O quereres


“O HOMEM QUE ENGARRAFA NUVENS”

 

 

O cinema: minha droga. Neste último final de semana estava especialmente melancólico, e o domingo só veio solidificar a angústia. E nada parecia suprir o vazio, talvez fruto da constatação, dolorosíssima, de que na segunda retornaria ao trabalho. Mas meus prazeres principais, ler, assistir um bom filme no telecine, ouvir música etc. etc. não trouxeram nenhum alívio. Sem energia para interações, e os poucos amigos que procurei não estavam por perto. Vaguei pela Livraria Cultura, descobri novos CDs, livros, nomes, mundos a explorar. Mas cultura custa caro, saí levando mesmo apenas a revista temática da livraria, que é de graça. E de repente, muito mais para me abrigar da chuva iminente que no fim parece que não caiu, vi-me no Espaço Unibanco de Cinema, sem as filas quilométricas habituais de domingo no final da tarde. E entrei para ver “O homem que engarrafava nuvens”. Já tinha visto o trailler, estava animado com a estréia desse longa, do diretor que já admiro, o pernambucano Lírio Ferreira. E sabia quem o documentário abordava: Humberto Teixeira, o “Doutor do Baião”, parceiro de Luiz Gonzaga em composições memoráveis. O filme é um primor do começo ao fim. Emocionante sem ser piegas, sentimental sem ser melodramático, profundo, esclarecedor, histórico sem pretender ser didático. E nos mostra a construção de um ritmo que ajudou a formar o Brasil, num determinado período de sua história, interpondo-se na malha de nossa cultura, na alma do povo, no imaginário da cultura nacional como o sapê que vai formando a casa sólida do sertanejo, derramado entre as tramas da madeira. Pouca coisa existiria na música brasileira, hoje, não fora a modernidade de Luiz Gonzaga e seus parceiros, o principal deles Humberto Teixeira. Um migrante, mas advogado, poeta, escritor, político, sonhador. Sem nunca abandonar suas raízes e as tradições do seu povo, o que rendeu músicas inesquecíveis como Asa Branca, Baião, Kalu, Paraíba. Unido a outro migrante, o ousado e sempre moderno Luiz Gonzaga, que soube tornar-se uma celebridade e inventar para si figurino, acompanhamento e uma mítica próprios de grandes estrelas, formando um estilo único e original e revelando o Nordeste ao Brasil e ao mundo.

O filme, que também mostra a filha de Humberto, a atriz Denise Dummont, numa viagem interna e concreta em busca da imagem do pai, conhecendo-o algumas vezes quase que simultaneamente a nós, espectadores, é maduro, bonito, lírico. Um dos seus trunfos principais, talvez o maior deles, é a montagem, primorosa. Senti falta apenas de legendas, em alguns momentos em que desconhecidos invadem a tela, cidades não são reveladas, filmes antigos não identificados. Mas isso não compromete o filme, talvez as pessoas nem tenham a mesma queixa. O filme é uma poesia. E termina de modo magistral, mostrando a força da música nordestina ainda hoje, e fora do Brasil. Foi quando mais me emocionei: ao ver Bebel Gilberto dando a sua contribuição charmosa e misturando baião e bossa, português e inglês, nehuma interpretação linda de “Juazeiro”, e David Byrne, que pareceu incorporar a força e “rudeza” da voz de Gonzaga, ao interpretar um dos clássicos do nosso baião. Um sertanejo não cantaria melhor!

O filme salvou minha vida no final de semana. Pronto, eu já podia começar minha nova rotina nesta segunda!

Blog oficial do filme: http://ohomemqueengarrafavanuvens.blogspot.com/

 



Escrito por RENAN BARBOSA às 22h00
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"DEUS ME PROTEJA DE MIM"

Não curto tendências fatalistas, apesar de pessimista e dramático, não cultivo análises retrospectivas que levem a culpa e medo, embora não me possa dizer confiante e impetuoso. Mas não há como não refletir sobre acontecimentos catastróficos recentes, que nos levam a indagar por que alguns foram escolhidos para ter suas vidas mutiladas, destruídas, e outros tiveram a sorte de ser poupados. E por que tanto sofrimento imposto a alguns, enquanto nós continuamos nossa vidinha despreocupada e enfadonha? Também não sou leitor nem divulgador de textos de ajuda, auto ou hetero. Mas o que foi aquilo no Rio de Janeiro, num dia de festa como o réveillon? Por que a natureza se rebelou contra São Luiz do Paraitinga? O que é isso agora no Haiti? Que ironia ou lição se esconde atrás da vida e do falecimento de Zilda Arns, morta em combate, o combate do bem, da paz, da solidariedade? Depois de dedicar uma vida inteira a aliviar o sofrimento do próximo, é justo perecer de maneira tão brutal? Choramos, certamente não fui o único, mas do conforto do meu sofá. Daqui é fácil. Há um meio de ajudar? Há um meio de me ajudar? Porque, nesses momentos, é inevitável pensar no sentido da vida, e no que estamos fazendo da nossa. E tudo parece estéril, pequeno, pouco, mesquinho, sórdido. Que importa minha conta bancária avariada pelas férias recentes, o filme que estou precisando ver, a expectativa com o trampo novo que iniciarei semana que vem, a diarista que hoje se demitiu sem maiores explicações? O que é o pó do meu apê comparado aos escombros na vida, na alma, de tantos milhares de pessoas afetados por catástrofes recentes? Não sei se algo mudará em mim, dentro e fora, mas espero que sim. Porque, além do sentimento de gratidão por estar vivo e bem, e por ser um sobrevivente, de uma certa forma, parece que há algo mais profundo a descobrir. E a fazer.  Até a minha música parece pequena, nesse momento, porque cantar, “entreter” uma platéia parece pouco quando vemos que a Pastoral da Criança continua a existir e se espalhar e crescer porque há crianças sofrendo, há ainda muita pobreza no Brasil. E porque a nossa omissão contribui para tantos Haitis, dentro e fora daqui. Não são apenas os governos os responsáveis por distribuir melhor a riqueza, ou os ricos que gastam milhares de reais em bolsas e outros artigos de luxo nas Daslus de Sampa e da Europa. Com certeza há algo que podemos fazer. Além de rever nossa escala de problemas, de lamentações, de ceticismo, de mesquinharias. “Deus me proteja de mim”...Amém.



Escrito por RENAN BARBOSA às 12h20
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A MÚSICA COMO CELEBRAÇÃO DA VIDA

 

Sou desses que pensam que a arte deve mais angustiar, incomodar, cutucar, do que simplesmente enlevar, entreter, alegrar...

Mas não posso deixar de mencionar que também sou amante do belo, da poesia, desses que têm sempre a perfeição em mente quando realiza algo. Recentemente tive três experiências de verdadeiro êxtase artístico, não como performer, mas como platéia, ouvinte, espectador.

A primeira:

Show do Cordel do Fogo Encantado, no SESC Pompéia, em comemoração aos dez anos de carreira do grupo. Teatro lotado, galera jovem, animada, toda em pé, clima de festa, de baile perfumado!!! O que dizer daqueles sons, daqueles tambores, dos ritmos e cantares nordestinos que o Cordel se esmera em desfiar, dançar, contar, cantar??? O que dizer de Lirinha? O óbvio: uma bardo, um santo, um louco, um repentista frenético que nos cativa, hipnotiza, ilumina, direciona, nos leva a viajar com ele sem nunca perder o caminho de volta, embora às vezes não saibamos se está sóbrio, drogado, bêbado, ou todos esses. E isso importa????

Para Lirinha não há interdições nem cobranças. Mais valem seu discurso, sua postura,seus credos. Como já foi dito antes, mas a respeito de Chico Buarque, até quando desafina Lirinha é lindo!

Durante o show, que assisti placidamente, dedicado apenas a observar aquela aula de arte e de palco do líder da banda, não pude deixar de me lembrar de Jim Morrison, e do filme “The Doors”. Eu não via índios ao lado do cantor, mas vi muitos cangaceiros, rifles em punho, sandálias de couro ricocheteando no palco, xaxado e maracatus formando um só ritmo, como que abençoando aquele sertanejo que grita nossas dores e nos comove e alegra ao mesmo tempo. E transmuta-se num xamã, num totem, num ídolo. A platéia estava em suas mãos. Se ele dissesse para pegarmos em armas naquele momento, nós o faríamos. Se nos mandasse tirar a roupa e nos entregar a uma zecelsa e orgiástica festa bacante, nós o faríamos! Lirinha naquele momento podia tudo. E até rezou, numa versão gutural, mas bela, de “Cio da terra”. E nós rezamos com ele, nos embriagamos com ele, cantamos e dançamos com ele. E ali era a vida em estado bruto, a alegria mais primitiva e portanto mais autêntica. O sotaque sem disfarces – comunhão com a terra, com a mãe terra, com a música terra, com o planeta Terra. Celebração da vida!

