O quereres


 

DE VOLTA AO BLOG

OBS.: Este blog é escrito em português castiço, ou seja, pré-reforma ortográfica

NOVO TEXTO: DERRAMARAM MEU LEITE

 

DERRAMARAM MEU LEITE

 

Estava em dúvida se recorria à internet, diga-se Google, para subsidiar um texto novo que pretendia escrever aqui, sobre a obra recente de Chico Buarque. Ir ou não ir? Fui! No texto que originalmente eu pretendia escrever, eu faria uma revelação surpreendente: a semelhança entre o personagem do livro “Leite derramado” e a canção “O velho Francisco”, ambas do nosso consagrado artista/escritor Chico Buarque. Sim, porque na música, do LP “Francisco”, de 1987, estão lá os mesmos elementos do livro: o cenário onírico, as memórias embaraçadas, o velho decadente que conta sua história igualmente decadente, sem muitas certezas do que conta, confabulando memórias reais e inventadas que têm como cenário um Brasil cheio de novos ricos, políticos desonestos, preconceitos, falcatruas, escândalos sexuais, mazelas sociais etc. etc. etc. E para culminar, eu diria que essa descoberta ia ao encontro de várias outras obras (musicais) de Chico, onde o universo do sonho é explorado, e realidade e ficção se misturam para criar um clima de ironia, contradições, humor, impossibilidade. Arremataria contando que o próprio Chico fornece essa pista, indiretamente, no documentário (magnífico, sensacional, emocionante e belo!) “Palavra (En)Cantada”.  “Trata-se de um longa-metragem, dirigido por Helena Solberg, que percorre uma viagem na história do cancioneiro brasileiro com um olhar especial para a relação entre poesia e música” (transcrito da sinopse do filme, no site www.palavraencantada.com.br).  No seu depoimento, Chico afirma que mesmo sua literatura está impregnada de um certo ritmo musical  - desculpem essa citação imprecisa, porque  só vi o documentário uma vez, no cinema. Sim, eu acabara de descobrir que o ritmo, o cerne, o germe, o embrião de “Leite derramado” estava ali, na antiga canção “o velho Francisco”, e teria a alegria de fazer essa revelação neste texto que redescabaçaria  o meu blog, após meses e meses de ausência. Sim, porque na “Bravo!” em que Chico e Caetano são matéria de capa essa semelhança entre os dois personagens não é citada, nem no documentário “Palavra (Em)cantada”, onde o livro recém-lançado não é sequer mencionado. Mas, como já contei, fui à internet. Levantei alguns arquivos. E descubro que Chico não esquecera que a letra inspirara o livro. Ele fizera de propósito, após ouvir a regravação de Mônica Salmaso (CD “Noites de gala, samba na rua”) para a música. Resolveu tomar o velho Francisco novamente como personagem, mas foi modificando-o, transformando-o de ex-escravo num branco elitista descendente de “importantes” políticos do Brasil colonial. Isto está publicado num dos tantos jornais diários que não leio sempre, e que para meu júbilo depois podem ser encontrados na internet. Mas fica a sensação primeira, e ilusória, do furo que eu pretendia dar. Prova que estou em sintonia com a obra de Chico, meu compositor preferido.

Chico parece obcecado pelo mundo dos sonhos. São tantas as canções em que o sonho é personagem ou motriz da ação, da estória c(a)ontada , que podemos supor que se trata de uma preferência, um gosto pessoal. Eu, de minha parte, abomino os sonhos. Tanto os do sono como os da vigília. Claro que sou um sonhador, mas lamento profundamente sonhar, acordado ou dormindo. Nunca permiti que meus pacientes, familiares ou amigos se estendessem muito nessa matéria. “Quero lhe contar um sonho que tive”, eis a frase que pode fazer uma pessoa se tornar indesejável para mim, e o tema que é a senha certa para o meu aborrecimento. Se sonhar comigo, só me conte se o conteúdo foi erótico! Gozou?!!! De outro modo, vá cacetear outro!  Mas o sonho é retratado com maestria no cancioneiro buarquiano. Assim, de memória, sem pesquisa, me vêm à mente a deliciosa “Não sonho mais” (“hoje eu sonhei contigo e caí da cama; ai, amor não briga, ai não me castiga, ai diz que me ama e eu não sonho mais”), a lírica Sonhos sonhos são (“sei que é sonho, não porque da varanda atiro pedras, e a legião de famintos se engalfinha”),  a própria “O velho Francisco” , “Outros sonhos” ( “sonhei que o fogo gelou, sonhei que a neve fervia,sonhei que ela corava quando me via/ sonhei que ao meio-dia havia intenso luar e o povo se embevecia”) e por aí vai.

Enfim, como não adianta chorar pelo leite derramado, vamos ler o livro, que é delicioso e escorre pelos lábios, pelas mãos, pelo coração, e sonhar os sonhos de Chico, que ele é mestre nessa matéria. Eu cá, apenas um amador, vou bebendo minha tetra pak de realidade. Será que azedou?...

Renan

 



Escrito por RENAN BARBOSA às 21h07
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           CAETANO VELOSO: O ÚLTIMO PROFETA!

Caetano, como eu já mencionei tantas vezes neste blog, é o meu artista preferido. Claro que eu não poderia viver sem as canções de Chico, a perene modernidade de Gil, as divinas vozes de Djavan, Milton e Luiz Melodia. Mas Caetano, ah, ele me fala mais de perto, até pelo seu jeito de ser artista, com tudo que há de bom e reprovável. Sou leonino como ele, entendo sua vaidade e sua arrogância… Não desconheço seus defeitos, mas queria ser (como) ele, queria “comê-lo”, “devorá-lo”…
Mas o propósito desse texto não é explicitar nenhuma fantasia dionisíaca, e sim escrever sobre como me chama a atenção o modo profético com que Caetano se antecipou a grandes questões nacionais e mundiais, que hoje ocupam exaustivamente a mídia, e que ele soube abordar, via canção, de um modo poético e fascinante. Não, ele não estava nos palanques, ele não se pretendia ouvidor geral da (des)nação, embora sempre contundente e irascível. Sou eu que simplesmente identifico em algumas de suas canções uma atualidade, um predizer, uma riqueza de pensamento e uma sagacidade no olhar, próprias daqueles que enxergam o seu tempo e um tempo adiante, mostrando-nos o que ainda vamos ser, ter e ver.
Artista genial que é, e um humanista, investido da lucidez e da loucura dos profetas, Caetano é daqueles que lêem e relêem para nós o passado, o presente o futuro, revelando-nos a nós mesmos, descortinando-nos o porvir que nossos olhos míopes se recusam a antever.
E lá está “Um índio”, muito antes da decantada moda do aquecimento global e da sustentabilidade, nos lembrando o quão criminoso seria apagar povos, florestas, culturas… “Um índio preservado em pleno corpo físico” (…) “mais avançado que a mais avançada das tecnologias”… Caetano sinaliza, denuncia, alerta, sem ser panfletário, piegas ou dogmático. Mas vemos os índios e a floresta virando carvão, os mendigos (quase índios de tão pobres, ou quase pretos, ou quase invisíveis de tão marginais) virando carvão, e os assassinos ainda passando no sinal vermelho, perdendo o verde. Ah, somos mesmo uns boçais! “Depois de exterminada a última nação indígena”, e “as fontes de água limpa”, para onde terá caminhado o Brasil? Teremos futuro? Em que nos baseamos para concluir que somos mais “civilizados” do que os índios, do que os sem-teto, do que os milhões de escravos negros que adubaram nosso chão com suas vidas acorrentadas? Civilizados? “Eu disse: não! que pensamento torto!” Por que negamos tão veementemente a realidade e precisamos que os mártires da Amazônia venham nos lembrar quem realmente somos?
Perdoem-me os admiradores de Tom Jobim (e eu som um deles), que escreveu a mais bela canção da MPB, “Águas de Março”, e um dos nossos maiores ecologistas mas, para mim, “Trem das cores” é a mais “ecológica” das canções brasileiras, com seu desfile ensolarado e belo da vida, a vida simplesmente, engrandecida por se abrigar nos elementos mais simples e harmônicos: cores, aromas, brisas, ângulos, janelas, jardins, geografias da pele. Uma sucessão de imagens que vão nos lembrando que a vida pode ser como um trem na janela: de ingênuos matizes, vibrante, bonita, em movimento. E só quem, na infância, conviveu com a grandeza do ato de juntar algum dinheiro para comprar as caras maçãs argentinas, numa época pré-globalização e antes que tivéssemos maçãs brasileiras em profusão, todas embaladas naquele fosforescente, sedoso e mágico papel azul (turquesa?), sabe valorizar o verso “a seda azul do papel que envolve a maçã”, que considero, talvez por pura nostalgia, o mais bonito da MPB.
Contemplando as casas simples “que vão passando ao nos ver passar”, concordamos que “gente é pra brilhar e não pra morrer de fome”. Mas canções são palavras, e fora da poesia afloram os podres poderes. Enquanto os homens os exercem, “morrer e matar de fome (…), são tantas vezes gestos naturais”… Alerta: cuidado com os falsos líderes carismáticos da América Latina, com suas roupas cáqui ou folclóricas de ditadores, ou escondidos sob o terno de grife e barbas hoje cuidadosamente aparadas e tratadas. Eles são prejudiciais à saúde. Os podres poderes, sigla após sigla, se sucedem, e haja congelamentos, precatórios, mensalões, cartões corporativos, dólares nas cuecas, inflação. E sobre a permanência de algo podre no ar, Caetano também nos advertia em “Vamo comer”: (…)“e quem vai equacionar as pressões, do PT, da UDR e fazer dessa vergonha uma nação?” As siglas são muitas, mas com força suficiente para desmatar os sonhos e a esperança e em assaltos pouco convincentes fazer sumir os “companheiros” dissidentes.
É como se Caetano, profeta de uma realidade que era e é, antecipasse a nossa decepção com Lula, com os projetos que nos prometeram resgatar a dignidade perdida, o fracasso das ONGs em consertar o que talvez não tenha conserto, e lá se vai mais uma CPI por água abaixo, entre acordos, passeios de iate, obras de arte e bancos subsidiados.
E o povo? Apesar dos riscos que corre, essa gente morena, fugindo do “horror de um progresso vazio”, vai atrás do trio elétrico, na pipoca, que abadá custa caro! Mas sabe que “a tristeza é senhora” e compra CD pirata para mitigar o sofrimento com rap e pagode.
Eu poderia elencar e escrever crônicas e mais crônicas sobre muitas canções do repertório tropical reluzente, desse mulato que sempre andou contra a via. Ele se sabe atemporal, e por isso gritou: “eu vou viver dez, eu vou viver mil, eu vou viver sem você”. Através dos tempos e apesar dos críticos. Ou de quem o abomina e persegue. Antes de ser uma dádiva dos artistas, não seria esse um atributo dos verdadeiros profetas: a permanência e a concretização de suas iluminadas visões?
E concluindo, elejo a mais espantosa de suas profecias: aquela escrita e descrita em “Manhatã”. É quase sobrenatural como ele pode definir Manhatan e seus símbolos, sem nunca imaginar a catástrofe do 11 de setembro, mas ao mesmo tempo relatando sutilmente o que viria: “todos os homens do mundo voltaram seus olhos em sua direção”(…) “Um remoinho de dinheiro varre o mundo inteiro, um leve leviatã/ e aqui dançam guerras no meio/ da paz das moradas de amor”…
Tantos tanques e iraques depois, desnecessário escrever mais, falar mais. Ele afirma em uma de suas canções mais recentes, de sua obra eternamente em progresso: “o mundo acabou”. Caetano tem razão. Se assim é, o que nos resta fazer? Vamos cantar. Ouçamo-lo. Porque tão bom quanto João é Caetano. E melhor que eles, só o silêncio.

