato na rua e lhe deu de beber a madrugada inteira. No final, teve que descolar a grana do metrô. Poucos reais pra tantas horas de boa foda. Arrancou todos os lençóis da cama, jogou o lixo do banheiro, banhou-se por uma eternidade, mas nada fazia aquele odioso cheiro de sexo desaparecer. Precisava se apaixonar de novo. Precisava comprar camisinhas. Lá fora chovia. E nenhuma história de amor se iniciara. Um domingo triste de neblina e frio. E ainda era verão. Era?

 

 

 

MUDANÇA DE HÁBITOS

 

Ela namorara dois psicólogos, e num dado momento se cansou de tantas explicações, perguntas, teorias lacanianas, crises existenciais, baseados e vinho barato entornados em mesas de bar do centro. Afinal, ela também era da área, não precisava de um psicanalista de plantão full time, já pagava bem caro pela análise. Cansada, resolveu dar ouvidos a novas pulsões, e na academia conheceu o novo namorado: professor de Educação física, que lhe abriu as portas da percepção corporal, jogava futsal, tomava açaí, bebia cerveja e arrotava, e só sabia que Édipo fora personagem de uma novela da Globo. Eis o caminho do meio, ela pensou. Mens sana in corpore sana. E foi feliz quase para sempre.

 

 

 

ENFIM, LISOS!

 

Ela se depilava, ele se depilava.

Ele estava ficando careca.

Ela estava ficando sem hormônios.

Ela percebeu os pelos do atendente da padaria.

Ele descobriu que a diarista tinha buço.

Decidiram pedir divórcio, no mesmo dia, por acaso.

Ele vive feliz, pão quente e café expresso todo dia.

Ela não dispensa uma roupa bem passada.

 

 

 

VITÓRIA

 

Não importava quem vencia. Ela mesma nem tinha time; seleção brasileira a cada quatro anos, e só. Mas era ali, naquele depósito de machos viris e ensandecidos, naquela algaravia de gritos e suores e olhares desesperados, que ela se encontrava e os encontrava. Finalmente São Paulo mostrava onde se escondiam os últimos milhares de membros daquela espécie em extinção: os machos. E ela feliz, ao lado deles, disputando com os oponentes em campo a atenção que também merecia. Não era em vão. Jamais voltara sozinha para casa, depois dos noventa minutos de jogo.



Escrito por RENAN BARBOSA às 15h32
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Nós, os três

Ai, meu santo Édipo! Parece que nunca me livrei dos meus complexos. Sempre estive metido em triângulos, não necessariamente amorosos; triângulos, apenas. Principalmente, de amigos. Tipo, ser amigo de um casal. Amigo dos dois. Encontros a três, conversas a três, cafés a três. Afeto a três. E olha que prefiro os números pares, mas o que fazer? Agora mesmo estou casado a três. Meus cônjuges moram em outro apê, fazem sexo entre si e cuidam da cachorrinha. Eu moro só, optei por sexo fora do casamento e não curto pets. Mas há dias em que, cansado do trabalho, ele me faz massagem e ela nos prepara o jantar. O que mais querer? Melhor do que isso, só ir ao cinema.

Um dos meus filmes preferidos não é um clássico, ou um filme cult,  é um filme fofo que mostra jovens adultos vivendo as descobertas de uma relação a três. “Três formas de amar”, título em português. Já vi dezenas de vezes, e nunca me canso. Há o outro, mais forte, mais denso, mais visceral, “Os sonhadores”, de Bertolucci, que também adoro. E tem também “Uma cama para três”, com a uber musa Victoria Abril. E tantos mais.

E agora, acabo de assistir ao delicioso “Os 3”, de Nando Olival. Filme brasileiro, com uma fotografia e uma direção de atores que beiram a perfeição, além de um roteiro interessante, e uma direção primorosa. E de novo, cenários inusitados de São Paulo, como já nos mostraram outros filmes ambientados na nossa megalópole, como “Quanto dura o amor?” e “Estamos juntos”.

Os 3 nos apresenta a três jovens atores novatos, mas muito talentosos. E três personagens cativantes que têm a coragem de romper alguns tabus, de modo tranquilo e corajoso. De cara, a câmera faz com que nos apaixonemos por eles. Juliana Schalch, a jovem atriz que faz par romântico com dois rapazes, é linda. Já os meninos (Victor Mendes e Gabriel Godoy), jamais passariam num teste para a novelinha global Malhação. Não são bonitos, têm corpos imperfeitos, mas também nos cativam com uma interpretação naturalista e absolutamente generosa e convincente. Logo nos descobrimos apaixonados por eles também. Eis o mérito do diretor: mostrar jovens reais, que não saíram das academias para a tela, mas que têm o apelo da juventude, e vigor artístico, que bastam para que sejamos convidados a espiar e compartilhar suas vidas.  Passamos a torcer pelo trio. Os conflitos algumas vezes só são tangenciados, com uma aura entre silêncio (que não chega a criar ambigüidade), e “interprete como quiser”, mas poderiam ter sido mais aproveitados para dar densidade e maturidade ao filme.  A estória às vezes se arrasta um pouco, mas há sempre uma música, uma paisagem, um detalhe, que nos mantém atentos e enfeitiçados. Quando há tédio, é o mesmo que nos invade na grande cidade, o tédio que os personagens tentaram deixar pra trás ao sair de suas províncias e adotar São Paulo como a mãe dos sonhos. A angústia existencial, de para onde ir e o que fazer, inclusive com a liberdade, a descoberta do amor, a busca de uma forma diferente de amar, a dificuldade de romper vínculos profundos para, em contrapartida, obter ascensão profissional e definir um lugar no mundo, estão presentes nesses jovens adultos, como ainda podem habitar em cada um de nós.