A segunda: show do baiano Jota Velloso. Confesso que apenas conhecia menções ao seu nome, amigo de amigos, compositor de renome etc. Tudo lotado, tudo alegre, tudo espontâneo. Tive a honra de sentar na mesma mesa que a cantora Vânia Abreu, convidada do show, e de conhecer pessoas fantásticas do mundo da arte que, generoso, Jota Velloso foi nos apresentando no palco. Ele entra: sem alarde. Pensei que ia passar o som, mas não, já era o show, com tudo. Pequeno, ele vai crescendo aos nossos olhos com a força de sua música, com sua voz que também mistura força e tradição de família, arte e criatividade levadas ao extremo. Seus gestos remetem ao repertório cênico do tio, com pitadas de Jorge Mautner, mas até aí nada que não se possa ter aprendido mais com o coração do que com a intenção. Jorge compõe, e muito, e bem. Lindas canções vão surgindo, a banda perfeita, os Cavaleiros de Jorge, mantém o clima de festa, e ele chama seus convidados, e a noite é toda Bahia, comunhão, tudo brotando com um certo ar de sala de casa, e nós, platéia, íntimos, quase a batucar nos pratos como o fazia dona Edith. Vânia Abreu chega e abrilhanta tudo. A voz jazz de Mara Nascimento também nos é apresentada, e nos faz agradecer a Deus a diversidade de estilos e de cantores, e tantos talentos ocultos e revelados em nosso país. Esqueci o cansaço, o compromisso logo cedo no dia seguinte. Valeu a pena ficar até de madrugada para participar dessa noite maravilhosa. E ver o que um músico do bem, que congrega, encanta, emociona, festeja a poesia, a arte, a alegria, é capaz de fazer quando deixamos nossos corações em suas mãos. Salve Jorge!!!

Foi ótimo participar de sua celebração da vida.

Terceira: gravação do DVD em comemoração aos quinze anos de carreira de Vânia Abreu. Eu acompanhei seu início, e há quase dez anos (ela é que fez as contas!) a assisti num show em Ribeirão Preto. Era o “Seio da Bahia”, levei amigos que não a conheciam e eles viraram fãs.  Vânia já era isso: honesta, clara, com propósitos muito definidos, uma bela voz que não se rende ao fácil e trilha sua estrada com altivez e suavidade. Suave é a noite. E nesta, recente, o Teatro Bradesco estava lotado (1.500 pessoas, pelo menos) e já aí eu chorei, porque sei o quanto um artista batalha para chegar neste ponto, e é bonito ver alguém vencendo com dignidade e perseverança. Vânia deu uma aula de como reinar num palco, num estilo oposto ao de Lirinha, pois ela é meiga e docemente sedutora, e de como ter uma platéia aos seus pés. Éramos súditos, reverentes, obedientes. Que importava ter que repetir alguma música, refazer isso ou aquilo, permanecer no teatro por três horas seguidas sem lanchinho e sem intervalo? Com uma banda de responsa, arranjos primorosos, uma calma exemplar, bom humor e presença de espírito para contornar todos os imprevistos sem perder o sorriso nos lábios, os nossos e os dela, um figurino perfeito digno de uma diva, um gestual elaborado, sem exageros ou faltas, Vânia foi assumindo o seu papel de grande intérprete da MPB, e houve momentos de tirar o fôlego, como aquele em que cantou “Sangue latino”, “Conto de areia e “Templo”, esta última de Chico César que, aliás, entrou em seguida para uma participação mais do que especial, eles que trilharam trajetória amiga e semelhante, ambos relembrando os tempos iniciais de vaca magras e fartas canções. Romântica, Vânia Abreu nos fez voltar para casa apaixonados, mais ainda, pelo seu belo trabalho, cantarolando o amor, a paixão, a amizade, a música. Celebrando a vida, enfim!

E nessas horas, acho maravilhoso ser platéia.



Escrito por RENAN BARBOSA às 21h04
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DE VOLTA AO BLOG

OBS.: Este blog é escrito em português castiço, ou seja, pré-reforma ortográfica

NOVO TEXTO: DERRAMARAM MEU LEITE

 

DERRAMARAM MEU LEITE

 

Estava em dúvida se recorria à internet, diga-se Google, para subsidiar um texto novo que pretendia escrever aqui, sobre a obra recente de Chico Buarque. Ir ou não ir? Fui! No texto que originalmente eu pretendia escrever, eu faria uma revelação surpreendente: a semelhança entre o personagem do livro “Leite derramado” e a canção “O velho Francisco”, ambas do nosso consagrado artista/escritor Chico Buarque. Sim, porque na música, do LP “Francisco”, de 1987, estão lá os mesmos elementos do livro: o cenário onírico, as memórias embaraçadas, o velho decadente que conta sua história igualmente decadente, sem muitas certezas do que conta, confabulando memórias reais e inventadas que têm como cenário um Brasil cheio de novos ricos, políticos desonestos, preconceitos, falcatruas, escândalos sexuais, mazelas sociais etc. etc. etc. E para culminar, eu diria que essa descoberta ia ao encontro de várias outras obras (musicais) de Chico, onde o universo do sonho é explorado, e realidade e ficção se misturam para criar um clima de ironia, contradições, humor, impossibilidade. Arremataria contando que o próprio Chico fornece essa pista, indiretamente, no documentário (magnífico, sensacional, emocionante e belo!) “Palavra (En)Cantada”.  “Trata-se de um longa-metragem, dirigido por Helena Solberg, que percorre uma viagem na história do cancioneiro brasileiro com um olhar especial para a relação entre poesia e música” (transcrito da sinopse do filme, no site www.palavraencantada.com.br).  No seu depoimento, Chico afirma que mesmo sua literatura está impregnada de um certo ritmo musical  - desculpem essa citação imprecisa, porque  só vi o documentário uma vez, no cinema. Sim, eu acabara de descobrir que o ritmo, o cerne, o germe, o embrião de “Leite derramado” estava ali, na antiga canção “o velho Francisco”, e teria a alegria de fazer essa revelação neste texto que redescabaçaria  o meu blog, após meses e meses de ausência. Sim, porque na “Bravo!” em que Chico e Caetano são matéria de capa essa semelhança entre os dois personagens não é citada, nem no documentário “Palavra (Em)cantada”, onde o livro recém-lançado não é sequer mencionado. Mas, como já contei, fui à internet. Levantei alguns arquivos. E descubro que Chico não esquecera que a letra inspirara o livro. Ele fizera de propósito, após ouvir a regravação de Mônica Salmaso (CD “Noites de gala, samba na rua”) para a música. Resolveu tomar o velho Francisco novamente como personagem, mas foi modificando-o, transformando-o de ex-escravo num branco elitista descendente de “importantes” políticos do Brasil colonial. Isto está publicado num dos tantos jornais diários que não leio sempre, e que para meu júbilo depois podem ser encontrados na internet. Mas fica a sensação primeira, e ilusória, do furo que eu pretendia dar. Prova que estou em sintonia com a obra de Chico, meu compositor preferido.

Chico parece obcecado pelo mundo dos sonhos. São tantas as canções em que o sonho é personagem ou motriz da ação, da estória c(a)ontada , que podemos supor que se trata de uma preferência, um gosto pessoal. Eu, de minha parte, abomino os sonhos. Tanto os do sono como os da vigília. Claro que sou um sonhador, mas lamento profundamente sonhar, acordado ou dormindo. Nunca permiti que meus pacientes, familiares ou amigos se estendessem muito nessa matéria. “Quero lhe contar um sonho que tive”, eis a frase que pode fazer uma pessoa se tornar indesejável para mim, e o tema que é a senha certa para o meu aborrecimento. Se sonhar comigo, só me conte se o conteúdo foi erótico! Gozou?!!! De outro modo, vá cacetear outro!  Mas o sonho é retratado com maestria no cancioneiro buarquiano. Assim, de memória, sem pesquisa, me vêm à mente a deliciosa “Não sonho mais” (“hoje eu sonhei contigo e caí da cama; ai, amor não briga, ai não me castiga, ai diz que me ama e eu não sonho mais”), a lírica Sonhos sonhos são (“sei que é sonho, não porque da varanda atiro pedras, e a legião de famintos se engalfinha”),  a própria “O velho Francisco” , “Outros sonhos” ( “sonhei que o fogo gelou, sonhei que a neve fervia,sonhei que ela corava quando me via/ sonhei que ao meio-dia havia intenso luar e o povo se embevecia”) e por aí vai.

Enfim, como não adianta chorar pelo leite derramado, vamos ler o livro, que é delicioso e escorre pelos lábios, pelas mãos, pelo coração, e sonhar os sonhos de Chico, que ele é mestre nessa matéria. Eu cá, apenas um amador, vou bebendo minha tetra pak de realidade. Será que azedou?...

Renan

 



Escrito por RENAN BARBOSA às 21h07
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           CAETANO VELOSO: O ÚLTIMO PROFETA!

