O quereres


 

                                                                                     RANCOR

                                                                PARTE I

                                                                            (Renan Barbosa)



       Quando deitou os olhos sobre aquele fiapo de gente, branco e frágil, com olhos esgazeados e boca voraz que parecia querer exaurir o peito da mãe, lamentou-a. Fora traído? Não saberia. Mas depois que a menina nasceu, nunca mais se deitou com a mulher. Decisão fortalecida pela notícia de que o parto agoniante lhe tirara a capacidade de gerar outros filhos.

      Ele mesmo construíra a casa onde moravam. Poucos cômodos, feia, pedindo novos reparos, alardeando sua pobreza e sua inabilidade para a vida. Não gostava de se aperceber dos fracassos. Para não sentir medo ou desapontar-se de si mesmo, recorria à cachaça dividida com os colegas da rua, fodidos como ele, satisfeitos por boiar na vala do esquecimento coletivo.

      A família vivia amontoada, despida de qualquer privacidade. Com ele, trouxera a mãe viúva, doente e resmungona. Com a esposa, vieram a irmã, a filha da irmã e os filhos da filha da cunhada. Aquelas mulheres, exalando perfumes, vontades, enxaquecas, cólicas mensais, torturavam-no cotidianamente, como um corte que nunca pára de sangrar.

      Mas nada inflamava tanto o seu ódio como aquele bebê. Uma menina estranha, sempre fitando-o de muito alto, denunciando sua “insapiência”. Muitas vezes pensou em matá-la. Seria fácil e pareceria acidente. Entretanto, ela parecia adivinhar seu projeto e às vezes até sorria, como pedindo que a deixasse viver. No resto do tempo, chorava. O peito reclamando liberdade, buscando o ar que não existia naquela casa insalubre, a asma levando a mãe ao desespero, vagando com a pequena mazela nas filas do SUS.

Contrariando as profecias fúnebres da vizinhança, ela cresceu. Sempre pelos cantos, isolada, afrontando-o com sua dissimulação e sua frieza. Nunca o chamou de pai. Nunca o abraçou. Era feia. Se fosse mesmo sua filha, teria herdado seu olhar escuro, sua pele morena, seus lábios grossos, suas mãos largas, acostumadas à pá e ao cimento.

      A mulher, a adúltera, a sonsa, não reclamava sua ausência na cama. Agora passava os dias na igreja, entregando aos obreiros o que ele ganhava nos andaimes. Ainda havia sua mãe, cada vez mais confusa, a cunhada inútil, gemendo com as dores da fibromialgia, e o circo de crianças. Gritaria, sujeira, choros e palmadas, e o silêncio da filha. Dedicada aos estudos, sempre com lápis e papel na mão, rabiscando coisas que ele nunca leria porque desconhecia as palavras. Carregando livros mais pesados que ela, vagando pelas bibliotecas como outrora vagava pelos hospitais. Ainda tinha crises de asma, mas já não sofria como antes.



Escrito por RENAN BARBOSA às 10h40
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


 

              

                                                   RANCOR

                                                   PARTE II

                                                  (RENAN BARBOSA)



     Um dia apareceu com uma enorme caixa de papelão, onde passou a depositar seus papéis enigmáticos, segredos que ela não compartilhava com ninguém. Odiou-a ainda mais. Por guardar aquela fortuna de letras, por ignorá-lo tanto mais quanto aumentava sua devoção àquele baú de ocultações. Como aquilo podia ser mais importante que a própria família? Ela não trabalhava, insistia que isso atrapalharia seus estudos. Nenhum namorado, nenhuma amiga, nenhuma festa de onde voltasse tarde para merecer castigo. De vez em quando flagrava-a espreitando-o. Aqueles olhares turvos, amarelados, pareciam reivindicar um pai que ele jamais seria. A caixa sim, era amada por ela.

      Esperou a oportunidade de vingar-se. Num dia em que todos estavam fora, levou a caixa ao quintal e incendiou-a. Ela chegou transtornada, como se já soubesse do ocorrido. Em silêncio, contemplou por alguns segundos as cinzas, e em seguida libertou os gritos de uma vida inteira. Tremia, corria pela casa quebrando objetos e rasgava-se com as próprias unhas. Os outros nesse momento regressavam da igreja. Assustaram-se, tentando em vão contê-la. Devia estar louca ou drogada. Polícia e ambulância foram convocados. Do pronto-socorro foi imediatamente levada para um manicômio. Sem pronunciar palavra, segundo lhe contaram, com um olhar que era puro rancor. Torcia para que apodrecesse lá, mas o médico prevenira-os de que seria uma internação curta. A vergonha que lhe causava é que devia ter sido breve. Mas não, já durava mais de vinte anos. Nunca iria perdoá-la. Apesar disso, estava pensando em visitá-la no domingo, e levar as crianças.