Vivemos a vida real quando nos expomos nessa era de hiper-realismo da vida privada? “A vida de ninguém interessa”, já nos alertou o ensaísta Francisco Bosco. Talvez seja isso que os jovens concluem, no final do filme, depois de se expor na internet num programa que comercializa suas escolhas cotidianas. Talvez, para tornar nossa vida menos comum, sintamos vontade de ser jovens de novo, de viver uma história parecida e trocar de lugar com eles. É claro que o filme flerta com cenas e argumentos de vários outros do gênero (triângulo amoroso jovem), mas é um belo filme nacional, feito com maestria e digno de ser assistido por milhares de espectadores. O sonho cabe num fusca? Respondam-me depois de assistir ao filme...

Renan



Escrito por RENAN BARBOSA às 21h47
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Republico, sem muitas razões objetivas, os contos Cara e Coroa, postados neste blog em 2007; díptico escrito em parceria com minha irmã Vitória Maria Barbosa Widmer, e que faz parte da série de contos, a quatro mãos, "Dos impedimentos do amor". Leituras e comentários são bem-vindos.

 

CARA

 

Se era aquilo amor havia muita mentira em seu entorno. Ela mesma mentira para si. Mentia. Sua fé no amor era profanada diariamente. O amor mentia? Mentir para o amor? Por fim, não chegava a conclusões.

Foi quando era ainda uma menina que aprendera, ouvindo as conversas dos adultos. Depois os filmes, os romances baratos e sempre, sempre as canções de amor. Aprendeu que o amor é verdadeiro. Que à pessoa amada deve-se sempre dizer tudo. Mentira. Ninguém suporta tudo. Mas aprendeu assim. Era revoltante. A vida é cheia de engodos. Ensina-se sempre o que não é. Todos mentem descaradamente ou aceitam ser enganados. Não era fácil viver. Tentava, sim, tentava muito ser correta. Mas ninguém suporta tudo...

Como naquele dia em que almoçaram juntos. Poderia dizer para ele que não tolerava quem mastiga fazendo barulho como ele fazia e ainda por cima de boca aberta, exibindo as porções dilaceradas de alimento? Que aquele som ativava nela um novo sentido, um sentido que a tornava irritada a ponto de comovê-la? Queria chorar e queria morrer. Talvez matar. Aquele som a estragava. Poderia dizer ainda que sentia arrepios de asco quando presenciava alguém palitando os dentes, assim como ele o fazia, demoradamente e com prazer, bem na sua frente, sem qualquer constrangimento?

Não. Não poderia. Conhecia-o o suficiente para saber que isto o abalaria. Afinal, cinco anos de namoro contam para que se saiba algo de alguém. Ele se sentiria aviltado, descoberto e ridículo como devia se sentir aquele frango geneticamente modificado para nascer sem penas, que vira outro dia no noticiário da TV. Poderia ainda dizer-lhe que aquela saliva que ficava em seus lábios enquanto falava, unindo-os como uma membrana elástica, verdadeiramente lhe assombrava? Não. Não poderia.

Ela disfarçava essas dores durante o almoço. E pensava: “Vou terminar. Preciso ter coragem. Não pode ser. Não agüento. Não é justo. Nem para mim nem para ele. O que digo? O que faço?” Era como ter uma dupla personalidade. Aquilo tudo lhe massacrando e ao mesmo tempo, dividida com as amenidades que ele conversava. Falsa? Estava sendo falsa? Mas a falsidade não causava dor, pelo menos aprendera assim, e aquela situação... aquela situação lhe oprimia da maneira mais brutal.

Pensando no que ia dizer. Que seria forte, que se libertaria. Foi quando pensava nessas coisas que ele anunciou que não comeriam a sobremesa ali no restaurante. Assentiu. Quando entraram no carro, ele mostrou uma caixa, até então escondida. Seus doces prediletos. Em forma de coração. Muitos deles. A gulosa felicidade espantou todos aqueles tormentos. Aliviou-se. O açúcar era muito importante para ela. Mas, após saboreá-lo compulsivamente, sentia culpa. Ah, maldita religião. Nada lhe trouxera de paz. Somente ameaças. E imposições.

Punia-se. Punia-se por odiar sua mastigação, seu palitamento, sua membrana de cuspe. Enternecia-se pela surpresa dos corações e se perdia sem entender o que era afinal o amor, pois aprendera que o amor tudo suporta e aceita. Temia ser castigada. Parecia ver o olhar feroz de sua mãe ao proferir: “aqui se faz, aqui se paga”. Não. Não podia terminar a relação. Ninguém a mimava assim. Olhou melhor para ele. Procurou ângulos inusitados e pouco apreciados pelo senso comum: um cantinho perto da orelha, uma divisa entre os cabelos e o pescoço, uma dobrinha no braço. Procurou amá-lo naquela busca aflita de seus olhos. Lembrou-se que poderia ser TPM aquilo tudo. Sim, ele era seu amor.

Ao mesmo tempo pensava: “que custa comer sem fazer barulho? Que custa reconhecer que palitar os dentes é nojento? Que custa perceber que não é mais um bebê para ter tanto cuspe fora da boca? Que custa disfarçar um pouco as misérias humanas?”

Será que ele nada percebia? Ou, por amor, tudo suportava?

 

 

 

 

 



Escrito por RENAN BARBOSA às 22h47
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COROA

 