Caetano, como eu já mencionei tantas vezes neste blog, é o meu artista preferido. Claro que eu não poderia viver sem as canções de Chico, a perene modernidade de Gil, as divinas vozes de Djavan, Milton e Luiz Melodia. Mas Caetano, ah, ele me fala mais de perto, até pelo seu jeito de ser artista, com tudo que há de bom e reprovável. Sou leonino como ele, entendo sua vaidade e sua arrogância… Não desconheço seus defeitos, mas queria ser (como) ele, queria “comê-lo”, “devorá-lo”…
Mas o propósito desse texto não é explicitar nenhuma fantasia dionisíaca, e sim escrever sobre como me chama a atenção o modo profético com que Caetano se antecipou a grandes questões nacionais e mundiais, que hoje ocupam exaustivamente a mídia, e que ele soube abordar, via canção, de um modo poético e fascinante. Não, ele não estava nos palanques, ele não se pretendia ouvidor geral da (des)nação, embora sempre contundente e irascível. Sou eu que simplesmente identifico em algumas de suas canções uma atualidade, um predizer, uma riqueza de pensamento e uma sagacidade no olhar, próprias daqueles que enxergam o seu tempo e um tempo adiante, mostrando-nos o que ainda vamos ser, ter e ver.
Artista genial que é, e um humanista, investido da lucidez e da loucura dos profetas, Caetano é daqueles que lêem e relêem para nós o passado, o presente o futuro, revelando-nos a nós mesmos, descortinando-nos o porvir que nossos olhos míopes se recusam a antever.
E lá está “Um índio”, muito antes da decantada moda do aquecimento global e da sustentabilidade, nos lembrando o quão criminoso seria apagar povos, florestas, culturas… “Um índio preservado em pleno corpo físico” (…) “mais avançado que a mais avançada das tecnologias”… Caetano sinaliza, denuncia, alerta, sem ser panfletário, piegas ou dogmático. Mas vemos os índios e a floresta virando carvão, os mendigos (quase índios de tão pobres, ou quase pretos, ou quase invisíveis de tão marginais) virando carvão, e os assassinos ainda passando no sinal vermelho, perdendo o verde. Ah, somos mesmo uns boçais! “Depois de exterminada a última nação indígena”, e “as fontes de água limpa”, para onde terá caminhado o Brasil? Teremos futuro? Em que nos baseamos para concluir que somos mais “civilizados” do que os índios, do que os sem-teto, do que os milhões de escravos negros que adubaram nosso chão com suas vidas acorrentadas? Civilizados? “Eu disse: não! que pensamento torto!” Por que negamos tão veementemente a realidade e precisamos que os mártires da Amazônia venham nos lembrar quem realmente somos?
Perdoem-me os admiradores de Tom Jobim (e eu som um deles), que escreveu a mais bela canção da MPB, “Águas de Março”, e um dos nossos maiores ecologistas mas, para mim, “Trem das cores” é a mais “ecológica” das canções brasileiras, com seu desfile ensolarado e belo da vida, a vida simplesmente, engrandecida por se abrigar nos elementos mais simples e harmônicos: cores, aromas, brisas, ângulos, janelas, jardins, geografias da pele. Uma sucessão de imagens que vão nos lembrando que a vida pode ser como um trem na janela: de ingênuos matizes, vibrante, bonita, em movimento. E só quem, na infância, conviveu com a grandeza do ato de juntar algum dinheiro para comprar as caras maçãs argentinas, numa época pré-globalização e antes que tivéssemos maçãs brasileiras em profusão, todas embaladas naquele fosforescente, sedoso e mágico papel azul (turquesa?), sabe valorizar o verso “a seda azul do papel que envolve a maçã”, que considero, talvez por pura nostalgia, o mais bonito da MPB.
Contemplando as casas simples “que vão passando ao nos ver passar”, concordamos que “gente é pra brilhar e não pra morrer de fome”. Mas canções são palavras, e fora da poesia afloram os podres poderes. Enquanto os homens os exercem, “morrer e matar de fome (…), são tantas vezes gestos naturais”… Alerta: cuidado com os falsos líderes carismáticos da América Latina, com suas roupas cáqui ou folclóricas de ditadores, ou escondidos sob o terno de grife e barbas hoje cuidadosamente aparadas e tratadas. Eles são prejudiciais à saúde. Os podres poderes, sigla após sigla, se sucedem, e haja congelamentos, precatórios, mensalões, cartões corporativos, dólares nas cuecas, inflação. E sobre a permanência de algo podre no ar, Caetano também nos advertia em “Vamo comer”: (…)“e quem vai equacionar as pressões, do PT, da UDR e fazer dessa vergonha uma nação?” As siglas são muitas, mas com força suficiente para desmatar os sonhos e a esperança e em assaltos pouco convincentes fazer sumir os “companheiros” dissidentes.
É como se Caetano, profeta de uma realidade que era e é, antecipasse a nossa decepção com Lula, com os projetos que nos prometeram resgatar a dignidade perdida, o fracasso das ONGs em consertar o que talvez não tenha conserto, e lá se vai mais uma CPI por água abaixo, entre acordos, passeios de iate, obras de arte e bancos subsidiados.
E o povo? Apesar dos riscos que corre, essa gente morena, fugindo do “horror de um progresso vazio”, vai atrás do trio elétrico, na pipoca, que abadá custa caro! Mas sabe que “a tristeza é senhora” e compra CD pirata para mitigar o sofrimento com rap e pagode.
Eu poderia elencar e escrever crônicas e mais crônicas sobre muitas canções do repertório tropical reluzente, desse mulato que sempre andou contra a via. Ele se sabe atemporal, e por isso gritou: “eu vou viver dez, eu vou viver mil, eu vou viver sem você”. Através dos tempos e apesar dos críticos. Ou de quem o abomina e persegue. Antes de ser uma dádiva dos artistas, não seria esse um atributo dos verdadeiros profetas: a permanência e a concretização de suas iluminadas visões?
E concluindo, elejo a mais espantosa de suas profecias: aquela escrita e descrita em “Manhatã”. É quase sobrenatural como ele pode definir Manhatan e seus símbolos, sem nunca imaginar a catástrofe do 11 de setembro, mas ao mesmo tempo relatando sutilmente o que viria: “todos os homens do mundo voltaram seus olhos em sua direção”(…) “Um remoinho de dinheiro varre o mundo inteiro, um leve leviatã/ e aqui dançam guerras no meio/ da paz das moradas de amor”…
Tantos tanques e iraques depois, desnecessário escrever mais, falar mais. Ele afirma em uma de suas canções mais recentes, de sua obra eternamente em progresso: “o mundo acabou”. Caetano tem razão. Se assim é, o que nos resta fazer? Vamos cantar. Ouçamo-lo. Porque tão bom quanto João é Caetano. E melhor que eles, só o silêncio.

 



Escrito por RENAN BARBOSA às 14h20
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O FILHO DA MÃE

(Da série “Dos impedimentos do amor”, escrita em parceria pelos irmãos Renan e Vitória Barbosa)

 

 

 

Os dois haviam crescido juntos, colegas de escola desde os primeiros anos. Era visível que construíam uma amizade destinada a durar a vida inteira, aquilo que se transforma em fraternidade e suporta as rachaduras do tempo.

Ela assistia a tudo , do seu lugar de jovem mãe, aprendendo este papel quando ainda nem deixara de ser filha, menina, adolescente traída pela fantasia de amor eterno. Carregando um filho pela mão. Nem sempre pesava muito; não era leve nem fácil. Mas ele a auxiliava, com uma compreensão genuína e inesperada para sua pouca idade, olhos ternos, sorriso calmo, simpatia quase exagerada que cativava adultos e crianças. E já nos primeiros dias de aula arranjara um amiguinho. Agora já não chamavam jardim de infância, nomes diferentes para as mesmas descobertas: interagir, brincar, conhecer os rudimentos da leitura, entrar em contato com o outro para além das paredes da casa. Combinavam entre si toda uma agenda social, que roubava o tempo das mães aflitas por satisfazê-los e respeitar solenemente os vínculos construídos pelos filhos. Adoeciam na mesma época, das mesmas gripes, alergias, amigdalites. Improvisavam acampamentos caseiros, ajudavam-se nas tarefas da escola. Só mais tarde os gostos começaram a se diferenciar, um mais inclinado ao futebol e o outro à música, um mais introspectivo e outro mais espontâneo, um mais autoritário e o outro dócil e complacente. Eles cresceram a partir dela. Mulher adulta, batalhando para garantir uma educação consistente ao filho. Os dois quase púberes, engalfinhando-se pelo controle do jogo eletrônico, ou para ver quem se conectava primeiro ao computador. Ambos confiando plenamente na maternagem que ela oferecia.

Ela enxugara seus corpos, seu choro, embalara-os e cantara para eles nas tardes chuvosas, seus homenzinhos, seus pequenos heróis. Aquele que dela nascera sempre reservava o sorriso mais franco para os estranhos, parecia sempre privá-la de sua porção de afeto, mas não era um filho distante. Com o tempo, os dois pareciam haver trocado de identidade, como se entrar na adolescência exigisse vestir uma nova pele, a assunção de um novo eu - oposto ao da infância.

Ela às vezes esquecia como era difícil criar um filho (um não, dois) sozinha. O parceiro deixara-a ao saber que ela estava grávida, não tinha competência nem idade para ser pai; mudara-se para a Europa e nunca quisera conhecer o garoto. Melhor assim. Sua vida parecia enredo de telenovela, mas na ficção a heroína sempre arranjava uma benfeitora que lhe deixava uma fortuna no último capítulo. Com ela a vida era dura, quase cruel, e não se sentia recompensada. Os homens, se a desejavam, logo fugiam ao descobrir que ela tão jovem já era mãe. E houve um dia em que se descobriu não tão jovem. Mas talvez por manter-se ativa e altiva, talvez por não se lamentar e seguir adiante sempre, seu corpo mantinha o frescor de uma idade que não tinha. Não foi fácil fazer 30 anos, carregando um filho que já estava quase do seu tamanho, e agora já combinava pizza e cinema com os amigos e reivindicava a liberdade de ir e vir sozinho, de ônibus. Houve um dia em que a proibiu de entrar no quarto sem bater, supervisionar seus banhos, dar palpite nas roupas que ia usar. Quem era aquele pequeno tirano que de repente decretava que a ajuda dela era dispensável? Como ela podia desistir de ser mãe e cuidadora?  Já não o reconhecia. Estava alto, com uma voz diferente, não permitia carinhos, nem que o beijasse à porta da escola. O outro, o seu protegido, parecia ainda recuar, temendo entrar nos obscuros caminhos da adolescência. Reclamava sua atenção e mantinha uma aura infantil e inocente. Era mais forte, mais inteiro, embora retraído. Buscava-a sempre com olhos melancólicos e suplicantes. Fazia-a sentir-se como um porto seguro.