 



Escrito por RENAN BARBOSA às 14h20
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O FILHO DA MÃE

(Da série “Dos impedimentos do amor”, escrita em parceria pelos irmãos Renan e Vitória Barbosa)

 

 

 

Os dois haviam crescido juntos, colegas de escola desde os primeiros anos. Era visível que construíam uma amizade destinada a durar a vida inteira, aquilo que se transforma em fraternidade e suporta as rachaduras do tempo.

Ela assistia a tudo , do seu lugar de jovem mãe, aprendendo este papel quando ainda nem deixara de ser filha, menina, adolescente traída pela fantasia de amor eterno. Carregando um filho pela mão. Nem sempre pesava muito; não era leve nem fácil. Mas ele a auxiliava, com uma compreensão genuína e inesperada para sua pouca idade, olhos ternos, sorriso calmo, simpatia quase exagerada que cativava adultos e crianças. E já nos primeiros dias de aula arranjara um amiguinho. Agora já não chamavam jardim de infância, nomes diferentes para as mesmas descobertas: interagir, brincar, conhecer os rudimentos da leitura, entrar em contato com o outro para além das paredes da casa. Combinavam entre si toda uma agenda social, que roubava o tempo das mães aflitas por satisfazê-los e respeitar solenemente os vínculos construídos pelos filhos. Adoeciam na mesma época, das mesmas gripes, alergias, amigdalites. Improvisavam acampamentos caseiros, ajudavam-se nas tarefas da escola. Só mais tarde os gostos começaram a se diferenciar, um mais inclinado ao futebol e o outro à música, um mais introspectivo e outro mais espontâneo, um mais autoritário e o outro dócil e complacente. Eles cresceram a partir dela. Mulher adulta, batalhando para garantir uma educação consistente ao filho. Os dois quase púberes, engalfinhando-se pelo controle do jogo eletrônico, ou para ver quem se conectava primeiro ao computador. Ambos confiando plenamente na maternagem que ela oferecia.

Ela enxugara seus corpos, seu choro, embalara-os e cantara para eles nas tardes chuvosas, seus homenzinhos, seus pequenos heróis. Aquele que dela nascera sempre reservava o sorriso mais franco para os estranhos, parecia sempre privá-la de sua porção de afeto, mas não era um filho distante. Com o tempo, os dois pareciam haver trocado de identidade, como se entrar na adolescência exigisse vestir uma nova pele, a assunção de um novo eu - oposto ao da infância.

Ela às vezes esquecia como era difícil criar um filho (um não, dois) sozinha. O parceiro deixara-a ao saber que ela estava grávida, não tinha competência nem idade para ser pai; mudara-se para a Europa e nunca quisera conhecer o garoto. Melhor assim. Sua vida parecia enredo de telenovela, mas na ficção a heroína sempre arranjava uma benfeitora que lhe deixava uma fortuna no último capítulo. Com ela a vida era dura, quase cruel, e não se sentia recompensada. Os homens, se a desejavam, logo fugiam ao descobrir que ela tão jovem já era mãe. E houve um dia em que se descobriu não tão jovem. Mas talvez por manter-se ativa e altiva, talvez por não se lamentar e seguir adiante sempre, seu corpo mantinha o frescor de uma idade que não tinha. Não foi fácil fazer 30 anos, carregando um filho que já estava quase do seu tamanho, e agora já combinava pizza e cinema com os amigos e reivindicava a liberdade de ir e vir sozinho, de ônibus. Houve um dia em que a proibiu de entrar no quarto sem bater, supervisionar seus banhos, dar palpite nas roupas que ia usar. Quem era aquele pequeno tirano que de repente decretava que a ajuda dela era dispensável? Como ela podia desistir de ser mãe e cuidadora?  Já não o reconhecia. Estava alto, com uma voz diferente, não permitia carinhos, nem que o beijasse à porta da escola. O outro, o seu protegido, parecia ainda recuar, temendo entrar nos obscuros caminhos da adolescência. Reclamava sua atenção e mantinha uma aura infantil e inocente. Era mais forte, mais inteiro, embora retraído. Buscava-a sempre com olhos melancólicos e suplicantes. Fazia-a sentir-se como um porto seguro.

Não esperava o que aconteceu algum tempo depois. Fora um choque, ou mais que isso, um abismo que se interpusera na sua convivência com aqueles jovens. Entrou distraída no quarto do filho, para recolher a roupa suja, e encontrou o amigo, que sempre dormia ali, quase um morador da casa, divertindo-se com um vídeo erótico na tela do computador. Ele não teve tempo de cobrir-se ou disfarçar. Ela não falou, ficou ali, silenciosa, colada ao chão e àquela descoberta. O filho saíra para a natação. Não imaginava que o outro estivesse lá. Despudorado, embora com mãos trêmulas, limpou-se na camiseta, enquanto fitava-a placidamente. E passou por ela, nu, quase a roçando enquanto caminhava em direção ao único banheiro da casa. Nunca comentaram o fato. Mas ele nunca mais a tratou da maneira habitual.  Passou a olhá-la com lascívia, mordendo os lábios, esgueirando-se em sorrisos provocantes, sempre que o amigo estava fora ou não podia flagrá-lo.

O amigo do filho não era mais o seu dócil protegido. Tinham ambos quinze anos e já falavam em garotas e iam a festas. Ficavam longas horas trancados no quarto, teclando, baixando músicas, o mundo parecia resumido ao orkut e ao msn. E ela, uma mulher sozinha de trinta e seis anos. Que agora era paquerada pelo melhor amigo do filho. Quando ele deixara de ser aquela criança frágil e insegura e se transformara naquela bomba de hormônios e auto-confiança?  Encarava-a com desejo. Sempre criava situações em que podia tocá-la, como ao pegar a sacola do supermercado das mãos dela ou ajudando-a a lavar a louça. Mostrava-lhe músicas capturadas da rede: rap, house, trance, lounge  e outros rótulos que ela não dominava.