Ela era linda. Amara-a desde o primeiro encontro, desde a primeira troca de olhares, desde a primeira conversa ensaiada em pé, numa vernissage, ambos estonteados ante a beleza das obras , equilibrando champanhe, canapés, guardanapo e aquela conversa tímida, constrangida, os olhos se descobrindo, os sorrisos se alargando, a evidente tentativa de impressionar ao outro com comentários inteligentes que saíam ridículos e deslocados. Mas prosseguira amando-a. Sempre. Cada vez mais. Sabia que tudo no amor é clichê, brega, risível, mas como evitar? Se aquilo tudo trazia uma felicidade duradoura e consistente, por que lutar contra? Cada passo dela, cada gesto, por mais comezinho, por mais banal, o encantava. Ela era alegre, sem deixar de ser crítica e cáustica às vezes, tinha uma energia que ele invejava. Estava sempre disposta a falar, a debater, construindo pequenos e tolos tratados filosóficos dos atos cotidianos, não importava se sobre o preço da berinjela ou o último espetáculo de Débora Colker. Mas ele achava graça em tudo isso. É certo que às vezes ela se tornava excessivamente exigente. E silenciosa. Sabia que estava ocultando algum pensamento de crítica quando se calava de súbito, seus olhos fixos em algum ponto do rosto dele, como se quisesse retê-lo, fazer uma fotografia incompleta apenas para afastar algum comentário ríspido, alguma reclamação. E nesses momentos nem adiantava provocá-la, espicaçá-la a falar. Ela era um todo de ausência e estupor, mas preenchida por algo forte o suficiente para destruir o amor, a relação, o namoro de cinco anos, no qual se viram diariamente e diariamente se defrontaram com o inusitado e com o conhecido mas sempre mantendo o vínculo, o afeto fortalecido e intacto... Não, naqueles momentos tinha de respeitar o silêncio dela , sob pena de ver o sentimento desabar. E ele desabaria junto. Aprendera que amor é coisa profunda, exata, embora sujeita a intempéries. E para sempre. Não acreditava que podia amar duas vezes. Não com aquela intensidade. Ainda ocorria de se sobressaltar com o fato de a vida ter lhe dado uma mulher perfeita. Tão bonita, articulada, sábia, paciente. Bonita quando saía do banho, quando acordava, quando balançava as pernas nos momentos de ansiedade. Pensando bem, naquela última situação não podia ver nenhuma beleza nela. Não tivera uma educação machista nem retrógrada, mas pensava que ninguém discordaria que é feio, não, horrível, ou melhor, profundamente deselegante, uma mulher balançando as pernas num restaurante, ou mesmo na intimidade, o salto fino marcando o ritmo no assoalho, chamando ainda mais a atenção, e o pior, traindo o nervosismo, a ansiedade, ferindo as regras de etiqueta que com certeza ela aprendera nos colégios católicos.

Mas não encontrava coragem de censurá-la. Sabia que isso poderia funcionar como uma bomba-relógio. E perdê-la para sempre por um simples comentário. Melhor calar. Não era só ela que tinha seus silêncios plenos de desprezo e reprimendas sufocadas. Pior mesmo era quando ela sacava da bolsa, subitamente, até mesmo quando trocavam carícias ou viam um filme deitados no tapete, a temerária lixa de unha. E demorava-se naquela que ele considerava uma das mais baixas tarefas a que uma mulher podia se lançar na presença de outrem. Será que ela não percebia o quanto aquele barulho era irritante, fazendo os dentes rangerem, uma sinfonia recalcitrante que punha em ebulição todos os neurônios, todos os pêlos do corpo, levando-o quase à loucura? E aquele pó, pó de unha, que se espalhava, sujava a roupa, grudava nos cílios, poderia haver algo mais repugnante, mais invasivo, mais lesivo a um relacionamento? Mas ela parecia tão concentrada, tão entregue, tão convencida da utilidade do seu ato, que ele não ousava falar. E engolia em seco, e engolia o pó. Poderia haver algo pior que aquilo? Sim, havia uma. Encontrar o absorvente higiênico usado, com aquela borra de odor e aspecto repugnantes, jogado sem cuidado no cesto do banheiro. Por que ela não colocava na embalagem, enrolava em papel, disfarçava de alguma maneira aquela evidência repulsiva? Mas não, tinha que fazê-lo deparar com aquele desagradável aspecto da condição feminina, como se aguentar a TPM já não fosse suficiente. Por que as mulheres não podiam dirigir o mau humor, a labilidade, a quase loucura da TPM a elas próprias? Por que não se arranhavam, bebiam, batiam a cabeça contra a parede, até conseguir alguma calma, algum equilíbrio? Por que tinham que descontar neles, os homens, os amados, os parceiros, os companheiros? Por que fazê-los alvo de sua descompensação emocional? Era justo? Era correto? Era o caminho mais fácil, parecia. Eles estavam ali, à mão, perto, alvo inocente. E ainda o cobrava porque ele não adivinhava e não compreendia que ela estava na TPM. Como se o calendário menstrual dela tivesse que andar colado em seu cérebro, ele, o homem, que não tinha menstruação, nem sangrava, a não ser por dentro, sem direito a absorventes e TPM...

Mas seu pai lhe dissera que era assim no amor: tudo suportar, fazer sacrifícios, concessões, perdoar e perdoar e perdoar... E ele a amava. Sempre. Desde sempre.

Para sempre. Sempre? Para sempre? Melhor não se fazer indagações. Melhor pedir a conta e levá-la para o carro, onde uma surpresa a esperava. Pensava todas essas coisas ali, palitando os dentes, enquanto ela o fotograva, em pedaços, olho fixo numa orelha, no ombro, nas mãos. Daria tudo para jamais saber daqueles pensamentos, das sentenças que ela repetia internamente e não teria coragem de lhe dizer. Porque sabia que seria o fim. No carro a surpreenderia com uma caixa de seus doces preferidos.

 

 



Escrito por RENAN BARBOSA às 22h26
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SOU EU

Sampa coberta de cinza e chuva. Natural propensão à tristeza, à preguiça. Mas resolvi que hoje não ia me entristecer. Nada de lamentar as canções que não vieram, a paixão que se anunciou dias atrás, mas não deu as caras, a festejada rachadura na armadura de silêncio que comentei no texto anterior (que não trouxe, entretanto, acontecimentos), a poesia sempre buscada como forma de tornar mais bela a vida, que não se concretiza na tela. Resolvi, apesar do dia nublado, colocar o songbook de Caymmi pra tocar, como se trouxesse para esse dia o sol, o mar, o amor, tudo que Sampa nos nega ao nos oferecer seu apelo concreto. À minha volta, as coisas passeiam como se eu não existisse. Ainda não decidi se enfrento a chuva para comer feijoada no boteco da esquina. Ainda não sei se há um bom filme para o final da tarde. Ainda não sei quando a vida me restituirá o meu músico ideal, que já tive em Campina Grande, e o parceiro para criar as melodias das letras que se acumulam sem que ninguém as escute. Ainda não sei quando a minha voz ecoará em Sampa. Depois do sucesso do show coletivo “Os homens de Chico”, em março/abril, novamente os palcos se ausentaram de mim. Sou difícil? Sou raro? Sou velho? Sou avesso? Sou pelo avesso? “O avesso das coisas”...