Não esperava o que aconteceu algum tempo depois. Fora um choque, ou mais que isso, um abismo que se interpusera na sua convivência com aqueles jovens. Entrou distraída no quarto do filho, para recolher a roupa suja, e encontrou o amigo, que sempre dormia ali, quase um morador da casa, divertindo-se com um vídeo erótico na tela do computador. Ele não teve tempo de cobrir-se ou disfarçar. Ela não falou, ficou ali, silenciosa, colada ao chão e àquela descoberta. O filho saíra para a natação. Não imaginava que o outro estivesse lá. Despudorado, embora com mãos trêmulas, limpou-se na camiseta, enquanto fitava-a placidamente. E passou por ela, nu, quase a roçando enquanto caminhava em direção ao único banheiro da casa. Nunca comentaram o fato. Mas ele nunca mais a tratou da maneira habitual.  Passou a olhá-la com lascívia, mordendo os lábios, esgueirando-se em sorrisos provocantes, sempre que o amigo estava fora ou não podia flagrá-lo.

O amigo do filho não era mais o seu dócil protegido. Tinham ambos quinze anos e já falavam em garotas e iam a festas. Ficavam longas horas trancados no quarto, teclando, baixando músicas, o mundo parecia resumido ao orkut e ao msn. E ela, uma mulher sozinha de trinta e seis anos. Que agora era paquerada pelo melhor amigo do filho. Quando ele deixara de ser aquela criança frágil e insegura e se transformara naquela bomba de hormônios e auto-confiança?  Encarava-a com desejo. Sempre criava situações em que podia tocá-la, como ao pegar a sacola do supermercado das mãos dela ou ajudando-a a lavar a louça. Mostrava-lhe músicas capturadas da rede: rap, house, trance, lounge  e outros rótulos que ela não dominava.

(continua abaixo)

 

 

 

 



Escrito por RENAN BARBOSA às 20h03
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O FILHO DA MÃE - PARTE II

Seu filho assumira-se de vez como seu opositor. Não a procurava para conversar, falava-lhe de modo ríspido e obediência era um conceito absolutamente ultrapassado em sua relação com ela. Odiava-o em alguns momentos. Não podia reconhecer nele a criança carinhosa a quem dedicara a vida. Não se lamentaria, nunca fora dada a auto-comiseração. Mas a essa altura já não dormia, não comia direito, não conseguia mais se divertir com o cinema e o teatro habituais. Havia um adolescente de dezesseis anos que lhe olhava com tesão e mais de uma vez roçara suas nádegas enquanto lhe passava uma xícara para secar. Chegava mesmo a penetrar sua orelha com uma língua aflita e quente que parecia muito habilidosa. Ela não protestava, mas não acedia. Não diziam palavra. Ele agora saía do banheiro nu, enxugando-se, sempre que via que a porta do quarto dela estava aberta. Era um inquilino sedutor, que transformara em seu aquele lar, talvez por ter uma mãe displicente e pouco carinhosa, um pai que estava sempre viajando, ou talvez porque... Aprendera a amá-la? Seria possível? Algo os unia além daquelas manifestações de desejo? Não estaria ela também regredindo, tornando-se outra vez uma adolescente para assim conseguir aproximar-se do filho, falar a mesma língua que ele? Como haviam se distanciado! O seu garoto parecia não amá-la mais. Mas o outro, mestre na arte da dissimulação, conseguia assediá-la sem que jamais o amigo-irmão suspeitasse, e colava nela olhos suplicantes, e deitava-se em seu sofá sem camisa, exibindo um tórax másculo e atraente moldado em muitas horas de academia.

Ela não conseguia se concentrar no trabalho, mostrava-se irritadiça, desatenta, merecendo frequentes repreensões do chefe. Estava com olheiras, chorava todos os dias, tinha medo de voltar para casa, mas já não conseguia andar na rua sozinha. Sair de casa se afigurava uma tortura, tinha crises de ansiedade, sentia-se observada, oprimida, extenuada. O que ele queria lhe comunicar com aquele silêncio? Já não devia ser virgem, era um ídolo entre as meninas de sua idade, por que então a atormentava com aquele assédio constante? Não tinha coragem de fazer a pergunta. Ele lhe trazia pequenos presentes, disfarçados de gentileza: uma rosa, um bombom, um livro comprado num sebo, um DVD pirata. Era o primeiro homem que se preocupava com ela em vinte anos!

Quantas noites de insônia e fantasias, que nem os benzodiazepínicos comprados ilegalmente pela internet acalmavam. E o filho cada vez mais longe, dedicado apenas ao amigo, idolatrando-o, protegendo-o, cobrindo-o de atenção, ensinando-lhe a matéria da prova, ambos trancados naquele quarto como se nada mais existisse. E ela, não contava? Por que dedicar mais afeto ao amigo do que à mãe? A quem desejava de fato? Não, não pensava que entre eles houvesse mais do que companheirismo e amizade, mas do seu filho podia esperar tudo, aquele gigante de gestos delicados e voz macia que nunca revelava o que sentia! Agora era seu rival. Ela tinha que se contentar com os intervalos, as migalhas que sobravam da atenção do outro, competir com o próprio filho pelo afeto de um jovem! Era absurdo, sabia, mas era a sua realidade. QUANTO MAIS AUMENTAVA O SEU DESEJO PELO OUTRO, MAIS ODIAVA O FILHO.

Em seus dias torturantes uma certeza foi se sedimentando, aflitiva, obsessiva. O que sentia pelo amigo do filho não era só mera atração física. Amava-o. Sabia que podia nele confiar. Assistira a cada um dos seus progressos, suas descobertas, acompanhara seu corpo mudando enquanto se instalava nele um homem que a admirava e buscava-a com obstinada paciência. Não era só a beleza, o apelo físico, a graça adolescente. Era mais. Algo mais forte, verdadeiro e perene. Que nenhum beijo, nenhuma troca apressada de carinho iriam mitigar. Precisava tê-lo por inteiro, cuidar dele, receber o amor que com certeza ele também guardava para ela. Uma idéia começou a tomar corpo em sua mente, e a medida em que se transformava em planejamento ela conseguia ficar mais calma, dormir melhor, trabalhar com mais afinco. Voltou a sorrir. Todos perceberam a sua mudança, elogiavam o seu ar jovial, sua aparência saudável. As colegas de trabalho queriam saber que médico consultara, que cremes passara, se estava fazendo alguma terapia alternativa. Qual o segredo daquela disposição?

Não demorou muito para que pusesse em prática o seu projeto de felicidade. O filho não seria mais empecilho. Os seus anos de abnegação haviam sido perdidos. Agora era a vez de pensar um pouco em si mesma. Um dia, quando voltou da escola, ela o esperava impaciente e acolhedora. Depois de um abraço, que ele aceitou com os braços caídos, passou em seu pescoço uma corda de varal e apertou com força.  Em pouco tempo viu sua face branca se tornar gélida e sem vida. Ele quase não protestou. Tombou sobre seu colo, como se pedisse um último acalanto. Mas não podia mais acariciar aqueles cabelos, segurá-lo em seus braços com desvelo e ternura. Estava feito. Nada sentiu quando, após soltá-lo, o corpo do filho caiu  no chão da sala. Não haveria mais impedimento para o seu amor. Era a sua hora de ser feliz. Só precisava telefonar para o outro e combinar a fuga.

 

Renan  e Vitória Barbosa



Escrito por RENAN BARBOSA às 20h02
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“Ema, ema, ema!...

cada um”...

 

 

 

Sim, eu tenho problemas, eu sei. Principalmente na minha relação e no meu gosto para o cinema. Fui capaz de odiar filmes, ou de não me impressionar com eles, quando o mundo inteiro ficou tomado de amores, maravilhado, babando,  como em “O advogado do diabo”, “De olhos bem fechados”,  “Matrix”.

Apesar de amar cinema, tanto ou mais do que a música, esqueço imediatamente do enredo e do final do filme ainda na saída da exibição. Música? Trilha sonora? Nem a de “Cinema Paradiso” fui capaz de guardar. A música dos filmes não gruda em mim, embora eu não suporte filmes sem música. Então, o fato de ter problemas deve explicar o meu espanto, e a minha decepção, com os filmes brasileiros “A casa de Alice” e “A via láctea” - em cartaz.

Antes disso, um parêntesis: adoro filmes trash, produções de gosto e qualidade duvidosos, mas na TV. E assistindo aos filmes brasileiros, de todas as épocas, exibidos no Canal Brasil da tv paga, fico sem acreditar como, durante décadas, nossos atores, alguns de talento inquestionável, atuaram em produções tão esdrúxulas, inconsistentes, mal filmadas, mal sonorizadas, mal editadas, com roteiros precários e direção mais do que imprudente, e em sua maioria financiadas pela extinta Embrafilme. Os personagens parecem ser de um outro tempo, de uma outra era, mas não por se tratar de filmes “antigos”. Suas falas soam distantes e recitadas com enfado, que nem alunos em jogral no dia da pátria seriam capazes. Que maneira era aquela de interpretar? Alguns obviamente dublados, e mal dublados. Os enredos, ou a falta deles, beiram o idiotismo, as cenas de sexo cruas e apelativas abundam como que para preencher o vazio cinematográfico e aí rimos, rio quando vejo esses filmes B no Canal Brasil, principalmente os que passam numa sessão chamada “como era gostoso o meu cinema”. Rir é sempre o melhor purgante, como dizem. E as minhas insones e tediosas madrugadas paulistanas ficam assim preenchidas de algum lazer.