(continua abaixo)

 

 

 

 



Escrito por RENAN BARBOSA às 20h03
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O FILHO DA MÃE - PARTE II

Seu filho assumira-se de vez como seu opositor. Não a procurava para conversar, falava-lhe de modo ríspido e obediência era um conceito absolutamente ultrapassado em sua relação com ela. Odiava-o em alguns momentos. Não podia reconhecer nele a criança carinhosa a quem dedicara a vida. Não se lamentaria, nunca fora dada a auto-comiseração. Mas a essa altura já não dormia, não comia direito, não conseguia mais se divertir com o cinema e o teatro habituais. Havia um adolescente de dezesseis anos que lhe olhava com tesão e mais de uma vez roçara suas nádegas enquanto lhe passava uma xícara para secar. Chegava mesmo a penetrar sua orelha com uma língua aflita e quente que parecia muito habilidosa. Ela não protestava, mas não acedia. Não diziam palavra. Ele agora saía do banheiro nu, enxugando-se, sempre que via que a porta do quarto dela estava aberta. Era um inquilino sedutor, que transformara em seu aquele lar, talvez por ter uma mãe displicente e pouco carinhosa, um pai que estava sempre viajando, ou talvez porque... Aprendera a amá-la? Seria possível? Algo os unia além daquelas manifestações de desejo? Não estaria ela também regredindo, tornando-se outra vez uma adolescente para assim conseguir aproximar-se do filho, falar a mesma língua que ele? Como haviam se distanciado! O seu garoto parecia não amá-la mais. Mas o outro, mestre na arte da dissimulação, conseguia assediá-la sem que jamais o amigo-irmão suspeitasse, e colava nela olhos suplicantes, e deitava-se em seu sofá sem camisa, exibindo um tórax másculo e atraente moldado em muitas horas de academia.

Ela não conseguia se concentrar no trabalho, mostrava-se irritadiça, desatenta, merecendo frequentes repreensões do chefe. Estava com olheiras, chorava todos os dias, tinha medo de voltar para casa, mas já não conseguia andar na rua sozinha. Sair de casa se afigurava uma tortura, tinha crises de ansiedade, sentia-se observada, oprimida, extenuada. O que ele queria lhe comunicar com aquele silêncio? Já não devia ser virgem, era um ídolo entre as meninas de sua idade, por que então a atormentava com aquele assédio constante? Não tinha coragem de fazer a pergunta. Ele lhe trazia pequenos presentes, disfarçados de gentileza: uma rosa, um bombom, um livro comprado num sebo, um DVD pirata. Era o primeiro homem que se preocupava com ela em vinte anos!

Quantas noites de insônia e fantasias, que nem os benzodiazepínicos comprados ilegalmente pela internet acalmavam. E o filho cada vez mais longe, dedicado apenas ao amigo, idolatrando-o, protegendo-o, cobrindo-o de atenção, ensinando-lhe a matéria da prova, ambos trancados naquele quarto como se nada mais existisse. E ela, não contava? Por que dedicar mais afeto ao amigo do que à mãe? A quem desejava de fato? Não, não pensava que entre eles houvesse mais do que companheirismo e amizade, mas do seu filho podia esperar tudo, aquele gigante de gestos delicados e voz macia que nunca revelava o que sentia! Agora era seu rival. Ela tinha que se contentar com os intervalos, as migalhas que sobravam da atenção do outro, competir com o próprio filho pelo afeto de um jovem! Era absurdo, sabia, mas era a sua realidade. QUANTO MAIS AUMENTAVA O SEU DESEJO PELO OUTRO, MAIS ODIAVA O FILHO.

Em seus dias torturantes uma certeza foi se sedimentando, aflitiva, obsessiva. O que sentia pelo amigo do filho não era só mera atração física. Amava-o. Sabia que podia nele confiar. Assistira a cada um dos seus progressos, suas descobertas, acompanhara seu corpo mudando enquanto se instalava nele um homem que a admirava e buscava-a com obstinada paciência. Não era só a beleza, o apelo físico, a graça adolescente. Era mais. Algo mais forte, verdadeiro e perene. Que nenhum beijo, nenhuma troca apressada de carinho iriam mitigar. Precisava tê-lo por inteiro, cuidar dele, receber o amor que com certeza ele também guardava para ela. Uma idéia começou a tomar corpo em sua mente, e a medida em que se transformava em planejamento ela conseguia ficar mais calma, dormir melhor, trabalhar com mais afinco. Voltou a sorrir. Todos perceberam a sua mudança, elogiavam o seu ar jovial, sua aparência saudável. As colegas de trabalho queriam saber que médico consultara, que cremes passara, se estava fazendo alguma terapia alternativa. Qual o segredo daquela disposição?

Não demorou muito para que pusesse em prática o seu projeto de felicidade. O filho não seria mais empecilho. Os seus anos de abnegação haviam sido perdidos. Agora era a vez de pensar um pouco em si mesma. Um dia, quando voltou da escola, ela o esperava impaciente e acolhedora. Depois de um abraço, que ele aceitou com os braços caídos, passou em seu pescoço uma corda de varal e apertou com força.  Em pouco tempo viu sua face branca se tornar gélida e sem vida. Ele quase não protestou. Tombou sobre seu colo, como se pedisse um último acalanto. Mas não podia mais acariciar aqueles cabelos, segurá-lo em seus braços com desvelo e ternura. Estava feito. Nada sentiu quando, após soltá-lo, o corpo do filho caiu  no chão da sala. Não haveria mais impedimento para o seu amor. Era a sua hora de ser feliz. Só precisava telefonar para o outro e combinar a fuga.

 

Renan  e Vitória Barbosa



Escrito por RENAN BARBOSA às 20h02
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“Ema, ema, ema!...

cada um”...

 

 

 

Sim, eu tenho problemas, eu sei. Principalmente na minha relação e no meu gosto para o cinema. Fui capaz de odiar filmes, ou de não me impressionar com eles, quando o mundo inteiro ficou tomado de amores, maravilhado, babando,  como em “O advogado do diabo”, “De olhos bem fechados”,  “Matrix”.

Apesar de amar cinema, tanto ou mais do que a música, esqueço imediatamente do enredo e do final do filme ainda na saída da exibição. Música? Trilha sonora? Nem a de “Cinema Paradiso” fui capaz de guardar. A música dos filmes não gruda em mim, embora eu não suporte filmes sem música. Então, o fato de ter problemas deve explicar o meu espanto, e a minha decepção, com os filmes brasileiros “A casa de Alice” e “A via láctea” - em cartaz.

Antes disso, um parêntesis: adoro filmes trash, produções de gosto e qualidade duvidosos, mas na TV. E assistindo aos filmes brasileiros, de todas as épocas, exibidos no Canal Brasil da tv paga, fico sem acreditar como, durante décadas, nossos atores, alguns de talento inquestionável, atuaram em produções tão esdrúxulas, inconsistentes, mal filmadas, mal sonorizadas, mal editadas, com roteiros precários e direção mais do que imprudente, e em sua maioria financiadas pela extinta Embrafilme. Os personagens parecem ser de um outro tempo, de uma outra era, mas não por se tratar de filmes “antigos”. Suas falas soam distantes e recitadas com enfado, que nem alunos em jogral no dia da pátria seriam capazes. Que maneira era aquela de interpretar? Alguns obviamente dublados, e mal dublados. Os enredos, ou a falta deles, beiram o idiotismo, as cenas de sexo cruas e apelativas abundam como que para preencher o vazio cinematográfico e aí rimos, rio quando vejo esses filmes B no Canal Brasil, principalmente os que passam numa sessão chamada “como era gostoso o meu cinema”. Rir é sempre o melhor purgante, como dizem. E as minhas insones e tediosas madrugadas paulistanas ficam assim preenchidas de algum lazer.