A chuva cai mais forte. Leio no site de Chico Buarque as informações sobre a próxima turnê. Teremos que esperar até março pra vê-lo no palco, aqui. Esperaremos! Gostei especialmente das melodias e dos arranjos do novo disco: são esteticamente perfeitos e irretocáveis. As letras são de um Chico preguiçoso e gasto, não parecem destinadas à eternidade como tantas outras, mas têm beleza. Ele agora confabula com a morte, com a repetição, o medo do esquecimento, exibe a irônica sabedoria dos velhos. Não, isso não é um defeito. Ao mesmo tempo, não teme a paixão, o sexo, mesmo sabendo dos prazos de validade. Do CD, apenas uma canção me parece destinada à posteridade: Sou eu, parceira com Ivan Lins, já gravada por este e por Diogo Nogueira. Que letra soberba, que alegria, que samba! Lindo. Lembra a força de A Rita, Apesar de você, Samba do grande amor. É o Chico que amamos e que gostamos de festejar.

Para onde quer que eu olhe, minha infância, minhas referências, minha voz, minha escrita, meu modelo, tudo me remete à Chico Buarque. Fui determinado pela força de seus versos. Antes de saber o que era a vida, com sua carga de sexo, dor, violência, paixões, traições, opressão, injustiça, beleza, esse imaginário já se instalara em mim, na minha pele, “por dentro, por fora, por cima, por trás”. Poderia ter me feito mal. Afinal, o que seria de uma criança que aos sete ou oito anos cantava O meu amor a plenos pulmões, Geni, Olhos nos olhos, Construção? Mas só fez bem. Benditos os adultos (meu irmãos) e as rádios que trouxeram Chico à minha infância. Os fascículos de Literatura comentada com trechos de suas peças e parte de sua biografia. As revistinhas Cante e toque violão que me traziam suas letras sublimes, e eu trancado no quarto ou no banheiro não “folheando revistas e comendo as figuras”, mas devorando a poesia, cantando, cantando, sonhando um dia em ganhar os palcos de maneira real e definitiva. E foi graças à Chico que conheci o samba, que depois me levou à Jobim, Noel Rosa, Caymmi, Jackson.  Considero-me um sambista, embora poucos acreditem, e se tivesse que escolher um repertório único, escolheria todo o cancioneiro de Chico. Ele me basta para explicar a vida. Só consigo apreender a vida pela música e pela poesia. Tendo as criações dos meus compositores e intérpretes preferidos, e minha própria voz, como guias. “Quando eu canto, que se cuide quem não for meu irmão.” Sim, este sou eu. Quem dá as cartas, sou eu. Quem manda no samba sou eu. Sou eu?



Escrito por RENAN BARBOSA às 14h13
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O CARRETEL DAS PALAVRAS

Gosto de caminhar com ardor fervoroso pelas linhas retas da rotina. Mas estou sempre à espera de acontecimentos, como o personagem da canção. Quase nunca é festa no meu apartamento. Um dia, um sobressalto, uma brisa leve, uma coragem de mudar de rumos. Sem apagar o sorriso, sem que isso seja um peso. Revisto-me de força.  A força da palavra. É só nela que acredito. Foi ela sempre que me acompanhou, mesmo quando perdido na densa floresta do tédio e do esquecimento. Foi sempre a palavra que me deu a constituição da minha carne. Que me deu a paz e a tempestade. Que estabeleceu minha comunicação com o mundo. Eu, sempre feito de silêncios, mas tendo a palavra como fio que me conduzia a todos os labirintos. Foi assim com o adolescente escritor, que mais tarde se perdeu do talento. Foi assim que cheguei à canção, pelo caminho das letras, unicamente pela força e pela beleza das palavras.  Foi assim que soltei a voz e me fiz cantor. Para que as palavras ficassem vivas no molde da pedra. Foi assim com a potência do discurso psicanalítico, que também me ajudou a moldar o meu projeto de existência. Hoje, talvez esteja mais próximo das coisas práticas, e ainda à espera de acontecimentos. Mas eis que a palavra vem ao meu encontro, em meu socorro, me lembrando de novo de viver. “Viver é perigoso”.

Não sou feito de gestos. O meu gesto é a palavra. E ela pode ser como vento forte, que me tira do chão, do conforto angustiado do silêncio. A palavra suja, bela, perdida numa fumaça de álcool e cigarro, num livro, nas mãos que não se tocam. Na voz de Bethânia. Agora, sou pipa, ao sabor da força dos dias, da ventania, sem temer calor e poeira. Saí do chão. Aonde isso me levará?

“Todo amor vale quanto brilha”. Ao invés do amor, o palco. É justo. No palco está toda a minha verdade. É quando estou no palco que mais amo. Nunca desejei a vida real. Mas é ela que provoca os redemoinhos, que guia o olho aprisionado pela beleza, que me conecta ao desabrigo das calçadas. Não, ainda não é o amor. De volta. Os palcos não têm me dado ouvido. É apenas libertação. Olho. Palavra. Vínculo. Uma língua estrangeira, estranha, afoita, ousada, ligeira. Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Caetano Veloso. Sou um homem velho, deixando vida e morte para trás. Cabeça a prumo, seguindo sem rumo. No bolso, uma caixa de palavras. Na ponta, um carretel de emoções desencontradas.

Renan Barbosa



Escrito por RENAN BARBOSA às 11h33
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A poesia está de volta. Na minha vida.

Fã de Drummond, aliás, como quase todos os brasileiros, me ressentia de ter poucos livros dele, de ter extraviado alguns outros etc. E eis que encontro, lançada pela Editora Bestbolso, uma “Nova Reunião”, em 03 volumes de preço mais do que acessível, contendo 23 livros de poesia do nosso itabirano maior. Que delícia revisitar Drummond e meus poemas favoritos, conhecer outros, ser lido por outros tantos. E tem mais: todos atualizados pela nova ortografia. Até tive um susto: os versos “os homens não melhoraram e matam-se como percevejos”, que para mim resumem o estado em que a humanidade se encontra, recorrentemente, apesar da marcha da história, da poesia, das conquistas e do progresso, apesar da psicanálise e da internet, são na verdade de Drummond e não de Mário Quintana, a quem eu distraidamente atribuía essa autoria. Nunca mais me separarei desses livros. Drummond estará firme como uma montanha, uma montanha farol, iluminando meus passos hesitantes, colocando metal em meu sangue e moldando a pedra da minha alma. Assim seja!