Felizmente, o cinema nacional ressurgiu e vimos produções maravilhosas como “Cidade de Deus”, “Abril Despedaçado”, “Central do Brasil”, “Carandiru”, “O ano em que meus pais saíram de férias”, “Depois daquele baile”, “O cheiro do ralo”, entre tantos outros. Agora até nos damos ao prazer de rejeitar alguns, como “Nina”, “Dois perdidos numa noite suja”, “Concerto campestre”, “Redentor”. E finalmente, chegamos à casa de Alice e cochilamos na Via Láctea. Sim, depois de ver estes filmes, cujos títulos já mencionei, fiquei pensando o que pretendiam seus roteiristas e diretores ao nos empurrá-los goela abaixo, obviamente com financiamento público. Elogiadíssimos, eu sei. O problema sou eu e meu gosto estranho... Por exemplo, em “A casa de Alice”, qual o propósito de vermos a personagem central entrar no banheiro, abaixar a calcinha,  fazer xixi, levantar, usar o papel, dar descarga, sair do banheiro,  numa cena que se arrasta por vários minutos e que não influi nem contribui na estória? E depois por que temos que vê-la em outra cena repetindo o mesmo ritual do xixi, mas desta vez dispensando-se de lavar as mãos? Seria essa a finalidade: exibir a falta de higiene da personagem? Registre-se, entretanto, a magistral atuação de Carla Ribas no papel título. Merecidamente reconhecida pela crítica. E o que dizer de “A Via Láctea”? Não bastasse o fato de Marco Ricca ser um dos mais aclamados canastrões do país, somos confrontados com a péssima dicção (missão espinhosa entender e ouvir as falas dela), combinada à falta de talento, da feiosa Alice Braga, a nova queridinha da América! E o filme, uma torrente de poemas e cenas desconexas mais apropriadas talvez ao cinema falado de Caetano, que eu não vi, ou à louca estética dos anos setenta e oitenta, à qual aludi. Uma declaração de amor a São Paulo? Já temos “Sampa”, Tom Zé, os irmãos Campos e Campana! Temos Itamar Assumpção e tantos outros. Onde estaria a cabeça de Lina Chamie quando ela escreveu aquilo?  Dias depois, Rubens Ewald Filho comenta sabiamente o que meus olhos assustados se recusavam a enxergar. Disse ele, se não o traio na reprodução, falando justamente dos filmes em questão, que parece que estamos de volta a uma estética naturalista no cinema nacional, com filmes que mostram a vida dos personagens sem pretensão de fechar uma trama, uma história, apenas mostrando o cotidiano das pessoas. Então, viva o naturalismo! Vamos botar o povo pra fazer xixi no cinema e declamar poemas na calçada. Torço para que “O signo da cidade”, que estreou ontem, não seja também um delírio da mente bonitinha e politicamente correta de Bruna Lombardi, ela que parece sempre falar, olhar e pensar em câmera lenta.

E peço desculpa por expor assim este meu problema com o cinema. Retiro o que disse sobre todos aqueles filmes, porque sei que o doente sou eu, o desviante sou eu, eu que não compreendo “a proposta”. Mas como está na moda mostrar o cotidiano fastidioso de personagens comuns, sem trilha sonora (por que reclamo, se não apreendo a música dos filmes?), dei-me o direito de colocar aqui estes pensamentos que devem ter parecido enfadonhos e óbvios demais a alguns, se é que me lêem... Mas isto é a vida como ela é! Ou não. (rs...)

 

Renan

 



Escrito por RENAN BARBOSA às 09h55
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MARTINÁLIA É O CARA

Martinália é o cara!

Sim, a filha de Martinho da Vila que se lançou já há alguns anos em carreira solo, é uma Cássia Eller do samba, embora tenha um talento e voz únicos,  que não precisam de comparações... Martinália, apesar do jeito masculino e largado (ou isso seria parte do seu charme?), tem uma presença de palco incrível, é louca, assanhada, elétrica e eletrizante, alegre e muito sensual. E canta muito bem. Querem conferir? Vejam o DVD “Martinália em Berlim”. Vi-a no palco este finde, no SESC Pompéia, mas fiquei algo decepcionado. Ela estava no mínimo muito embriagada. Errava as letras, atravessava, falava coisas sem sentido numa voz pastosa e ininteligível. Gritou e foi grosseira com a banda todo o show. E os músicos pareciam visivelmente pouco à vontade e constrangidos, e com o tesão de tocar afetado. Reclamava da cerveja que o roadie demorava a trazer e aceitava contente as latas que as moçonas assanhadas da platéia lhe ofereciam. MAS O SHOW FOI UMA FESTA! E torço para que Martinália não entre no mesmo caminho auto-destrutivo da minha grande musa Cássia Eller, a ponto de comprometer sua performance no palco.

Na trilha das boas e mais ou menos novas cantoras, há Marina de La Riva, que encanta com sua mistura de música brasileira e cubana. Há Kátia B com sua música espacial. Cibelle que já chega encantando e seduzindo com uma “pós bossa-tudo”. Há, na verdade, uma desconcertante profusão de novas cantoras. No canal de música (MPB) da NET, é possível ouvir cantoras das quais jamais ouvimos falar, mas com trabalhos maduros, bonitos, bem-acabados. Nas gôndolas das nossas megastores, cada dia um nome novo nos chama a atenção. Mas todas naquele estilo vozinha afinada e meio bossa-meio mudernidade, com releituras, regravações ou letras que reciclam temas já mais do que cantados e decantados. Quanto ainda teremos de esperar pelo surgimento de uma nova Gal, de uma jovem Bethânia, de uma Nana reencarnada? Vozes únicas, carreiras maravilhosas e nomes inscritos na calçada da imortalidade! História viva! E para sempre na História! Nem vou mencionar Elis, para mim a encarnação da música, o ponto mais profundo onde a emoção de um artista pode chegar, a voz definitiva, o maior presente que o Brasil deu ao mundo. “Eu vou viver dez, eu vou viver mil, eu vou viver sem você”...

Todos passaremos. Elas não.

Mas no último post eu havia prometido comentar o novo CD de outra das minhas musas: Elba Ramalho. Ela pergunta qual o assunto que mais nos interessa. Assume ares de politizada e vai ao encontro dos ritmos pernambucanos para nos fazer pensar. Sim, alguém precisa levantar a voz contra tanta bandalheira institucionalizada, a MPB perdeu há muito seu papel de denúncia e reflexão, são outros tempos, afinal, mas será que Elba acertou no tom?
Seu disco começa com “Gaiola da saudade”, do magistral e arquetípico Maciel Salú, e mais para frente nos delicia com uma ótima gravação da já clássica “A natureza das coisas” (“se avexe não/ amanhã pode acontecer tudo, inclusive nada”; se avexe não/ que a burrinha da felicidade nunca se atrasa”). Elba, leonina e vaidosa, se deixa levar por uma certa superficialidade, já à vista nas fotos do CD, com excesso de recursos digitais que tentam, inutilmente, apagar os efeitos do tempo e as imperfeições da pele. A voz aparece contida, explorando os espectros do grave, mas com perda do brilho e da força que lhe são peculiares. E aí, uma frustração: nada da inventividade, da força rítmica e sonora dos CDs “Leão do Norte” e “baioque”. Os maracatus e outros ritmos de Pernambuco aparecem de forma muito sutil, disfarçada, tímida. Não nos pegam a alma pela mão levando-nos a descobertas e surpresas. Os arranjos abdicam da força dos tambores e dos pandeiros, dos pífanos e epifanias. Talentosíssima emboladora de cocos, herdeira legítima da genética de Jackson do Pandeiro, o que a aproximaria, inevitavelmente, do samba, erra na apagada gravação de “As forças da natureza”, de João Nogueira e Paulo César Pinheiro”, que fica deslocada no disco, a não ser pela mensagem “política” de inconformismo com a ordem atual de desgoverno. Arrisca-se na bela “Noite Severina”, de Lula Queiroga e Pedro Luís, que já recebeu uma versão definitiva de Ney Matogrosso e o grupo Pedro Luís e a Parede. Mas dá o seu recado. Talvez com o tempo a gente vá gostando mais do CD, que de outro modo está longe de não ser bom. Mas não é tudo o que promete. Resta-nos esperar que Elba volte ao forró e às canções românticas. Na minha opinião, Elba é a melhor intérprete de Chico Buarque, e parece que ela ainda não descobriu até onde sua voz pode levá-la, ou engana-se ao deixar para trás a tradição e buscar compositores mais contemporâneos somente para parecer rejuvenescida. No palco ela é inigualável. Mas ainda não tive notícias do show deste disco. Quem souber, me conte. Enquanto isso, ouça Martinália nos advertindo, e isso sim nos interessa: “quero ver se você tem atitude/ se vai encarar!”

 

 

Renan



Escrito por RENAN BARBOSA às 12h52
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DO SAMBA DE LATADA E OUTROS PAGODES

 

 

 

Sim, estava devendo textos novos. Uma amiga me pressionou: “entro no seu blog, mas está sempre desatualizado”...