Felizmente, o cinema nacional ressurgiu e vimos produções maravilhosas como “Cidade de Deus”, “Abril Despedaçado”, “Central do Brasil”, “Carandiru”, “O ano em que meus pais saíram de férias”, “Depois daquele baile”, “O cheiro do ralo”, entre tantos outros. Agora até nos damos ao prazer de rejeitar alguns, como “Nina”, “Dois perdidos numa noite suja”, “Concerto campestre”, “Redentor”. E finalmente, chegamos à casa de Alice e cochilamos na Via Láctea. Sim, depois de ver estes filmes, cujos títulos já mencionei, fiquei pensando o que pretendiam seus roteiristas e diretores ao nos empurrá-los goela abaixo, obviamente com financiamento público. Elogiadíssimos, eu sei. O problema sou eu e meu gosto estranho... Por exemplo, em “A casa de Alice”, qual o propósito de vermos a personagem central entrar no banheiro, abaixar a calcinha,  fazer xixi, levantar, usar o papel, dar descarga, sair do banheiro,  numa cena que se arrasta por vários minutos e que não influi nem contribui na estória? E depois por que temos que vê-la em outra cena repetindo o mesmo ritual do xixi, mas desta vez dispensando-se de lavar as mãos? Seria essa a finalidade: exibir a falta de higiene da personagem? Registre-se, entretanto, a magistral atuação de Carla Ribas no papel título. Merecidamente reconhecida pela crítica. E o que dizer de “A Via Láctea”? Não bastasse o fato de Marco Ricca ser um dos mais aclamados canastrões do país, somos confrontados com a péssima dicção (missão espinhosa entender e ouvir as falas dela), combinada à falta de talento, da feiosa Alice Braga, a nova queridinha da América! E o filme, uma torrente de poemas e cenas desconexas mais apropriadas talvez ao cinema falado de Caetano, que eu não vi, ou à louca estética dos anos setenta e oitenta, à qual aludi. Uma declaração de amor a São Paulo? Já temos “Sampa”, Tom Zé, os irmãos Campos e Campana! Temos Itamar Assumpção e tantos outros. Onde estaria a cabeça de Lina Chamie quando ela escreveu aquilo?  Dias depois, Rubens Ewald Filho comenta sabiamente o que meus olhos assustados se recusavam a enxergar. Disse ele, se não o traio na reprodução, falando justamente dos filmes em questão, que parece que estamos de volta a uma estética naturalista no cinema nacional, com filmes que mostram a vida dos personagens sem pretensão de fechar uma trama, uma história, apenas mostrando o cotidiano das pessoas. Então, viva o naturalismo! Vamos botar o povo pra fazer xixi no cinema e declamar poemas na calçada. Torço para que “O signo da cidade”, que estreou ontem, não seja também um delírio da mente bonitinha e politicamente correta de Bruna Lombardi, ela que parece sempre falar, olhar e pensar em câmera lenta.

E peço desculpa por expor assim este meu problema com o cinema. Retiro o que disse sobre todos aqueles filmes, porque sei que o doente sou eu, o desviante sou eu, eu que não compreendo “a proposta”. Mas como está na moda mostrar o cotidiano fastidioso de personagens comuns, sem trilha sonora (por que reclamo, se não apreendo a música dos filmes?), dei-me o direito de colocar aqui estes pensamentos que devem ter parecido enfadonhos e óbvios demais a alguns, se é que me lêem... Mas isto é a vida como ela é! Ou não. (rs...)

 

Renan

 



Escrito por RENAN BARBOSA às 09h55
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MARTINÁLIA É O CARA

Martinália é o cara!

Sim, a filha de Martinho da Vila que se lançou já há alguns anos em carreira solo, é uma Cássia Eller do samba, embora tenha um talento e voz únicos,  que não precisam de comparações... Martinália, apesar do jeito masculino e largado (ou isso seria parte do seu charme?), tem uma presença de palco incrível, é louca, assanhada, elétrica e eletrizante, alegre e muito sensual. E canta muito bem. Querem conferir? Vejam o DVD “Martinália em Berlim”. Vi-a no palco este finde, no SESC Pompéia, mas fiquei algo decepcionado. Ela estava no mínimo muito embriagada. Errava as letras, atravessava, falava coisas sem sentido numa voz pastosa e ininteligível. Gritou e foi grosseira com a banda todo o show. E os músicos pareciam visivelmente pouco à vontade e constrangidos, e com o tesão de tocar afetado. Reclamava da cerveja que o roadie demorava a trazer e aceitava contente as latas que as moçonas assanhadas da platéia lhe ofereciam. MAS O SHOW FOI UMA FESTA! E torço para que Martinália não entre no mesmo caminho auto-destrutivo da minha grande musa Cássia Eller, a ponto de comprometer sua performance no palco.

Na trilha das boas e mais ou menos novas cantoras, há Marina de La Riva, que encanta com sua mistura de música brasileira e cubana. Há Kátia B com sua música espacial. Cibelle que já chega encantando e seduzindo com uma “pós bossa-tudo”. Há, na verdade, uma desconcertante profusão de novas cantoras. No canal de música (MPB) da NET, é possível ouvir cantoras das quais jamais ouvimos falar, mas com trabalhos maduros, bonitos, bem-acabados. Nas gôndolas das nossas megastores, cada dia um nome novo nos chama a atenção. Mas todas naquele estilo vozinha afinada e meio bossa-meio mudernidade, com releituras, regravações ou letras que reciclam temas já mais do que cantados e decantados. Quanto ainda teremos de esperar pelo surgimento de uma nova Gal, de uma jovem Bethânia, de uma Nana reencarnada? Vozes únicas, carreiras maravilhosas e nomes inscritos na calçada da imortalidade! História viva! E para sempre na História! Nem vou mencionar Elis, para mim a encarnação da música, o ponto mais profundo onde a emoção de um artista pode chegar, a voz definitiva, o maior presente que o Brasil deu ao mundo. “Eu vou viver dez, eu vou viver mil, eu vou viver sem você”...

Todos passaremos. Elas não.

Mas no último post eu havia prometido comentar o novo CD de outra das minhas musas: Elba Ramalho. Ela pergunta qual o assunto que mais nos interessa. Assume ares de politizada e vai ao encontro dos ritmos pernambucanos para nos fazer pensar. Sim, alguém precisa levantar a voz contra tanta bandalheira institucionalizada, a MPB perdeu há muito seu papel de denúncia e reflexão, são outros tempos, afinal, mas será que Elba acertou no tom?
Seu disco começa com “Gaiola da saudade”, do magistral e arquetípico Maciel Salú, e mais para frente nos delicia com uma ótima gravação da já clássica “A natureza das coisas” (“se avexe não/ amanhã pode acontecer tudo, inclusive nada”; se avexe não/ que a burrinha da felicidade nunca se atrasa”). Elba, leonina e vaidosa, se deixa levar por uma certa superficialidade, já à vista nas fotos do CD, com excesso de recursos digitais que tentam, inutilmente, apagar os efeitos do tempo e as imperfeições da pele. A voz aparece contida, explorando os espectros do grave, mas com perda do brilho e da força que lhe são peculiares. E aí, uma frustração: nada da inventividade, da força rítmica e sonora dos CDs “Leão do Norte” e “baioque”. Os maracatus e outros ritmos de Pernambuco aparecem de forma muito sutil, disfarçada, tímida. Não nos pegam a alma pela mão levando-nos a descobertas e surpresas. Os arranjos abdicam da força dos tambores e dos pandeiros, dos pífanos e epifanias. Talentosíssima emboladora de cocos, herdeira legítima da genética de Jackson do Pandeiro, o que a aproximaria, inevitavelmente, do samba, erra na apagada gravação de “As forças da natureza”, de João Nogueira e Paulo César Pinheiro”, que fica deslocada no disco, a não ser pela mensagem “política” de inconformismo com a ordem atual de desgoverno. Arrisca-se na bela “Noite Severina”, de Lula Queiroga e Pedro Luís, que já recebeu uma versão definitiva de Ney Matogrosso e o grupo Pedro Luís e a Parede. Mas dá o seu recado. Talvez com o tempo a gente vá gostando mais do CD, que de outro modo está longe de não ser bom. Mas não é tudo o que promete. Resta-nos esperar que Elba volte ao forró e às canções românticas. Na minha opinião, Elba é a melhor intérprete de Chico Buarque, e parece que ela ainda não descobriu até onde sua voz pode levá-la, ou engana-se ao deixar para trás a tradição e buscar compositores mais contemporâneos somente para parecer rejuvenescida. No palco ela é inigualável. Mas ainda não tive notícias do show deste disco. Quem souber, me conte. Enquanto isso, ouça Martinália nos advertindo, e isso sim nos interessa: “quero ver se você tem atitude/ se vai encarar!”

 

 

Renan



Escrito por RENAN BARBOSA às 12h52
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DO SAMBA DE LATADA E OUTROS PAGODES

 

 

 

Sim, estava devendo textos novos. Uma amiga me pressionou: “entro no seu blog, mas está sempre desatualizado”...

Algumas coisas legais aconteceram, mas a escrita da crônica não é uma coisa que flui sempre, mesmo quando achamos que o conteúdo já está presente...

Eu me perguntava: “sobre o que escrever?” Os últimos filmes que vi? A vida, com sua complexidade, enigmas nem sempre claros, surpresas, descobertas?

No fim, embalado pelo êxito das duas últimas apresentações do “Bom-dia, Nordeste”, neste  mês de novembro, aqui em Sampa,  e impregnado de música, por este e outros motivos, inclusive pela audição de alguns CDs novos e por já estar trabalhando no projeto do meu próximo show,  dei-me conta de que só poderia falar de música neste texto de retorno.