Aí, na mesma semana, vou aos eventos da Virada Cultural da Livraria Cultura, e caio num sarau de poesia com a presença de Eucanaã Ferraz, Antonio Martins e Fabrício Corsaletti. Eu já lera alguns poemas de Eucanaã e admirava seu trabalho em torno da obra de Caetano Veloso e Drummond, vira entrevistas suas, mas não tinha noção de sua presença tranqüila, carismática, generosa, plena de emoção e de energia poética. Ele liderou de certa forma o sarau, que ocorria sem um script, como por associações livres, interações dos poetas entre si e com a plateia.  Eucanaã nos conta que costuma dizer seus poemas, em voz baixa, inúmeras vezes, e só assim sabe se já estão prontos, se alcançaram o tom desejado, a sonoridade, o ritmo, algumas descidas sinuosas e mergulhos para o alto, necessários para o seu fechamento, como linhas ascendentes e descendentes de um gráfico poético. Não basta escrevê-los. É preciso dar-lhes ouvidos. Talvez isso explique porque ele declama tão bem. Sem drama, voz contida, mas com uma força e uma sensibilidade que nos fazem chorar. Chorei enquanto o escutava. O sarau prosseguiu, e ouvir também os outros poetas presentes foi um privilégio (cheguei até a cogitar que o Corsaletti não seja a fraude que eu acreditava...).  Uma platéia pequena, mas coesa, participativa, vibrante, ficou ali com aqueles escritores por quase duas horas, que passaram velozes, sem cansaço. Só por isso a virada da Cultura já valeu para mim.

Calendário (Eucanaã Ferraz)

 

Maio, de hábito, demora-se à porta,
como o vizinho, o carteiro, o cachorro.
Das três imagens, porém, nenhuma diz

do que houve, para meu susto, àquele ano.
O quinto mês pulou o muro alto do dia
como só fazem os rapazes, mas logo

pelos quartos e sala convertia o ar em águas
definitivamente femininas. Eu
tentava decifrar. Mas

deitou-se comigo e, então, já não era isso
nem seu avesso: a camisa azul despia
azuis formas que eu não sabia, recém-saídas

de si mesmas, eu diria, e não sei ter
em conta senão que eram o que eram. Partiu
do mesmo modo, em bruto, coisa sem causa.

Maio, maravilha sem entendimento,
demora-se à porta, como o vizinho,
o carteiro, o cachorro. Porém,

nenhuma das três imagens, tampouco
este poema, diz do que houve, para meu susto,
àquele ano.


in Cinemateca. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
in
Cinemateca. Lisboa: Quasi Edições, 2009.

Corta para o ciclo de debates “Como nasce uma obra-prima”. Semana passada discutiu-se “arte e loucura”. Com a ilustre presença do poeta, compositor e filósofo Antonio Cícero. Foi um deleite ouví-lo. Plano de erudição, nem sempre suas falas são facilmente inteligíveis, mas ele vai desenrolando os fios de uma prosa poética que nos prende, nos lambuza com o visgo da poesia, em doces e dolorosos labirintos de angústia e descobrimentos. Também um ótimo declamador, enobrece-nos e espanta-nos com Borges, Holderlin, Vinicius de Morais. E Antonio Cícero. Ponto para Claudio Nigro, o curador do ciclo das obras-primas e amigo do poeta. Nossas almas saem banhadas de luz e sombras, que nos revigoram e ressignificam a existência massacrante na metrópole.

ÁGUA PERRIER  (Antonio Cícero)

Não quero mudar você
nem mostrar novos mundos
pois eu, meu amor, acho graça até mesmo em clichês.

Adoro esse olhar blasé
que não só já viu quase tudo
mas acha tudo tão déjà vu mesmo antes de ver.

Só proponho
alimentar seu tédio.
Para tanto, exponho
a minha admiração.
Você em troca cede o
seu olhar sem sonhos
à minha contemplação:

Adoro, sei lá por que,
esse olhar
meio escudo
que em vez de meu álcool forte pede água Perrier.

In Esses Poetas, Rio de Janeiro: Aeroplano, 1998.

Renan

 



Escrito por RENAN BARBOSA às 19h30
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COMO NASCE UMA OBRA-PRIMA I

 

Participo, como plateia, lógico, de um evento promovido pelo Centro Cultural Banco do Brasil, “Como nasce uma obra-prima”. Com curadoria do artista brasileiro, radicado na Itália, Claudio Nigro, e distribuído em dois dias da semana pelo espaço de um mês, tem convidados de peso, do Brasil (Chico Cesar, Antonio Cícero, Lígia Fagundes Teles, Duofel, entre outros) e de fora (como a socióloga italiana Maria Giovanna Musso). Não dá para descrever as aulas de cultura, estética, história da arte, e as reflexões sobre a arte contemporânea, que o ciclo de debates tem proporcionado. O evento em si, pontuado pelas magistrais aberturas do curador, Claudio Nigro, já é uma obra-prima. Como não sou intelectual e minha cultura só chegou até o Sudeste do Brasil, às vezes me sinto perdido, mas sem autocomiseração ou sentimento de inferioridade. Nem tudo que não compreendemos fica no terreno do incognoscível – acredito. Mas vai para um canto da alma, do inconsciente, e lá produz um trabalho silencioso, de nos moldar, aclarar, estender, ler, invadir, confundir, preencher. “Não é gente que lê a poesia, é a poesia que lê a gente”, nos advertia o genial Mario Quintana.  E assim, deixo que o evento me leia, me passeie, e me sinto parte de um grupo que dispõe a compartilhar experiências tão ricas quanto definitivamente modificadoras de suas trajetórias. Mesmo que nós, os artistas espectadores, não venhamos a criar nenhuma obra-prima depois de participar deste ciclo de debates, certamente sairemos plenos de conhecimento, de questionamentos, de esperança, mais inteligentes, por assim dizer, para manter o nosso fazer artístico cotidiano e multiplicar as descobertas para mais e mais pessoas. Hora de retribalizar, Chico César afirma. E eu me convido para a roda. Como convidados estão todos os virtuais leitores deste blog. O mármore está aí, convidando-nos a tirar os excessos que impedem a forma definitiva de se revelar.