Algumas coisas legais aconteceram, mas a escrita da crônica não é uma coisa que flui sempre, mesmo quando achamos que o conteúdo já está presente...

Eu me perguntava: “sobre o que escrever?” Os últimos filmes que vi? A vida, com sua complexidade, enigmas nem sempre claros, surpresas, descobertas?

No fim, embalado pelo êxito das duas últimas apresentações do “Bom-dia, Nordeste”, neste  mês de novembro, aqui em Sampa,  e impregnado de música, por este e outros motivos, inclusive pela audição de alguns CDs novos e por já estar trabalhando no projeto do meu próximo show,  dei-me conta de que só poderia falar de música neste texto de retorno.

Da parte do amigo  Albertinho (Alberto Eloy, ator paraibano que mora no Rio de Janeiro e estava em cartaz aqui, com a peça Ariano, de Gustavo Paso e Astier Basílio, e fez participação especial no meu show), um filósofo e pesquisador musical informal,  fico conhecendo Maciel Salú, de Pernambuco, com o seu fantástico “Maciel Salú e o terno do terreiro” (www.brasileirinho.mus.br/artigos/macielsalu.htm). Maracatus, sambas, caboclinhos, e a autêntica música nordestina, do barro do chão mesmo. Não por acaso, dias depois compro o novo CD de Elba Ramalho e lá está a música “Gaiola da saudade”, de Maciel Salú,

abrindo o disco. De Recife também me chega o Eddie, grupo que também dá uma roupagem original e contemporânea a ritmos ancestrais de Pernambuco, com ênfase para o samba, ou uma variação dele, pois confesso que ainda sou um ignorante dos nossos ritmos, e tudo na minha cabeça vira uma salada multisonora: martelo, coco, samba, baque solto, ciranda, caboclinho... Pois bem, tive a sorte de assistir ao show do Eddie, no Studio SP (www.studiosp.org/), um clube da Vila Madalena que tem trazido artistas originais e emergentes da música nacional, em projetos com cara de balada e uma galera pra lá de animada e participativa. Fiquei fã absoluto e imediato do Eddie. O vocalista, apesar de não ter uma voz muito potente, consegue ser cativante e dá muito bem conta do seu recado. É calmo, carismático, não deixa o pique do show cair em nenhum momento.

Por outro lado, como manter-se antenado de tudo que rola no mundo da música é virtualmente impossível, ainda sou quase um ignorante do Cabruêra (www.fotolog.com/cabruera), grupo de Campina Grande que já fez várias turnês mundiais e naturalmente deu as caras em SP. Só os vi uma vez, no São João de Campina, na formação antiga, com um som maravilhoso, mas à época ainda devendo aprimoramentos vocais. Meus amigos e amigos e fãs da banda, Albertinho mais Rafaela Trindade, garantem que eles têm valor e estão em permanente contato com a sua gente campinense, nutrindo-se da energia que só a nossa terra consegue nos fornecer.

E aí, também dos lados de Pernambuco (juro que essa incursão foi totalmente ao acaso), fico conhecendo Josildo Sá, que vi recentemente, proseando e cantando ao lado de Paulo Moura, no programa Sarau, do jornalista Chico Pinheiro. Josildo criou um rótulo para uma música que nem de longe tem cheiro de novidade, na qual se faz uma junção de forró com samba, à qual batizou de “samba de latada”, numa alusão àqueles puxadinhos de zinco das casas simples com cadeiras na calçada, sob os quais o povo se reúne para dançar e cantar a alegria. Josildo tem um site bastante organizado, com músicas para download, inclusive (www.josildosa.com.br/).   Mas o surpreendente é que ele conseguiu gravar um disco inteiro em parceria com Paulo Moura, e o samba de latada já está nas lojas. Josildo, que esteve inclusive na última edição do Tim Festival, como vocês poderão ouvir, não é um cantor muito privilegiado. Tem a alma de artista, o amor pela música regional, é articulado, tem estilo, é  alegre, um showman. Mas a voz... Pois bem, aí fico pensando onde anda o nosso Biliu de Campina (www.liaa.ufcg.edu.br/musica/biliu/), o legítimo sucessor de Jackson do Pandeiro, com uma voz curta mas afinada, um humor genial e irreverente, um pandeirista magistral, compositor e embolador de coco da melhor qualidade. Ele também deveria estar gravando com Yamandú Costa (www.yamandu.com.br/), com Dominguinhos (www.biscoitofino.com.br/bf/cat_produto_cada.php?id=274), com Paulo Moura. Ele também deveria ser convidado do sarau de Chico Pinheiro, contando causos e embolando seu incrível repertório de cocos e forrós. Fico pensando como o destino, ou a persistência de Josildo Sá, podem tê-lo reunido à Paulo Moura. E me arrependo, mais uma vez, de não ter acessado, nunca, nossa eterna rainha do forró e do xaxado, Marinês (www.facom.ufba.br/pexsites/musicanordestina/marines.htm), enquanto ela vivia. Ela estava ali, em Campina Grande, amiga de amigos e familiares meus, mas eu achava que não teria o que conversar com ela, o que mostrar, além do carinho e da admiração mudos de tiete. Fui vencido pela timidez, e os deuses resolveram este ano que Marinês deveria fazer festa no céu, tolhendo-me definitivamente a chance de conhecê-la. Nem sei se ela chegou a ler a crônica que eu e minha irmã e jornalista Waleska publicamos em parceria num jornal campinense, há dois anos, em homenagem ao seu aniversário de 70 anos.

A propósito, onde anda a música paraibana? Para além dos mitos já consagrados e do Cabruêra? Tudo bem que nos falta a consistência histórica e o ego inflado mas atuante dos pernambucanos, mas temos consistência cultural, temos talentos, nomes. Temos? Ainda os temos? Bem... o novo CD de Elba é calcado nos ritmos, compositores e músicos de Pernambuco. Mera coincidência? Ou temos lições preciosas a aprender com os músicos e artistas pernambucanos? Sobre o disco novo da minha ídola, e outros lançamentos, comento no próximo texto. Até breve!

 

Renan

 



Escrito por RENAN BARBOSA às 13h21
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                                     A culpa, o lixo e as sacolas

 

 

Ah, a culpa...

A católica, a dos moralistas, a dos que tentam ser politicamente corretos. Tenho muita preocupação com o volume de lixo que produzimos e acho que pessoas que jogam lixo na rua deveriam ser submetidas a duras penas (o mesmo vale para quem cospe na rua ou masca chiclete em público, mas esse não é o foco deste texto). Mas comportar-se de modo civilizado não é uma virtude natural. É preciso treino pra não atirar no chão o papel de bala, o panfleto inútil da esquina, o tíquete do cinema. Também sou presa dos estímulos das soluções fáceis, mas... a culpa! Mesmo quando não há ninguém olhando. Afinal, é o medo do olhar dos outros que muitas vezes nos tolhe determinada ação ou travessura. Entretanto, o super ego existe e é. O avesso do olho do outro. Dentro de nós.

E por mais que tenhamos que através de ações individuais e coletivas fazer algo para acudir o planeta que agoniza, acho estranho como o tema do aquecimento global virou uma coisa massificada, na moda, na pauta, perseguindo-nos aonde quer que andemos, como o olho do ‘Grande Irmão’. Até os fabricantes de cerveja publicam anúncios dizendo que estão tentando salvar o planeta. E haja bandeiras: abaixo os carros, viva os biocombustíveis (e salve as queimadas de cana!), atenção com a água desperdiçada nos condomínios, casas ecológicas são a bola da vez, recicle o óleo de cozinha (felizmente não cozinho em casa nem como frituras), rejeitar produtos que venham embalados em bandejas de isopor, preferir embalagens de alumínio e papelão às plásticas,  e finalmente o grande vilão do momento são as sacolinhas. 400 anos para o plástico se decompor, bueiros e córregos entupidos e as enchentes; ouvi dizer que no Pacífico há quilômetros de sacolas plásticas forrando o chão do mar. Eu era do grupo que me sentia feliz usando as sacolinhas, pelas quais sou capaz de brigar sempre que me são negadas - talvez por ter vivenciado os imemoriais tempos dos sacos de papel, que se rasgavam assim que a gente saía do mercado. Sentia-me responsável e cuidadoso usando depois as sacolas para acomodar o lixo doméstico, o orgânico, já que o meu prédio graças aos deuses recicla!

E eis que dia desses leio uma matéria alertando: “se você recorre à desculpa de usar as sacolas para guardar o lixo, desista! Elas abarrotam os aterros, ajudam a poluir o solo, as águas, há baleias sendo encontradas mortas com centenas de quilos de sacolas plásticas no estômago!” Sempre peço no mercado, que entrega as minhas compras, para não acomodar os produtos apenas na caixa de transporte. Exijo as sacolas. Mas isso era antes. Agora, me sinto culpado. Acompanho a discussão em torno do plástico biodegradável, a campanha que sugere que nós mesmos embalemos nossas compras em sacolas trazidas de casa, os desfiles das sacolas de pano vips criadas por grandes estilistas.  Não, não fui ao desfile, só leio jornal uma vez por semana (é o suficente, a realidade não me anima a viver). Cada vez que deposito meu lixo nas sacolinhas de supermercado, fico com aquela sensação de transgressão, de pecado, de estar deliberadamente fazendo mal a mim e aos filhos e netos que não terei. Ainda bem que não vou à feira livre. Seria um dilema ver todas as frutas e legumes sendo colocados em dezenas de sacos plásticos. Ou será que teremos que voltar aos tempos dos balaios na cabeça (ria, você com certeza seria o empregador e não o balaieiro), ainda tão caros ao povo nordestino?