Da parte do amigo  Albertinho (Alberto Eloy, ator paraibano que mora no Rio de Janeiro e estava em cartaz aqui, com a peça Ariano, de Gustavo Paso e Astier Basílio, e fez participação especial no meu show), um filósofo e pesquisador musical informal,  fico conhecendo Maciel Salú, de Pernambuco, com o seu fantástico “Maciel Salú e o terno do terreiro” (www.brasileirinho.mus.br/artigos/macielsalu.htm). Maracatus, sambas, caboclinhos, e a autêntica música nordestina, do barro do chão mesmo. Não por acaso, dias depois compro o novo CD de Elba Ramalho e lá está a música “Gaiola da saudade”, de Maciel Salú,

abrindo o disco. De Recife também me chega o Eddie, grupo que também dá uma roupagem original e contemporânea a ritmos ancestrais de Pernambuco, com ênfase para o samba, ou uma variação dele, pois confesso que ainda sou um ignorante dos nossos ritmos, e tudo na minha cabeça vira uma salada multisonora: martelo, coco, samba, baque solto, ciranda, caboclinho... Pois bem, tive a sorte de assistir ao show do Eddie, no Studio SP (www.studiosp.org/), um clube da Vila Madalena que tem trazido artistas originais e emergentes da música nacional, em projetos com cara de balada e uma galera pra lá de animada e participativa. Fiquei fã absoluto e imediato do Eddie. O vocalista, apesar de não ter uma voz muito potente, consegue ser cativante e dá muito bem conta do seu recado. É calmo, carismático, não deixa o pique do show cair em nenhum momento.

Por outro lado, como manter-se antenado de tudo que rola no mundo da música é virtualmente impossível, ainda sou quase um ignorante do Cabruêra (www.fotolog.com/cabruera), grupo de Campina Grande que já fez várias turnês mundiais e naturalmente deu as caras em SP. Só os vi uma vez, no São João de Campina, na formação antiga, com um som maravilhoso, mas à época ainda devendo aprimoramentos vocais. Meus amigos e amigos e fãs da banda, Albertinho mais Rafaela Trindade, garantem que eles têm valor e estão em permanente contato com a sua gente campinense, nutrindo-se da energia que só a nossa terra consegue nos fornecer.

E aí, também dos lados de Pernambuco (juro que essa incursão foi totalmente ao acaso), fico conhecendo Josildo Sá, que vi recentemente, proseando e cantando ao lado de Paulo Moura, no programa Sarau, do jornalista Chico Pinheiro. Josildo criou um rótulo para uma música que nem de longe tem cheiro de novidade, na qual se faz uma junção de forró com samba, à qual batizou de “samba de latada”, numa alusão àqueles puxadinhos de zinco das casas simples com cadeiras na calçada, sob os quais o povo se reúne para dançar e cantar a alegria. Josildo tem um site bastante organizado, com músicas para download, inclusive (www.josildosa.com.br/).   Mas o surpreendente é que ele conseguiu gravar um disco inteiro em parceria com Paulo Moura, e o samba de latada já está nas lojas. Josildo, que esteve inclusive na última edição do Tim Festival, como vocês poderão ouvir, não é um cantor muito privilegiado. Tem a alma de artista, o amor pela música regional, é articulado, tem estilo, é  alegre, um showman. Mas a voz... Pois bem, aí fico pensando onde anda o nosso Biliu de Campina (www.liaa.ufcg.edu.br/musica/biliu/), o legítimo sucessor de Jackson do Pandeiro, com uma voz curta mas afinada, um humor genial e irreverente, um pandeirista magistral, compositor e embolador de coco da melhor qualidade. Ele também deveria estar gravando com Yamandú Costa (www.yamandu.com.br/), com Dominguinhos (www.biscoitofino.com.br/bf/cat_produto_cada.php?id=274), com Paulo Moura. Ele também deveria ser convidado do sarau de Chico Pinheiro, contando causos e embolando seu incrível repertório de cocos e forrós. Fico pensando como o destino, ou a persistência de Josildo Sá, podem tê-lo reunido à Paulo Moura. E me arrependo, mais uma vez, de não ter acessado, nunca, nossa eterna rainha do forró e do xaxado, Marinês (www.facom.ufba.br/pexsites/musicanordestina/marines.htm), enquanto ela vivia. Ela estava ali, em Campina Grande, amiga de amigos e familiares meus, mas eu achava que não teria o que conversar com ela, o que mostrar, além do carinho e da admiração mudos de tiete. Fui vencido pela timidez, e os deuses resolveram este ano que Marinês deveria fazer festa no céu, tolhendo-me definitivamente a chance de conhecê-la. Nem sei se ela chegou a ler a crônica que eu e minha irmã e jornalista Waleska publicamos em parceria num jornal campinense, há dois anos, em homenagem ao seu aniversário de 70 anos.

A propósito, onde anda a música paraibana? Para além dos mitos já consagrados e do Cabruêra? Tudo bem que nos falta a consistência histórica e o ego inflado mas atuante dos pernambucanos, mas temos consistência cultural, temos talentos, nomes. Temos? Ainda os temos? Bem... o novo CD de Elba é calcado nos ritmos, compositores e músicos de Pernambuco. Mera coincidência? Ou temos lições preciosas a aprender com os músicos e artistas pernambucanos? Sobre o disco novo da minha ídola, e outros lançamentos, comento no próximo texto. Até breve!

 

Renan

 



Escrito por RENAN BARBOSA às 13h21
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                                     A culpa, o lixo e as sacolas

 

 

Ah, a culpa...

A católica, a dos moralistas, a dos que tentam ser politicamente corretos. Tenho muita preocupação com o volume de lixo que produzimos e acho que pessoas que jogam lixo na rua deveriam ser submetidas a duras penas (o mesmo vale para quem cospe na rua ou masca chiclete em público, mas esse não é o foco deste texto). Mas comportar-se de modo civilizado não é uma virtude natural. É preciso treino pra não atirar no chão o papel de bala, o panfleto inútil da esquina, o tíquete do cinema. Também sou presa dos estímulos das soluções fáceis, mas... a culpa! Mesmo quando não há ninguém olhando. Afinal, é o medo do olhar dos outros que muitas vezes nos tolhe determinada ação ou travessura. Entretanto, o super ego existe e é. O avesso do olho do outro. Dentro de nós.

E por mais que tenhamos que através de ações individuais e coletivas fazer algo para acudir o planeta que agoniza, acho estranho como o tema do aquecimento global virou uma coisa massificada, na moda, na pauta, perseguindo-nos aonde quer que andemos, como o olho do ‘Grande Irmão’. Até os fabricantes de cerveja publicam anúncios dizendo que estão tentando salvar o planeta. E haja bandeiras: abaixo os carros, viva os biocombustíveis (e salve as queimadas de cana!), atenção com a água desperdiçada nos condomínios, casas ecológicas são a bola da vez, recicle o óleo de cozinha (felizmente não cozinho em casa nem como frituras), rejeitar produtos que venham embalados em bandejas de isopor, preferir embalagens de alumínio e papelão às plásticas,  e finalmente o grande vilão do momento são as sacolinhas. 400 anos para o plástico se decompor, bueiros e córregos entupidos e as enchentes; ouvi dizer que no Pacífico há quilômetros de sacolas plásticas forrando o chão do mar. Eu era do grupo que me sentia feliz usando as sacolinhas, pelas quais sou capaz de brigar sempre que me são negadas - talvez por ter vivenciado os imemoriais tempos dos sacos de papel, que se rasgavam assim que a gente saía do mercado. Sentia-me responsável e cuidadoso usando depois as sacolas para acomodar o lixo doméstico, o orgânico, já que o meu prédio graças aos deuses recicla!

E eis que dia desses leio uma matéria alertando: “se você recorre à desculpa de usar as sacolas para guardar o lixo, desista! Elas abarrotam os aterros, ajudam a poluir o solo, as águas, há baleias sendo encontradas mortas com centenas de quilos de sacolas plásticas no estômago!” Sempre peço no mercado, que entrega as minhas compras, para não acomodar os produtos apenas na caixa de transporte. Exijo as sacolas. Mas isso era antes. Agora, me sinto culpado. Acompanho a discussão em torno do plástico biodegradável, a campanha que sugere que nós mesmos embalemos nossas compras em sacolas trazidas de casa, os desfiles das sacolas de pano vips criadas por grandes estilistas.  Não, não fui ao desfile, só leio jornal uma vez por semana (é o suficente, a realidade não me anima a viver). Cada vez que deposito meu lixo nas sacolinhas de supermercado, fico com aquela sensação de transgressão, de pecado, de estar deliberadamente fazendo mal a mim e aos filhos e netos que não terei. Ainda bem que não vou à feira livre. Seria um dilema ver todas as frutas e legumes sendo colocados em dezenas de sacos plásticos. Ou será que teremos que voltar aos tempos dos balaios na cabeça (ria, você com certeza seria o empregador e não o balaieiro), ainda tão caros ao povo nordestino?

Mas cada vez que me lembro de nós, há muitos anos, quando eu ainda morava na Paraíba, em grupos de irmãos, carregando no ônibus sacos de papel que se rasgavam com o peso, com os gelados, e depois andando um ou dois quilômetros a pé, debaixo de um sol insuportável ou de chuvas impiedosas, até chegar no Quilombo dos Barbosa, no bairro de Bodocongó, equilibrando os produtos libertos, perseguindo-os enquanto rolavam ladeira abaixo, não deixo de louvar a invenção das sacolas plásticas. Que ficam a cada dia mais finas, mais transparentes, mais frágeis, penso que qualquer dia serão invisíveis...