Há poucos dias, pude contemplar de perto não o nascimento, mas a manifestação, a personificação, por assim dizer, de uma obra-prima: um show de Ney Matogrosso. Este, da turnê do CD “Beijo Bandido”, eu ainda não vira. Que prêmio para um espectador, que ventura, que acontecimento! Acompanhado por um grupo soberbo de músicos, numa formação quase camerística, com um figurino impecável do mestre Ocimar Versolato e a luz que é uma atração à parte em seus shows, concebida pelo próprio Ney, acompanhamos algo que o próprio CD ficou devendo. Do disco, restou uma sensação de déjà vu e de uma certa colcha de retalhos que desafiava a própria versatilidade do intérprete. Mas no show, que basicamente reproduz o repertório do disco, há uma unidade surpreendente, e é como se as composições registradas ganhassem uma outra vida, um outro sabor. Até “Bicho de sete cabeças” surpreende, tornando-se quase a música mais bonita do show, algo de tirar o fôlego, de aplaudir com os “joelhos no milho”. No CD, a gravação me parecera apenas “mais do mesmo”, numa canção um tanto gasta que Elba já imortalizara. Mas o palco é Ney, é de lá que ele arranca suspiros, gritos, cantadas, declarações de amor de homens e mulheres da platéia. E ele explora a fantasia, a sensualidade que ainda é capaz de ostentar beirando os setenta. Com uma voz que é uma aula de afinação, potência e juventude. E um corpo que se sabe, que não faz um movimento que não seja pensado, testado, numa tensão que serve fundamentalmente à música porque é do corpo, tanto quanto da alma, que ela emana. Até para pegar a água ele conserva o corpo teso e estudado. Nada é desperdiçado. Um mago sabe onde e como concentrar a magia. O show é curto, dura uma hora ou menos, saímos com a sensação de que nem dez minutos se passaram, mas saímos inundados de gozo. Uma obra-prima, capaz de transformar para sempre a inutilidade de um domingo.

Renan



Escrito por RENAN BARBOSA às 14h12
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COMO NASCE UMA OBRA-PRIMA II

Curtas mensagens:

# A São Paulo Companhia de Dança, com apenas três anos de existência, com certeza é uma das instituições mais sólidas, sérias e produtivas deste país. Ontem fui a uma apresentação da companhia, no Teatro Sérgio Cardoso. Ali podemos afirmar, também, que uma obra-prima se fez.  Não cabe descrever, há que se apreciar. Além do programa em cartaz neste final de semana, no próximo, 26, 27 e 28 de novembro, haverá mais, com um outro repertório . E eu estarei lá. A linguagem da dança é única e personifica como poucas o que é o destino da arte.

## Como comentei, fui ao show do mineiro Kristoff Silva (http://www.myspace.com/kristoffsilva) no SESC Vila Marina. Ele é um cantor de rara delicadeza na voz e no jeito de interpretar. Suas composições são um convite à beleza, e não precisam mais do que uma voz e um violão para se fazerem plenas. Ainda houve a participação luxuosa de Luiz Tatit, inspirador de Krystoff e com quem já compôs. Haja mãos para aplaudir!

### Nesses tempos de dissolução do EU, converso com Francisco Bosco, em nosso correio virtual, sobre como precisamos de sua prosa para nos lembrar que é a obra que importa, não a vida do artista e os mexericos que podem se criar a partir dela. Não teremos mais seus textos na Revista Cult porque ele agora é colunista do Jornal O Globo. E acaba de lançar livro novo, de ensaios que dialogam com a Psicanálise: “e livre seja este infortúnio”. Já encomendei meu exemplar na Livraria Cultura. Meu Deus, sempre pergunto a Ele, “por que não me deste o cérebro de Francisco Bosco e sua maneira de enxergar o mundo”? Ressentimentos com o divino... A insatisfação é marca registrada do humano.

Renan

 



Escrito por RENAN BARBOSA às 14h09
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BRUNA CARAM “E O SENTIDO DA VIDA”

 

 