                                



Escrito por RENAN BARBOSA às 10h37
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


 

SÓ OS POETAS CONHECEM OS MISTÉRIOS DE DEUS”



(Vitória Maria Barbosa)

PARTE I


Estava caminhando sem saber para onde. Estava caminhando aborrecida pela vida. “Navegar é preciso, viver não é preciso” - era o que cantarolava em silêncio, repetidamente. Viver não é preciso. Caminhar é preciso. Viver. Caminhar. Preciso. Caminhava olhando para o chão.

Cansada, achou providencialmente um banco, numa praça obscura entre grandes avenidas. Sentou-se e continuou olhando para o chão. Nada tinha importância, isso sim é que era preciso. Viu um papel dobrado, descolorido, desimportante. Contemplou-o por um certo tempo até tomar a decisão de apanhá-lo. Segurou-o ainda por um outro tempo até abrí-lo. Encontrou palavras:


Abstinente da poesia e convencido de que só os poetas conhecem os mistérios de Deus, resolvi encontrá-lo, antes que a morte em vida me subtraia o que tenho de mais precioso: a memória da caixa. Não me lamentem”.


Sentiu uma espécie de vibração. Encontrou algo, encontrou palavras, palavras que lhe chegaram com força. Aquela mensagem parecia ter algo de morte. Mas a ela, aquilo a preencheu de vida.

As mãos estavam trêmulas, assim como estava trêmulo um sorriso que insistia em brotar nos músculos entorpecidos de sua face. Não percebeu que passou horas degustando as palavras, menos por compreensão que por prazer.

Após o período de contemplação passou a especular: quem teria escrito aquelas palavras? Estaria vivo seu autor? Era de fato uma despedida? Era um texto original ou apenas uma cópia despretensiosa? Mas o que mais lhe causava indagações era a caixa. Que diabos de caixa seria aquela? Olhou em volta, procurando-a. Olhou em vão. Foi inevitável lamentar, não o autor, como era o recomendado no bilhete, mas ao que ele deixara de explicar: a caixa, não ela exatamente, mas a sua memória.

Lembrou-se de que também ela tinha uma caixa. Uma lembrança que veio acompanhada por lágrimas. Uma memória de dor. Cruzou os braços sobre o ventre, apertando-o, e curvou-se como se sentisse contrações. Por fim, encolheu-se, deitada no banco, e adormeceu. Na mão esquerda, apertado, estava o enigmático bilhete.

Quando abriu os olhos, deparou-se com o céu


...só os poetas conhecem os mistérios de Deus,


A frase parecia estar colada nele.

Estava tranqüila. Agora poderia suportar a memória de sua caixa.


antes que a morte em vida me subtraia o que tenho de mais precioso


A memória de sua caixa:



Escrito por RENAN BARBOSA às 10h20
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


 

SÓ OS POETAS CONHECEM OS MISTÉRIOS DE DEUS”



(Autora: Vitória Maria Barbosa)

PARTE II


Desde cedo foi considerada esquisita. Desde cedo achou a vida esquisita. Desde cedo estabeleceu com as palavras o único elo possível entre ela e a vida. Desde cedo achou que guardar suas palavras em uma caixa era uma forma de se sustentar na vida.

Era uma caixa grande. Com o passar do tempo, passou a decorá-la externamente com recortes de revistas. Dentro, seus escritos: em guardanapos, em papel de embrulho, nas folhas arrancadas dos cadernos, em qualquer papel.

A caixa era o seu porto seguro. Era tomada de serenidade quando dela estava próxima. Uma relação visceral de amor. Da caixa dependia sua sobrevivência.


...só os poetas conhecem os mistérios de Deus,


Pouco falava com as pessoas, pouco escutava a gritaria de sua intranqüila família. Só ela e a caixa. Ao seu lado chorava, ao seu lado silenciava sem que isto fosse motivo de inquietação. Sua caixa e ela.

Foi num dia como aquele no qual achou o bilhete, foi num dia como aquele em que caminhava sem rumo, que sentiu uma batida surda em seu peito, como se não pudesse mais respirar. Voltou para casa movida pela aflição. Sentiu cheiro de fumaça, ficou tonta, as pernas pareciam não lhe obedecer, era como se não fosse possível chegar até a caixa. Sentia o suor gelado, sentia a aniquilação e a agonia de não saber gritar: sua caixa fora queimada por algum infame parente.

Dali em diante, somente lembrava que estava em um hospital. Um hospital para loucos. Alguns dias após sua fuga, vagando pelas ruas, vivendo de sobras e latas descartáveis, encontrou o bilhete.

Eis a memória de sua caixa.


Abstinente da poesia


Chorou e gritou. Chorou e gritou com todo o seu corpo a sua caixa. A memória de sua caixa.

Ninguém a lamentaria.




Escrito por RENAN BARBOSA às 10h19
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
 
Histórico


Votação
Dê uma nota para
meu blog



Outros sites
 minhas músicas na NET
 blog vitória 2007
 blog waleska 2007
 Blog Rômulo Barbosa
 blog thulio antunes
 Blog Edith do Pandeiro
 blog Mauro Siqueira
 conexãocordel
 Beco do Seu Cisco