Mas eis que, para aliviar minha culpa, na Folha de São Paulo do dia 05 de outubro havia um informe publicitário, dos fabricantes de plásticos e afins, afirmando que eles estão preocupados com o destino final das sacolas e pensando em soluções para que aquelas se tornem mais resistentes, reutilizáveis,  etc. etc. Pronto! Um alento, uma formação de compromisso para a minha culpa. Eles, os poderosos, os fabricantes, os verdadeiros responsáveis, vão pensar numa solução. Como sou crédulo e influenciável, acredito neles. Mas, até que isso aconteça, nunca mais sairei do supermercado tão em paz.

Matar uma formiga ou um pernilongo, vá lá. Mas acabar com o planeta, esse é um peso que meus ombros cansados não podem carregar.

 

 

 

Renan



Escrito por RENAN BARBOSA às 18h15
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SÍNDROME DE DORIAN GRAY

 

 

 

Talvez eu tenha perdido a fé mim mesmo, a crença nos meus próprios mitos, fantasias, sonhos, desejos.

Só isso explicaria o fato de que há mais de dez anos não me apaixono nem sou alvo da paixão alheia. Sim, ninguém veio a mim, nenhuma declaração, investimento, paquera mais duradoura. Como já escrevi em textos anteriores, nem a tristeza do meu olhar, que eu cria o meu grande trunfo, atrai os outros olhares. Teria o meu olhar perdido a capacidade de revelar as pessoas a si mesmas, silenciosamente, deixando-as encantadas, espantadas, aflitas, cativas? Era assim no passado. Meu olhar de adolescente intimidava as pessoas, por ser penetrante, inquiridor, profundo. Talvez nada tenha restado dele. A tristeza era um charme, um diferencial, a melancolia impregnava meus gestos, meus pensamentos, minha trajetória de escritor amador e cantor de banheiro. Mas ali eu ainda nem me aventurava nas artes da paixão e o olhar era apenas uma forma de comunicação com o mundo.

Mas onde andará o amor? É certo que por pertencer à raça da pedra dura eu deveria estar imune a ele, mas as pedras são os seres mais sensíveis. Todos culpam a mim, dizem que eu sou o responsável, que afasto as pessoas, que sou exigente, crítico, difícil, fechado. Mas o fato é que há muito deixei de me encantar com as pessoas. Não consigo ter expectativas, sequer aquelas idealizações do começo de todas as paixões, quando ainda não enxergamos "os impedimentos do amor"...

Também não ignoro que paixão e amor são coisas distintas, mas tanto um como outro são desejáveis!

Obcecado pela beleza, sou traído pela fragilidade, frieza e volatilidade desta. A beleza depende da luz, do ângulo, dos gestos, das posições corporais. Nunca se permite ficar por muito tempo. É veloz e fugaz, porque o rosto perfeito segundos depois não será o mesmo, a boca jamais se abrirá no mesmo sorriso, o braço não se recordará do  modo como estava colocado há pouco, a luz mudará de quadrante e desfará a magia... A beleza só causa dor, mas não manteria nenhum amor, nem o faz brotar. Para olhos que se alimentam da forma, essa é a única função da beleza: causar dor. A BELEZA É INAPREENSÍVEL. Não podemos tocá-la, comê-la, possuí-la, tê-la como parte de nós. Nem mesmo admirá-la por muito tempo, dada sua instantaneidade.  Está condenada à embriaguez do fascínio, ao aprisionamento do olhar. Mas o olhar é inepto, não fixa a imagem como uma foto ou tela. Quando o faz, já é com as nuances, distorções e novas cores da memória e da fantasia. 

Tenho em minha casa umas fotos, feitas por um fotógrafo multi-étnico que um dia apareceu no meu quintal, Alberto Kroff. Nunca mais soube dele.  Algumas pessoas me perguntam, ao ver as fotos num porta-retrato: “aquele é você?” Espanto-me. Como não me reconheceram? Porque, ao mirar tais fotografias, ainda me vejo como naquele meio-dia em que as fiz, às vésperas de um show em Campina Grande, nos anos 90. Não sinto que mudei. No fundo sei que o tempo levou todos aqueles traços de juventude e alguma beleza que na época eu desconhecia possuir (assim como hoje). Mas talvez ainda me sinta um jovem perdido em busca de respostas, nunca me sentindo maduro (o suficiente). Não corro atrás dos recursos tecnológicos e médicos a fim de perpetuar uma imagem que de fato nunca será a mesma, por mais que se tente apagar os rastros do tempo. Nem mesmo os cabelos que rareiam a cada dia me impelem a alguma ação. A minha “Síndrome de Dorian Gray”, como a chamo, se faz mais pelo exercício de uma certa negação. Finjo não ver o tempo passar. Mas os mecanismos de defesa não são infalíveis. Se o fossem, eu não estaria aqui fazendo essa confissão pública. E pode dizer-se capaz de amar alguém cuja noção de amor se liga intimamente à beleza? Se a beleza não é tangível, que dirá o amor que se acredita advir dela! Ilusão. Repito que não sou feito da matéria do amor apenas para ver se a vida, dialética e traiçoeira, me prega uma peça e me atira de novo ao “labirinto de sonhar” (sugiro a audição da minha música Depois do Escuro, no link à direita). Mas a espera já dura mais de dez anos. Sim, beijos, sexo, paixonites de um dia ou uma semana me sobrevieram, mas não é destes que falo nem que sinto falta. Talvez de fato nunca tenha amado. Um dia meu ex-terapeuta me disse isso. E isso me tornaria um caso mais grave. Um não amador. Um amador nos assuntos do amor. Um sem-amor.

Estou de volta aos apelos. Mas a literatura não funciona. Seduzo as pessoas no palco. Mas isso não basta. Sigo. Sou mais um rosto aflito e apresado na Avenida Paulista. Em busca do quê?

 

Renan

 



Escrito por RENAN BARBOSA às 13h53
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POR FAVOR, SALVEM-ME DO TEMPO PRESENTE!

 

Francisco Bosco, jovem escritor e compositor que escreve extraordinárias crônicas na revista Cult, recentemente afirmou numa delas que a delicadeza é uma virtude do século 21. Deve tê-lo feito como um desejo, um ideal de ego coletivo, porque eu não saberia encontrar delicadeza nos tempos atuais nem mesmo com uma lanterna acesa à luz do dia...

Vivemos numa era de relacionamento com as máquinas e com pessoas que parecem cada vez mais com aquelas (quem consegue manter um diálogo sensato com um "operador de telemarketing", porteiros, atendentes, comerciários?). Andando na rua, vemos alguém balbuciando coisas, pensamos até que se dirige a nós, um cumprimento, um (des)conhecido de quem não lembramos de imediato. Não, ele fala ao celular, mas através de fones, microfones e fios quase imperceptíveis. Pode haver cena mais esquizofrênica, mais tradutora do isolamento em que vivemos? Solilóquios são um dos critérios usados numa avaliação psiquiátrica para confirmar se alguém está psicótico. E a moda dos aparelhos de mp3 continuamente plugados? Numa cidade barulhenta como São Paulo, talvez até seja aconselhável. Música é melhor que sirenes e ruídos. Pretendo aderir! E ficarei com uma aparência super antenada: tênis all star, mochila, pomada no cabelo e mp3 no ouvido.

Se estamos num ônibus intermunicipal, mesmo de madrugada, somos despertados do nosso sonhado cochilo por músicas ou ringtones os mais esdrúxulos, e alguém começa a conversar como se estivesse no banheiro de casa, trocar gementes declarações de amor, entabular reuniões de negócio, discutir a relação, investigar onde o(a) namorado(a) está ("que barulho é esse? você não está em casa? você disse que não ia sair! fala mais alto, num tô ouvindo nada"). E o que dizer daquele jeito de conversar em que escutamos um apito estridente e em seguida a pessoa fala em voz alta, pelo viva-voz, ou pelo "Nextel", e ouvimos ambos os lados da conversa, para a qual não ligamos a mínima e nem pedimos para tomar parte?

Ah, mas o exemplo mais ilustrativo de até que ponto chegamos está nas peças de teatro, cinemas, shows e similares onde, apesar dos avisos, um celular sempre toca e, pior, é atendido? Já vi isto acontecer até num concerto da Sinfônica de Ribeirão Preto. No palco um solista estrangeiro. Na platéia, uma mãe atende o celular e conversa demoradamente com o filho. Diz onde está, pergunta o que ele está fazendo, pede para que não chegue tarde. Nada de sussurros (que também seriam inadequados). Ela fala num volume altíssimo. Por que não se pode ficar uma hora com o celular desligado? O mundo não vai parar de girar por isto. Já disse o filósofo: "as coisas não precisam de você". Consolemo-nos com isso. As catástrofes, que são em geral imprevistas, não deixarão de acontecer. Sempre brinco que as tragédias podem esperar. Por isso não durmo com os telefones ligados. De manhã cedo terei condições de receber as más notícias e tomar as providências. E se não for pela tragédia tão iminente quanto improvável, onde estaria a urgência QUE NÃO PERMITE DESLIGAR UM APARELHO SONORO NENHUM MINUTO?