Assisti, recentemente, na nova, bonita e ainda um pouco desorganizada casa “Acústica SP” (www.acusticasp.com), a um show da cantora Bruna Caram. Fui movido pela curiosidade de conhecer tanto o “Acústica” quanto a própria Bruna, de quem eu não sabia quase nada (mesmo ficando restrito à MPB e ao jazz, é muita gente pra ouvir, ler, acessar a obra e a carreira). A casa é linda, um achado, e bem perto de tudo. Mas é da cantora que quero falar.  Bruna inicia o show com uma energia surpreendente, que se mantém até o final. E de pronto nos revela, através de caras, bocas, gestos abundantes e uma voz encantadora: quer nos conquistar. E nos conquista. Remeti-me diretamente à energia e alegria de Elba Ramalho em shows inesquecíveis nas festas de São João de Campina Grande, nos anos 80. Quem não viu, não sabe o que perdeu, porque jamais existiu no Brasil alguém como Elba no palco (mas agora ela está mais contida e permitindo-se certa melancolia). Bruna Caram sorri o tempo todo. Canta com gosto, emana uma felicidade desabusada. Explora todos os planos do corpo, de cima a baixo, demonstrando que não está presa, que não há pontos cegos: a música passa pela sua pele, pela corrente sanguínea, dos pés à cabeça, com alma, com gozo, leveza (teria estudado dança? De propósito, não fui atrás da sua biografia antes de escrever este texto). Sim, ela nos transmite um gosto em cantar, um transbordamento por ter a música dentro de si, uma felicidade de estar viva e decretar que hoje é um “feriado pessoal”, que não há como não se apaixonar. As canções, mesmo quando falam de separação, dor, tristeza, são interpretadas com alegria. E virtuosismo, mostrando que há técnica e seriedade no que ela faz. O figurino é incorporado à cena, vira um coadjuvante, participa da totalidade que ela nos convida a desfrutar. Maliciosa, ela nos pergunta quando vai pegar aquela criatura. Como se ignorasse que já tinha nos fisgado. A banda, onde está inclusive o seu produtor, é um assunto à parte.  Esquece das sutilezas, insiste num som vigoroso demais, não há espaço para a perfomance de cada instrumento em particular. Soa repetitiva e sem criatividade. Bruna ainda não percebeu que sua voz está maior do que a banda. Apesar do apelo pop, que talvez seja uma marca da cantora, ela em breve terá que se cercar de músicos melhores e mais versáteis (Morelembaum, José Miguel Wisnik, Nelson Ayres, Dante Ozzetti, LuizTatit e Benjamin Taubkin estão aí para provar que menos é sempre mais). Sua voz é a estrela, o barulho da banda só atrapalha. Mas cada aprendizado tem seu tempo: o tempo dirá se estou correto no meu diagnóstico. Comprei o CD e tenho comentado sobre essa jovem, portadora de um DNA musical invejável, com todos que apreciam boa música. Mas o que eu queria, no fundo, dizer, é o seguinte: Bruna Caram é voz, é corpo, é beleza, é palco: não se esconde atrás de velhos modernismos folk ou barulhinhos de pick up para ocultar uma voz deficiente. Não, ela é uma intérprete que só vai crescer e chegar a mais pessoas.  Por isso e para isso, sua mensagem soa simples, direta, mas com composições belas, dela própria e de jovens e promissores compositores.  Ela nos revela, gratuitamente, qual é “o sentido da vida”: o sentido da vida é a alegria! E como precisamos disso em São Paulo!

 

 

Renan



Escrito por RENAN BARBOSA às 10h55
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PARA QUE SERVE UMA LENY ANDRADE?

 

Um dia, LÁ SE VÃO MUITOS ANOS, cometi a estupidez de pensar: “quem precisa de uma Leny Andrade quando se tem uma Nana Caymmi?” Felizmente, guardei esse pensamento só para mim, nunca o revelei a ninguém nem cometi a segunda estupidez de publicá-lo no blog. Evitava contato com a obra de Leny, mas os deuses ,sempre generosos, foram me brindando com as gravações dessa cantora genial. E assim tive contato, gradativamente,  com as interpretações magistrais de A Ilha, Oceano e Avião, de Djavan , seu disco cantando Cartola (que demorei anos para encontrar, pois estava esgotado), sua bossa-jazz que é mais conhecida no resto do mundo do que no Brasil.

Recentemente, fui ao SESC Vila Mariana para assistir a um show dela. No começo me decepcionei: era o lançamento do seu novo CD, Alma Mia, com boleros cantados em espanhol. Descubro que ela recém chegou de cinco anos no México, que considera sua segunda pátria.  Mas fui sendo hipnotizado por aquela potência de 1,48m, pela sua inteligência, suas histórias deliciosas, o domínio absoluto da arte de ser estrela. Os boleros também me conquistaram, mas ela não ficou presa a eles. Inevitavelmente, passou para sambas, bossas, pérolas de Tom Jobim. Generosa, ficou pelo menos uma hora e meia em cena, sem nenhum sinal de cansaço, sem beber um único gole de água.  E que voz, que vozeirão, no melhor sentido do termo. Ela nos revela que já passou dos 65. Entretanto, não somos levados a pensar: “sua voz está jovem, não foi afetada pela crueldade do tempo”. Não, não há que se buscar extremos para situá-la. Sua voz está. É. Hoje. Agora. Eterna. Puro jazz. Mas absolutamente Brasil e brasileira. O que ela confirma  ao contar que, no exterior, só canta música brasileira em português, e que é disso que os gringos gostam (não esqueçamos que quase tudo de Jobim foi vertido para o inglês). Por isso ela não consegue parar de cantar na América nem passar muito tempo no Brasil, revela, fingindo-se entediada.

Ainda bem que o público paulistano fez a sua parte: o SESC estava lotado! Quanto a mim, não me perdoaria se não tivesse visto Leny cantando ao vivo (afinal, a primeira vez a gente nunca esquece..). Espero ter mais oportunidades de repetir esse prazer.

Fico feliz de que praticamente todos os textos que publiquei aqui, a respeito de shows e CDs, tenham sido elogiosos. Meu repertório gramatical parece insuficiente para as descrições e adjetivos apropriados, mas o que se há de fazer? Corro o risco de me tornar ou parecer repetitivo, mas felizmente a boa música sobrevive. E São Paulo, que me perdoem os que moram em outros lugares, nunca esteve tão musical, tão produtiva em todos os campos das artes. Posso assegurar que neste momento, a música acontece em São Paulo, o coração da cultura bate em Sampa (se é que já bateu em outro lugar, pois há muito ele está no cruzamento da Ipiranga com a São João).  Mesmo Maria Gadú, que canta com sotaque carioca e foi catapultada para a fama após mudar para o Rio, é paulistana. Cantar em Sampa não é fácil. É como alguém chegar querendo ser ator/atriz em Roliúde. Mas vale o desafio.

Cantores de todo o pais, sejam bem-vindos!!! No dia 18/11, no também no SESC, irei ver o mineiro Kristoff Silva, cantor,compositor e instrumentista dos mais sensíveis e talentosos, de quem sou fã absoluto. E já me preparo para um maravilhamento sem igual. Depois eu conto!