Mas cada vez que me lembro de nós, há muitos anos, quando eu ainda morava na Paraíba, em grupos de irmãos, carregando no ônibus sacos de papel que se rasgavam com o peso, com os gelados, e depois andando um ou dois quilômetros a pé, debaixo de um sol insuportável ou de chuvas impiedosas, até chegar no Quilombo dos Barbosa, no bairro de Bodocongó, equilibrando os produtos libertos, perseguindo-os enquanto rolavam ladeira abaixo, não deixo de louvar a invenção das sacolas plásticas. Que ficam a cada dia mais finas, mais transparentes, mais frágeis, penso que qualquer dia serão invisíveis...

Mas eis que, para aliviar minha culpa, na Folha de São Paulo do dia 05 de outubro havia um informe publicitário, dos fabricantes de plásticos e afins, afirmando que eles estão preocupados com o destino final das sacolas e pensando em soluções para que aquelas se tornem mais resistentes, reutilizáveis,  etc. etc. Pronto! Um alento, uma formação de compromisso para a minha culpa. Eles, os poderosos, os fabricantes, os verdadeiros responsáveis, vão pensar numa solução. Como sou crédulo e influenciável, acredito neles. Mas, até que isso aconteça, nunca mais sairei do supermercado tão em paz.

Matar uma formiga ou um pernilongo, vá lá. Mas acabar com o planeta, esse é um peso que meus ombros cansados não podem carregar.

 

 

 

Renan



Escrito por RENAN BARBOSA às 18h15
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SÍNDROME DE DORIAN GRAY

 

 

 

Talvez eu tenha perdido a fé mim mesmo, a crença nos meus próprios mitos, fantasias, sonhos, desejos.

Só isso explicaria o fato de que há mais de dez anos não me apaixono nem sou alvo da paixão alheia. Sim, ninguém veio a mim, nenhuma declaração, investimento, paquera mais duradoura. Como já escrevi em textos anteriores, nem a tristeza do meu olhar, que eu cria o meu grande trunfo, atrai os outros olhares. Teria o meu olhar perdido a capacidade de revelar as pessoas a si mesmas, silenciosamente, deixando-as encantadas, espantadas, aflitas, cativas? Era assim no passado. Meu olhar de adolescente intimidava as pessoas, por ser penetrante, inquiridor, profundo. Talvez nada tenha restado dele. A tristeza era um charme, um diferencial, a melancolia impregnava meus gestos, meus pensamentos, minha trajetória de escritor amador e cantor de banheiro. Mas ali eu ainda nem me aventurava nas artes da paixão e o olhar era apenas uma forma de comunicação com o mundo.

Mas onde andará o amor? É certo que por pertencer à raça da pedra dura eu deveria estar imune a ele, mas as pedras são os seres mais sensíveis. Todos culpam a mim, dizem que eu sou o responsável, que afasto as pessoas, que sou exigente, crítico, difícil, fechado. Mas o fato é que há muito deixei de me encantar com as pessoas. Não consigo ter expectativas, sequer aquelas idealizações do começo de todas as paixões, quando ainda não enxergamos "os impedimentos do amor"...

Também não ignoro que paixão e amor são coisas distintas, mas tanto um como outro são desejáveis!

Obcecado pela beleza, sou traído pela fragilidade, frieza e volatilidade desta. A beleza depende da luz, do ângulo, dos gestos, das posições corporais. Nunca se permite ficar por muito tempo. É veloz e fugaz, porque o rosto perfeito segundos depois não será o mesmo, a boca jamais se abrirá no mesmo sorriso, o braço não se recordará do  modo como estava colocado há pouco, a luz mudará de quadrante e desfará a magia... A beleza só causa dor, mas não manteria nenhum amor, nem o faz brotar. Para olhos que se alimentam da forma, essa é a única função da beleza: causar dor. A BELEZA É INAPREENSÍVEL. Não podemos tocá-la, comê-la, possuí-la, tê-la como parte de nós. Nem mesmo admirá-la por muito tempo, dada sua instantaneidade.  Está condenada à embriaguez do fascínio, ao aprisionamento do olhar. Mas o olhar é inepto, não fixa a imagem como uma foto ou tela. Quando o faz, já é com as nuances, distorções e novas cores da memória e da fantasia. 

Tenho em minha casa umas fotos, feitas por um fotógrafo multi-étnico que um dia apareceu no meu quintal, Alberto Kroff. Nunca mais soube dele.  Algumas pessoas me perguntam, ao ver as fotos num porta-retrato: “aquele é você?” Espanto-me. Como não me reconheceram? Porque, ao mirar tais fotografias, ainda me vejo como naquele meio-dia em que as fiz, às vésperas de um show em Campina Grande, nos anos 90. Não sinto que mudei. No fundo sei que o tempo levou todos aqueles traços de juventude e alguma beleza que na época eu desconhecia possuir (assim como hoje). Mas talvez ainda me sinta um jovem perdido em busca de respostas, nunca me sentindo maduro (o suficiente). Não corro atrás dos recursos tecnológicos e médicos a fim de perpetuar uma imagem que de fato nunca será a mesma, por mais que se tente apagar os rastros do tempo. Nem mesmo os cabelos que rareiam a cada dia me impelem a alguma ação. A minha “Síndrome de Dorian Gray”, como a chamo, se faz mais pelo exercício de uma certa negação. Finjo não ver o tempo passar. Mas os mecanismos de defesa não são infalíveis. Se o fossem, eu não estaria aqui fazendo essa confissão pública. E pode dizer-se capaz de amar alguém cuja noção de amor se liga intimamente à beleza? Se a beleza não é tangível, que dirá o amor que se acredita advir dela! Ilusão. Repito que não sou feito da matéria do amor apenas para ver se a vida, dialética e traiçoeira, me prega uma peça e me atira de novo ao “labirinto de sonhar” (sugiro a audição da minha música Depois do Escuro, no link à direita). Mas a espera já dura mais de dez anos. Sim, beijos, sexo, paixonites de um dia ou uma semana me sobrevieram, mas não é destes que falo nem que sinto falta. Talvez de fato nunca tenha amado. Um dia meu ex-terapeuta me disse isso. E isso me tornaria um caso mais grave. Um não amador. Um amador nos assuntos do amor. Um sem-amor.

Estou de volta aos apelos. Mas a literatura não funciona. Seduzo as pessoas no palco. Mas isso não basta. Sigo. Sou mais um rosto aflito e apresado na Avenida Paulista. Em busca do quê?

 

Renan

 



Escrito por RENAN BARBOSA às 13h53
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POR FAVOR, SALVEM-ME DO TEMPO PRESENTE!

 

Francisco Bosco, jovem escritor e compositor que escreve extraordinárias crônicas na revista Cult, recentemente afirmou numa delas que a delicadeza é uma virtude do século 21. Deve tê-lo feito como um desejo, um ideal de ego coletivo, porque eu não saberia encontrar delicadeza nos tempos atuais nem mesmo com uma lanterna acesa à luz do dia...

Vivemos numa era de relacionamento com as máquinas e com pessoas que parecem cada vez mais com aquelas (quem consegue manter um diálogo sensato com um "operador de telemarketing", porteiros, atendentes, comerciários?). Andando na rua, vemos alguém balbuciando coisas, pensamos até que se dirige a nós, um cumprimento, um (des)conhecido de quem não lembramos de imediato. Não, ele fala ao celular, mas através de fones, microfones e fios quase imperceptíveis. Pode haver cena mais esquizofrênica, mais tradutora do isolamento em que vivemos? Solilóquios são um dos critérios usados numa avaliação psiquiátrica para confirmar se alguém está psicótico. E a moda dos aparelhos de mp3 continuamente plugados? Numa cidade barulhenta como São Paulo, talvez até seja aconselhável. Música é melhor que sirenes e ruídos. Pretendo aderir! E ficarei com uma aparência super antenada: tênis all star, mochila, pomada no cabelo e mp3 no ouvido.

Se estamos num ônibus intermunicipal, mesmo de madrugada, somos despertados do nosso sonhado cochilo por músicas ou ringtones os mais esdrúxulos, e alguém começa a conversar como se estivesse no banheiro de casa, trocar gementes declarações de amor, entabular reuniões de negócio, discutir a relação, investigar onde o(a) namorado(a) está ("que barulho é esse? você não está em casa? você disse que não ia sair! fala mais alto, num tô ouvindo nada"). E o que dizer daquele jeito de conversar em que escutamos um apito estridente e em seguida a pessoa fala em voz alta, pelo viva-voz, ou pelo "Nextel", e ouvimos ambos os lados da conversa, para a qual não ligamos a mínima e nem pedimos para tomar parte?

Ah, mas o exemplo mais ilustrativo de até que ponto chegamos está nas peças de teatro, cinemas, shows e similares onde, apesar dos avisos, um celular sempre toca e, pior, é atendido? Já vi isto acontecer até num concerto da Sinfônica de Ribeirão Preto. No palco um solista estrangeiro. Na platéia, uma mãe atende o celular e conversa demoradamente com o filho. Diz onde está, pergunta o que ele está fazendo, pede para que não chegue tarde. Nada de sussurros (que também seriam inadequados). Ela fala num volume altíssimo. Por que não se pode ficar uma hora com o celular desligado? O mundo não vai parar de girar por isto. Já disse o filósofo: "as coisas não precisam de você". Consolemo-nos com isso. As catástrofes, que são em geral imprevistas, não deixarão de acontecer. Sempre brinco que as tragédias podem esperar. Por isso não durmo com os telefones ligados. De manhã cedo terei condições de receber as más notícias e tomar as providências. E se não for pela tragédia tão iminente quanto improvável, onde estaria a urgência QUE NÃO PERMITE DESLIGAR UM APARELHO SONORO NENHUM MINUTO?