As fofocas se dissipam rapidamente por sites, blogs, programas de TV. Somos engolfados por uma maré de informações inúteis, incluindo até se a loira do tchan vai depilar a prexeca em seu próximo ensaio para a Playboy. Dia desses, li uma ótima crônica de Nina Horta em que ela se dizia horrorizada com alguns programas que abordam alimentação e culinária na TV, como aquele em que uma senhora, quase nazista em sua rigidez, feia, envelhecida e meio encurvada (é nisso que dá se cuidar tanto?), submete os participantes do seu reality show a vários constrangimentos dietéticos, inclusive examinando suas fezes para ver se estão com aspecto saudável. Meu Deus, quem pediu para ver fezes na TV? E não há como escapar. As TVs a cabo estão abarrotadas de programas do tipo. Até Spielberg está produzindo um reality show. Eu não quero saber se a cantora de axé está noiva ou casada, se ela passou o fim de semana num spa ou se caiu de cara no chocolate.

Delicadeza perdida, onde andarás? Será que te escondeste em alguma comunidade do orkut? Atire a primeira pedra quem nunca esteve por lá. Eu estou, depois de muita resistência (na verdade, meu perfil foi aberto pela minha irmã Vitória que, revoltada pela minha recusa, se passou por mim no profile e nas interlocuções, durante meses, até que eu não tivesse outra alternativa a não ser assumir o controle e ser mais um nessa epidemia do século da interconectividade).

A que estamos conectados? Falamos por e-mail mesmo com pessoas que moram na mesma cidade. Quando as encontramos para uma pizza, temos que manter o diálogo enquanto ela envia e recebe torpedos. Isso se não tiver trazido seu palm top ou laptop. Vivemos no século da superficialidade. Por favor, alguém me joga a tábua de salvação? Como disse uma vez um ensaísta brasileiro, numa frase com a qual concordo e desconcordo: "um homem educado não é íntimo nem de si mesmo!" A delicadeza, Francisco Bosco, mostre-me onde encontrá-la.

Vivo num século que não é o meu. Desde o século passado tenho esta sensação. Quem disse que quero assistir ao BBB, ou suas "espiadinhas" nos intervalos comerciais, e no dia seguinte ouvir todo mundo (até conferencistas dos congressos de Psicanálise) comentando sobre a boneca de lata do vendedor de cocos? (Nada contra, mas preciso que as pessoas se imprimam em minha existência, ou melhor dizendo, invadam minha vida, minha TV, minha sala, por motivos um pouco mais consistentes). Por favor, libertem-me deste século. Ou me mandem ao paredão.Sei que faço este apelo num blog, mais um ícone de exposição do mundo atual, mas eu também, mesmo sendo um conservador, um romântico, um nostálgico, não creio que o caminho é lutar contra a marcha da História... Só que... gostaria de retroceder.

Houve um passado em que ficávamos na fila do banco, mas éramos atendidos por gente de verdade. Se algo dava errado, tínhamos a quem reclamar, e nossas reclamações eram levadas em conta (eram?). As contas eram registradas numa caderneta, buscava-se a mercadoria baseado na confiança. Um bilhete dos pais nos abria a porta da livraria, da padaria, da mercearia, da sapataria. E garanto que recorríamos menos aos Procon, que não existia na época, para reclamar de contas inexistentes ou cobranças indevidas. Já vivi novelas com companhias telefônicas e outras empresas do mundo virtual que duraram meses, com lances surrealistas que dariam um livro. De horrores! E tudo termina sempre... em churrasco (para aludir aos bois do meu chará: por favor, quem for meu amigo jamais me convide para um churrasco: odeio!). Meu Deus, será que estou ficando velho?

Ah, agruras do tempo presente. Que venham Drummond, Bandeira, Manoel de Barros e nos tragam um pouco de alento. Se ao menos eu escrevesse como Fernando Bonassi, ou tivesse a lira de Chico Buarque. Ou a voz de Milton. Mas sou um mortal comum. E no fundo a literatura não salva. A música não salva. A arte não salva. Será que te(nho)mos salvação? Há alguma saída? Enlouquecer, talvez? Mas a pílulas anti-loucura estão tão eficazes! Morrer antes da hora, nem pensar. Como Quintana dizia: "Morrer, que me importa? O diabo é deixar de viver!" Talvez por isso eu prefira ficar sozinho. Em casa. Com "meus discos, meus livros e nada mais"...

Renan



Escrito por RENAN BARBOSA às 12h34
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FORTUITAS E FURTIVAS I

 

 

Voltava  para casa, tarde da noite, após uma aula estafante. Fazia o trajeto a pé depois de tomar o metrô. Na calçada oposta, percebeu um olhar, que o mirou uma, duas, várias vezes. A escuridão não permitia ver o rosto com nitidez. Retribuiu os olhares, só por deleite, por ser aquela uma situação quase extraordinária: ser visto e desejado, sentir-se alvo de um olhar de cobiça.

Havia  ainda aquela aura de mistério, de interdição, uma paquera na rua escura, com um desconhecido. Uma sensação adolescente de transgressão, uma excitação gerada pelos temores  e ansiedade próprios da situação.  Fazia frio, mas o

outro vestia um short muito curto, deixando à mostra coxas branquíssimas e atléticas, mochila nos ombros. E o olhar que o devorava, de esquina a esquina.

Um idoso ia à sua frente, interceptando-lhe a visão, impedindo-o de qualquer aproximação. Mas andou mais rápido e se desvencilhou daquela "sabotagem". Atravessou a rua e viu-se lado a lado com o desconhecido das coxas enormes. Sorrisos maliciosos, um oi dito com timidez e alguma lascívia. As inevitáveis perguntas: seu nome, o que você faz, de onde está vindo, mora por aqui? Informações desnecessárias que nem exalavam verdade e não acrescentavam intimidade, antes aumentavam o constrangimento. O convite implícito, após elogios: “o que vai fazer agora?”

O outro, o desconhecido, não era feio nem bonito, nem desejável nem repugnante. Mas o caminho da aventura estava aberto. A sorte, lançada. Vinha da academia. Certamente suara muito e estava discretamente desidratado. Pois chegou-lhe aguda, penetrante,  aquela halitose que denuncia a boca seca, de quando há tempos não ingerimos um copo d’água. E isto bastou. 

“Vou dormir, estou muito cansado”.

A paquera valera a pena, mas ponderou que o amor, mesmo por uma noite, não resiste a um hálito desagradável. Pronto. No seu caminho não havia mais nem paquera, nem cansaço, nem apelos da retina.

 

 

Da série "Dos impedimentos do amor", escrito em paceria pelos irmãos Renan e Vitória Barbosa 

 

 



Escrito por RENAN BARBOSA às 09h57
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FORTUITAS E FURTIVAS II

 

Estava na pizzaria, uma daquelas que servem a pizza em pedaços e sem talheres. Devorava uma fatia da de chocolate, a sobremesa. Impossível não lambuzar os lábios, os dedos, inevitável não lambê-los para se deliciar com o chocolate restante e limpar-se. E então percebeu o olhar que o apreciava. Na mesa, coletiva, estavam vários clientes desconhecidos. Permaneceu quieto, entretido com o prazer do chocolate, mas vez em quando não resistia a olhar para o outro que o comia com os olhos e esta descrição, embora soasse vulgar, era a mais adequada para descrever o assédio. Por mais que aquilo o incomodasse, queria descobrir se o outro era bonito, se compensava correr o risco da reciprocidade. E para isso tinha que mirá-lo, mesmo com hesitação. De sua parte, aquela troca de olhares jamais se transformaria em outro tipo de diálogo. Não seria capaz. Havia um misto de timidez, ética, decoro que o mantinha preso somente ao olhar, ou nem isso. Mas o outro foi mais rápido. Sorrindo, perguntou-lhe se a pizza estava boa. Respondeu afirmativamente, apenas com um aceno de cabeça e um sorriso dissimulado, lábios cerrados. “Deixa um pedaço pra mim?” Foi a pergunta seguinte.  Surpreendeu-se com a ousadia, com a sem-cerimônia. E rindo, desta vez mais prodigamente, indagou se o outro sempre abordava desconhecidos  para mendigar  pedaços  de pizza. “Só quando parece gostoso” - a resposta ambígua. E riu. E neste momento, ele pode ver um pedaço de brócolis grudado nos dentes do outro, ali, no encontro dos incisivos, enfeiando o sorriso que de outro modo também não era belo nem encantador. E como um  admirador inflexível de sorrisos, quase valorando as pessoas a partir deles, ponderou que o amor, mesmo por uma noite, não resiste a um sorriso maculado. Levantou-se, lambeu os dedos uma última vez e, altivo,  saiu deixando o outro sozinho com sua cantada vulgar e seus dentes manchados de verde.  