 

Renan



Escrito por RENAN BARBOSA às 10h47
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“O HOMEM QUE ENGARRAFA NUVENS”

 

 

O cinema: minha droga. Neste último final de semana estava especialmente melancólico, e o domingo só veio solidificar a angústia. E nada parecia suprir o vazio, talvez fruto da constatação, dolorosíssima, de que na segunda retornaria ao trabalho. Mas meus prazeres principais, ler, assistir um bom filme no telecine, ouvir música etc. etc. não trouxeram nenhum alívio. Sem energia para interações, e os poucos amigos que procurei não estavam por perto. Vaguei pela Livraria Cultura, descobri novos CDs, livros, nomes, mundos a explorar. Mas cultura custa caro, saí levando mesmo apenas a revista temática da livraria, que é de graça. E de repente, muito mais para me abrigar da chuva iminente que no fim parece que não caiu, vi-me no Espaço Unibanco de Cinema, sem as filas quilométricas habituais de domingo no final da tarde. E entrei para ver “O homem que engarrafava nuvens”. Já tinha visto o trailler, estava animado com a estréia desse longa, do diretor que já admiro, o pernambucano Lírio Ferreira. E sabia quem o documentário abordava: Humberto Teixeira, o “Doutor do Baião”, parceiro de Luiz Gonzaga em composições memoráveis. O filme é um primor do começo ao fim. Emocionante sem ser piegas, sentimental sem ser melodramático, profundo, esclarecedor, histórico sem pretender ser didático. E nos mostra a construção de um ritmo que ajudou a formar o Brasil, num determinado período de sua história, interpondo-se na malha de nossa cultura, na alma do povo, no imaginário da cultura nacional como o sapê que vai formando a casa sólida do sertanejo, derramado entre as tramas da madeira. Pouca coisa existiria na música brasileira, hoje, não fora a modernidade de Luiz Gonzaga e seus parceiros, o principal deles Humberto Teixeira. Um migrante, mas advogado, poeta, escritor, político, sonhador. Sem nunca abandonar suas raízes e as tradições do seu povo, o que rendeu músicas inesquecíveis como Asa Branca, Baião, Kalu, Paraíba. Unido a outro migrante, o ousado e sempre moderno Luiz Gonzaga, que soube tornar-se uma celebridade e inventar para si figurino, acompanhamento e uma mítica próprios de grandes estrelas, formando um estilo único e original e revelando o Nordeste ao Brasil e ao mundo.

O filme, que também mostra a filha de Humberto, a atriz Denise Dummont, numa viagem interna e concreta em busca da imagem do pai, conhecendo-o algumas vezes quase que simultaneamente a nós, espectadores, é maduro, bonito, lírico. Um dos seus trunfos principais, talvez o maior deles, é a montagem, primorosa. Senti falta apenas de legendas, em alguns momentos em que desconhecidos invadem a tela, cidades não são reveladas, filmes antigos não identificados. Mas isso não compromete o filme, talvez as pessoas nem tenham a mesma queixa. O filme é uma poesia. E termina de modo magistral, mostrando a força da música nordestina ainda hoje, e fora do Brasil. Foi quando mais me emocionei: ao ver Bebel Gilberto dando a sua contribuição charmosa e misturando baião e bossa, português e inglês, numa interpretação linda de “Juazeiro”, e David Byrne, que pareceu incorporar a força e “rudeza” da voz de Gonzaga, ao interpretar um dos clássicos do nosso baião. Um sertanejo não cantaria melhor!

O filme salvou minha vida no final de semana. Pronto, eu já podia começar minha nova rotina nesta segunda!

Blog oficial do filme: http://ohomemqueengarrafavanuvens.blogspot.com/

 



Escrito por RENAN BARBOSA às 22h00
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"DEUS ME PROTEJA DE MIM"

Não curto tendências fatalistas, apesar de pessimista e dramático, não cultivo análises retrospectivas que levem a culpa e medo, embora não me possa dizer confiante e impetuoso. Mas não há como não refletir sobre acontecimentos catastróficos recentes, que nos levam a indagar por que alguns foram escolhidos para ter suas vidas mutiladas, destruídas, e outros tiveram a sorte de ser poupados. E por que tanto sofrimento imposto a alguns, enquanto nós continuamos nossa vidinha despreocupada e enfadonha? Também não sou leitor nem divulgador de textos de ajuda, auto ou hetero. Mas o que foi aquilo no Rio de Janeiro, num dia de festa como o réveillon? Por que a natureza se rebelou contra São Luiz do Paraitinga? O que é isso agora no Haiti? Que ironia ou lição se esconde atrás da vida e do falecimento de Zilda Arns, morta em combate, o combate do bem, da paz, da solidariedade? Depois de dedicar uma vida inteira a aliviar o sofrimento do próximo, é justo perecer de maneira tão brutal? Choramos, certamente não fui o único, mas do conforto do meu sofá. Daqui é fácil. Há um meio de ajudar? Há um meio de me ajudar? Porque, nesses momentos, é inevitável pensar no sentido da vida, e no que estamos fazendo da nossa. E tudo parece estéril, pequeno, pouco, mesquinho, sórdido. Que importa minha conta bancária avariada pelas férias recentes, o filme que estou precisando ver, a expectativa com o trampo novo que iniciarei semana que vem, a diarista que hoje se demitiu sem maiores explicações? O que é o pó do meu apê comparado aos escombros na vida, na alma, de tantos milhares de pessoas afetados por catástrofes recentes? Não sei se algo mudará em mim, dentro e fora, mas espero que sim. Porque, além do sentimento de gratidão por estar vivo e bem, e por ser um sobrevivente, de uma certa forma, parece que há algo mais profundo a descobrir. E a fazer.  Até a minha música parece pequena, nesse momento, porque cantar, “entreter” uma platéia parece pouco quando vemos que a Pastoral da Criança continua a existir e se espalhar e crescer porque há crianças sofrendo, há ainda muita pobreza no Brasil. E porque a nossa omissão contribui para tantos Haitis, dentro e fora daqui. Não são apenas os governos os responsáveis por distribuir melhor a riqueza, ou os ricos que gastam milhares de reais em bolsas e outros artigos de luxo nas Daslus de Sampa e da Europa. Com certeza há algo que podemos fazer. Além de rever nossa escala de problemas, de lamentações, de ceticismo, de mesquinharias. “Deus me proteja de mim”...Amém.



Escrito por RENAN BARBOSA às 12h20
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