As fofocas se dissipam rapidamente por sites, blogs, programas de TV. Somos engolfados por uma maré de informações inúteis, incluindo até se a loira do tchan vai depilar a prexeca em seu próximo ensaio para a Playboy. Dia desses, li uma ótima crônica de Nina Horta em que ela se dizia horrorizada com alguns programas que abordam alimentação e culinária na TV, como aquele em que uma senhora, quase nazista em sua rigidez, feia, envelhecida e meio encurvada (é nisso que dá se cuidar tanto?), submete os participantes do seu reality show a vários constrangimentos dietéticos, inclusive examinando suas fezes para ver se estão com aspecto saudável. Meu Deus, quem pediu para ver fezes na TV? E não há como escapar. As TVs a cabo estão abarrotadas de programas do tipo. Até Spielberg está produzindo um reality show. Eu não quero saber se a cantora de axé está noiva ou casada, se ela passou o fim de semana num spa ou se caiu de cara no chocolate.

Delicadeza perdida, onde andarás? Será que te escondeste em alguma comunidade do orkut? Atire a primeira pedra quem nunca esteve por lá. Eu estou, depois de muita resistência (na verdade, meu perfil foi aberto pela minha irmã Vitória que, revoltada pela minha recusa, se passou por mim no profile e nas interlocuções, durante meses, até que eu não tivesse outra alternativa a não ser assumir o controle e ser mais um nessa epidemia do século da interconectividade).

A que estamos conectados? Falamos por e-mail mesmo com pessoas que moram na mesma cidade. Quando as encontramos para uma pizza, temos que manter o diálogo enquanto ela envia e recebe torpedos. Isso se não tiver trazido seu palm top ou laptop. Vivemos no século da superficialidade. Por favor, alguém me joga a tábua de salvação? Como disse uma vez um ensaísta brasileiro, numa frase com a qual concordo e desconcordo: "um homem educado não é íntimo nem de si mesmo!" A delicadeza, Francisco Bosco, mostre-me onde encontrá-la.

Vivo num século que não é o meu. Desde o século passado tenho esta sensação. Quem disse que quero assistir ao BBB, ou suas "espiadinhas" nos intervalos comerciais, e no dia seguinte ouvir todo mundo (até conferencistas dos congressos de Psicanálise) comentando sobre a boneca de lata do vendedor de cocos? (Nada contra, mas preciso que as pessoas se imprimam em minha existência, ou melhor dizendo, invadam minha vida, minha TV, minha sala, por motivos um pouco mais consistentes). Por favor, libertem-me deste século. Ou me mandem ao paredão.Sei que faço este apelo num blog, mais um ícone de exposição do mundo atual, mas eu também, mesmo sendo um conservador, um romântico, um nostálgico, não creio que o caminho é lutar contra a marcha da História... Só que... gostaria de retroceder.

Houve um passado em que ficávamos na fila do banco, mas éramos atendidos por gente de verdade. Se algo dava errado, tínhamos a quem reclamar, e nossas reclamações eram levadas em conta (eram?). As contas eram registradas numa caderneta, buscava-se a mercadoria baseado na confiança. Um bilhete dos pais nos abria a porta da livraria, da padaria, da mercearia, da sapataria. E garanto que recorríamos menos aos Procon, que não existia na época, para reclamar de contas inexistentes ou cobranças indevidas. Já vivi novelas com companhias telefônicas e outras empresas do mundo virtual que duraram meses, com lances surrealistas que dariam um livro. De horrores! E tudo termina sempre... em churrasco (para aludir aos bois do meu chará: por favor, quem for meu amigo jamais me convide para um churrasco: odeio!). Meu Deus, será que estou ficando velho?

Ah, agruras do tempo presente. Que venham Drummond, Bandeira, Manoel de Barros e nos tragam um pouco de alento. Se ao menos eu escrevesse como Fernando Bonassi, ou tivesse a lira de Chico Buarque. Ou a voz de Milton. Mas sou um mortal comum. E no fundo a literatura não salva. A música não salva. A arte não salva. Será que te(nho)mos salvação? Há alguma saída? Enlouquecer, talvez? Mas a pílulas anti-loucura estão tão eficazes! Morrer antes da hora, nem pensar. Como Quintana dizia: "Morrer, que me importa? O diabo é deixar de viver!" Talvez por isso eu prefira ficar sozinho. Em casa. Com "meus discos, meus livros e nada mais"...

Renan



Escrito por RENAN BARBOSA às 12h34
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FORTUITAS E FURTIVAS I

 

 

Voltava  para casa, tarde da noite, após uma aula estafante. Fazia o trajeto a pé depois de tomar o metrô. Na calçada oposta, percebeu um olhar, que o mirou uma, duas, várias vezes. A escuridão não permitia ver o rosto com nitidez. Retribuiu os olhares, só por deleite, por ser aquela uma situação quase extraordinária: ser visto e desejado, sentir-se alvo de um olhar de cobiça.

Havia  ainda aquela aura de mistério, de interdição, uma paquera na rua escura, com um desconhecido. Uma sensação adolescente de transgressão, uma excitação gerada pelos temores  e ansiedade próprios da situação.  Fazia frio, mas o

outro vestia um short muito curto, deixando à mostra coxas branquíssimas e atléticas, mochila nos ombros. E o olhar que o devorava, de esquina a esquina.

Um idoso ia à sua frente, interceptando-lhe a visão, impedindo-o de qualquer aproximação. Mas andou mais rápido e se desvencilhou daquela "sabotagem". Atravessou a rua e viu-se lado a lado com o desconhecido das coxas enormes. Sorrisos maliciosos, um oi dito com timidez e alguma lascívia. As inevitáveis perguntas: seu nome, o que você faz, de onde está vindo, mora por aqui? Informações desnecessárias que nem exalavam verdade e não acrescentavam intimidade, antes aumentavam o constrangimento. O convite implícito, após elogios: “o que vai fazer agora?”

O outro, o desconhecido, não era feio nem bonito, nem desejável nem repugnante. Mas o caminho da aventura estava aberto. A sorte, lançada. Vinha da academia. Certamente suara muito e estava discretamente desidratado. Pois chegou-lhe aguda, penetrante,  aquela halitose que denuncia a boca seca, de quando há tempos não ingerimos um copo d’água. E isto bastou. 

“Vou dormir, estou muito cansado”.

A paquera valera a pena, mas ponderou que o amor, mesmo por uma noite, não resiste a um hálito desagradável. Pronto. No seu caminho não havia mais nem paquera, nem cansaço, nem apelos da retina.

 

 

Da série "Dos impedimentos do amor", escrito em paceria pelos irmãos Renan e Vitória Barbosa 

 

 



Escrito por RENAN BARBOSA às 09h57
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FORTUITAS E FURTIVAS II

 

Estava na pizzaria, uma daquelas que servem a pizza em pedaços e sem talheres. Devorava uma fatia da de chocolate, a sobremesa. Impossível não lambuzar os lábios, os dedos, inevitável não lambê-los para se deliciar com o chocolate restante e limpar-se. E então percebeu o olhar que o apreciava. Na mesa, coletiva, estavam vários clientes desconhecidos. Permaneceu quieto, entretido com o prazer do chocolate, mas vez em quando não resistia a olhar para o outro que o comia com os olhos e esta descrição, embora soasse vulgar, era a mais adequada para descrever o assédio. Por mais que aquilo o incomodasse, queria descobrir se o outro era bonito, se compensava correr o risco da reciprocidade. E para isso tinha que mirá-lo, mesmo com hesitação. De sua parte, aquela troca de olhares jamais se transformaria em outro tipo de diálogo. Não seria capaz. Havia um misto de timidez, ética, decoro que o mantinha preso somente ao olhar, ou nem isso. Mas o outro foi mais rápido. Sorrindo, perguntou-lhe se a pizza estava boa. Respondeu afirmativamente, apenas com um aceno de cabeça e um sorriso dissimulado, lábios cerrados. “Deixa um pedaço pra mim?” Foi a pergunta seguinte.  Surpreendeu-se com a ousadia, com a sem-cerimônia. E rindo, desta vez mais prodigamente, indagou se o outro sempre abordava desconhecidos  para mendigar  pedaços  de pizza. “Só quando parece gostoso” - a resposta ambígua. E riu. E neste momento, ele pode ver um pedaço de brócolis grudado nos dentes do outro, ali, no encontro dos incisivos, enfeiando o sorriso que de outro modo também não era belo nem encantador. E como um  admirador inflexível de sorrisos, quase valorando as pessoas a partir deles, ponderou que o amor, mesmo por uma noite, não resiste a um sorriso maculado. Levantou-se, lambeu os dedos uma última vez e, altivo,  saiu deixando o outro sozinho com sua cantada vulgar e seus dentes manchados de verde.  

 

 

Da série “Dos impedimentos do amor”, escrito em parceria pelos irmãos Renan e Vitória Barbosa



Escrito por RENAN BARBOSA às 09h51
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