 

 

Da série “Dos impedimentos do amor”, escrito em parceria pelos irmãos Renan e Vitória Barbosa



Escrito por RENAN BARBOSA às 09h51
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AS FLORES NO JARDIM DA MINHA CASA

OU PORQUE “CANTAR VALE VIVER”

 

 

 

Estou conectado com eles, meus irmãos de música. Sim, estou conectado com Evandro Navarro, que tem música concorrendo, neste final de semana, num Festival em Ribeirão Preto, cidade onde mora há mais de uma década. Evandro foi sempre amigo, parceiro, me acompanhou como violonista em muitos shows, me ensinou com sua generosidade, sua humildade, me transformou num de seus mais apaixonados intérpretes, porque suas composições me tocam instantaneamente, me falam de muito perto, ali no vão entre a pele e as emoções mais profundas, e eu me apodero dela, da sua música, como ele mesmo escreveu um dia: “quando ouço Renan cantar a minha canção, penso: ele a roubou de mim”... Foi pensando na parceria que vivenciamos em Ribeirão Preto, que escrevi a letra “A outra voz”, a primeira em que tive coragem de assinar também a melodia, infelizmente gravada ainda de um modo não definitivo e com erros de edição, mas disponível aí ao lado, na minha página no trama virtual: “encontre um novo tom/ me creia como amigo/ e diga que cantar de novo é possível/ quando a canção nascer/ o que será de nós?/ caminhos dissonantes ou o encontro de uma outra voz?”

E no momento ouço o CD “A cidade e a canção”, uma coletânea organizada por Evandro e Arthur Cardoso, que recentemente chegou às minhas mãos. Contempla os mais talentosos compositores de Ribeirão. Arthur também amigo, cantor sensível, se mostra um letrista talentoso! E isso me liga de novo a eles, me reaproxima, porque sempre me realizo quando os músicos amigos se realizam, realizam algo, conseguem sair da inércia e vencer a enorme dificuldade que é colocar um produto cultural no mercado, furar o cerco das “panelinhas”, conseguir se fazer ver e ouvir. Saudade dos tempos de calor, chopp, descobertas e música em Ribeirão.

Estou conectado com Mário Martinez, amigo, parceiro, diretor musical do meu show “Bom-dia, Nordeste!”, compositor da bela “Valsa Antiga” selecionada no Festival de MPB de Tatuí, o mais importante do país. Ontem Mário estava lá, testemunhando a interpretação de sua música por André de Souza, um dos melhores cantores do Brasil (e que foi responsável pelos arranjos e direção musical do meu CD demonstrativo, gravado em 98). E Valsa Antiga já está na final, recebi torpedo me informando disso hoje. Mais tarde, apelarei aos deuses da música que estejam ao lado de André durante sua performance e que a valsa traga muitos prêmios pra casa. De qualquer forma, é a celebração do talento que conta, este é o prêmio maior: levar nossa arte às pessoas.

Estou conectado com Fred Martins, vencedor do prêmio Visa compositores no ano passado, carioca que começa a ser conhecido pelos paulistanos e que fez recentemente mais um show impecável aqui. No final, timidamente, entreguei a ele o meu CD, e ele lembrou do texto que já publiquei aqui neste blog a seu respeito. Disse-me que ficou “envergonhado” com os elogios. Constrangido estava eu por tietá-lo e assustado por descobrir que ele viera ao blog e lera a minha crônica. Fred tem sido nossa inspiração, a mim, Mário e outros, pelo seu talento, sua presença de palco, sua pluralidade, indo do samba ao pop com extrema competência, uma simplicidade exemplar e talento fenomenal como compositor.

Estou conectado com meu amigo Dario, que após muitos anos trabalhando como médico na África, volta pro Rio e resolve exercitar a faceta de produtor, aproveitando sua cultura, sua liderança, sua ligação com a arte e com os artistas, e que no momento se empenha em levar o meu show para lá.

Estou conectado com a música porque tenho que ouvir, ensaiar, encontrar o meu jeito de interpretar a música “As flores do jardim da nossa casa”, de Roberto e Erasmo Carlos, já lindamente gravada por Bethânia. É esta canção que interpretarei na peça Conta Gotas, do grupo Teatro de Febre, que estréia aqui em São Paulo no próximo dia 09 de junho, no teatro Júlia Bergmann. Sim, já atuei em peças, em musicais, mas é a primeira vez que o faço de um modo tão cru, como uma participação especial, cantando sem acompanhamento...  

Que os deuses do teatro não me abandonem (nem os da música!)

Ah, cada vez mais a certeza de que “viver vale cantar”...

 

Renan




Escrito por RENAN BARBOSA às 17h45
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Novos contos da série “DOS IMPEDIMENTOS DO AMOR”

          

CONCERTO INTERROMPIDO

 

 

Primeiro um simples passar casual pela rua. E a dúvida: será que o veria novamente? Depois em um bar. O destino os aproximava. Mas ainda nenhum diálogo. E então o arremate: mais um encontro inesperado no Departamento de Música da Universidade.

E desta vez, mais olhares. Qual seria o próximo movimento? Era gostosa aquela paquera tão despretensiosa. Que já não era tão despretensiosa assim. Encontrara agora um solo que lhe dava altura, ritmo e melodia.

Apresentação. Aplausos e pedidos de bis. Conversas cheias de manhas e charminhos. Ambos utilizando-se de todos aqueles artifícios que mesmo gastos faziam o jogo da sedução ficar mais empolgante. Como num palco, exageravam os talentos e a simpatia. Eram jovens, a beleza deste estado justificava o narcisismo e a exibição.

Ele: violinista. Aluno veterano. Músico precoce, talento nato. Ela tentava a flauta, mais por apego à música e à arte que por talento. Conversa numa pauta. Conversa na outra.  Sorrisos. E os apelos dela encontraram eco: um concerto. Só para ela. Sacou do instrumento para tocá-la.

Tocou-a. Ela olhava maravilhada. Na sua pressa ingênua imaginou estar diante do seu eterno amor. Deslizava ao som do violino. Em poucos movimentos, imaginou toda uma vida ao lado dele. Tinha o antebraço lindo (ela tinha admiração especial por antebraços). Mas do antebraço seu olhar delicado sempre tateava as mãos. E era imperativo descobrir o anelar esquerdo, o lugar em que deveria colocar brevemente a aliança.

E lá esta ele, o anelar, trabalhando em acordes. Mas, o que era aquilo? Escutou o ruído agudo de uma corda que se rompe. Seu olhar paralisado, sua respiração em pausa. Seu corpo todo em tensão como um arco esticado além do limite. Ao invés da melodia do violino, só o seu coração em pausa. Havia algo no anelar. Uma verruga. O seu sonho transformado em grotescas dissonâncias. Viu a aliança escapando subitamente daquele dedo. Não havia como salvá-la. Foi o último acorde.

 

 Escrito em parceria pelos irmãos Renan e Vitória Barbosa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por RENAN BARBOSA às 06h30
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           Novos contos da série “DOS IMPEDIMENTOS DO AMOR”

            Escritos em parceria  pelos irmãos Renan e Vitória Babosa

 

PIERCING

 

 

Com ela poderia acontecer também. Já havia visto em revistas, programas de TV e novelas. Acontecera bem perto de si, com sua prima tudo dera certo. Afinal, não importava o meio, mas sim a busca: o encontro virtual e o amor real. Atravessar a ponte entre eles.

Era preciso paciência. As salas de bate-papo eram um verdadeiro exercício de perseverança. As perguntas iniciais lembravam pesquisas do IBGE. Até cogitou que fosse mesmo, tamanha a similaridade dos questionários.

Sentia-se num canil, desses modernos, onde os cães esperam por alguém que os adote, enquanto latem, esganiçam, fedem. E imploram.

Enfim, um diálogo razoável. Não, aquele não era do IBGE. Alguns dias de conversa, muitas horas plasmando-se no monitor, moldando sua história.

Encontro marcado. Em um café, para dar um tom elegante e diminuir os riscos. As descrições correspondiam. As impressões também. Restava o crivo decisivo do seu olhar. Ah, os olhos têm um terrível radar para imperfeições. Mesmo assim, sentia-se bem impressionada e quase disposta a desenhar os esboços de uma paixão quando

dentro das espessas sobrancelhas captou, incrustadas como um  piercing (tinham até um certo caimento), escamas. Adorava beijar os olhos, mas como fazê-lo em alguém que cultivava tal dermatose? Imaginou aquelas escamas grudando em seu rosto, dispersas em seu corpo, na sua cama, no seu travesseiro. Precisava barrar a imaginação antes que o enjôo e a repulsa se concretizassem defronte dele, em jatos incoercíveis.

Por que uma imperfeição tão evidente? Por que tinha um olho tão crítico e impiedoso? Uma desculpa para antecipar o papo. “Desculpe, você é legal, mas não bateu”. Pensou que amor e caspas são incompatíveis. Fugiu dali, para sempre, esquecendo até de pagar sua metade da conta.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por RENAN BARBOSA às 06h29
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