O quereres


 

PASSAGEM ERRANTE

 

 

Foi violenta e insólita a passagem para o desejo E do outro lado me esperava a doce e desesperada angústia de amar Mas me descobri sozinho, no meio da passagem Estendendo a mão para uma que se havia ausente, procurando o abrigo de um colo vazio Retribuindo um sorriso que não reluziu confirmando a procura E do desejo, e do amor, não conheço mais que uma saudade, uma perda, um luto [a reciprocidade pousada em trilhos interrompidos Lá de baixo chegam-me os gritos lancinantes do abismo Abdico do fogo que não ardeu em dois corpos Abdico do conhecimento que não foi partilhado Abdico de me procurar no labirinto do outro Este, onde andaria? Escondido no seu castelo de dúvidas, guardando consigo a outra metade do fogo, do toque, do desejo?...

Amor? É assim como errar na névoa, ou tentar pisar o teto da Terra (não há certezas nem chão... Se me fosse permitido, quereria desejo e amor entrelaçados, e depois – convidada a entrar a loucura – a aventura sublime do gozo [quase perene, entre entorpecidos lençóis Recolho-me Nem louco  [nem santo, de fato... Nem grato Parto Dou adeus às imperfeições e me cubro com a crosta da ferida aberta Não quero mais sangue Privo-me da dor e do alimento Quase não choro...

 

 

Renan.



Escrito por RENAN BARBOSA às 11h59
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RETRATOS DO COTIDIANO

 

 

A paz refugia-se nas teias de aranha.

O silêncio jaz no fundo do sapato.

A mosca brinca de cama elástica

no prato de gelatina.

No laboratório, o bisturi realiza

alegres incursões no corpo do batráquio.

A dentadura rodopia conduzida

pelo indicador,  no copo amarelo de cepacol.

No jardim, a criança meticulosamente

atrai formiguinhas com sua

chupeta salivada, que em seguida degusta com

inocente satisfação.

 

 

Renan



Escrito por RENAN BARBOSA às 11h41
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                                                     BRANCOS

                                          (Ricardo Aleixo)

 

 

eles que são brancos e os que não são eles

que são machos e os que não são eles que

são adultos e os que não são eles que são

cristãos e os que não são eles que são

ricos e os que não são eles que são sãos e

os que não são todos os que são mas não

acham que são como os outros que se entendam

que se expliquem que se cuidem que se

 



Escrito por RENAN BARBOSA às 20h05
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SOBRE A ESTRANHA RELAÇÃO ENTRE A AULA DE TEATRO, A CULPA CATÓLICA E UM (OU TODO) DIA DE FÚRIA

 

 

Eu tinha uma boa desculpa pra não ir. Tava caindo um daqueles temporais típicos de Sampa, e não sou lavoura nem nada, venho de um signo solar e sou uma criatura da noite – seca, banhada a água e coca-cola. Então, não daria pra ir ao curso de teatro hoje. Mais eis que precisamente às sete e meia, hora limite pra sair de casa, temporal se foi, ficou somente uma garoinha, um frio discreto, mas uma enorme preguiça. A sensação é de que perderei a hora pro plantão amanhã,  de que devo respeitar meu cansaço e uma gripe mal-curada que me atormenta há quase um mês (já achando que tô com tuberca! Rs...). E não ir. E de fato não fui. “Gazeei”, cabulei, matei a aula de teatro. Também, a professora de corpo é uma carrasca nazista, saio de lá o próprio bagaço cuspido do rolete de cana, a aula de voz é chata [que saudade das aulas de técnica vocal do “Nós e Voz”, onde me desabrochei para a música (“ai, ai, Campina Grande, eu vivo aqui tão só!”...)], e acordo às cinco e meia pra enfrentar uma fila de loucos, outros nem tanto, mendigos e excluídos num plantão de pronto socorro.

E precisava tanto “moído” por uma aula perdida? Ah, mas quando se tem um funcionamento obsessivo (e estou falando de psicodinâmica, não de doutrina espírita, argh!), a dúvida nos move e às vezes nos paralisa...

E a culpa??? Se pelo menos eu conseguisse desencanar das coisas e ‘ligar o foda-se’, como diz o meu amigo Luiz Augusto, mas fica aquela coisinha doendo, “rasgando, tomando meu corpo e então”... Dá pra segurar, mas incomoda um pouco. Não sou talhado para os grandes nem os pequenos pecados. E a culpa católica embutida na educação familiar, colégios católicos, grupos de jovens católicos? Definitivamente habita minha alma! Mas não ligo: matricularia todos os filhos que jamais terei em colégios católicos. Algo que só quem leu “Totem e Tabu” poderia compreender...

Mas estou enrolando, o bom leitor já percebeu, porque continuo sem inspiração e assunto para atualizar esse blog.  Que também nem sei se está sendo visitado, lido, apreciado. E, diga-se de passagem, quem faz quer ser visto! Nenhuma produção intelectual ou artística é desinteressada e amante do anonimato... Não, não acreditem em quem se fizer de anti-narcísico. Toda arte quer ser eterna. Até um mero blog de um aspirante a escritor-cantor-poeta que só curte aspirar carreirinhas de po-e-mas e  viajar na cultura. E ama viver sóbrio...  Só por hoje, e ontem e sempre! Talvez até excessivamente. Daí a culpa por matar uma simples aula. Imagine se eu tivesse licença pra matar, como às vezes gostaria. De manhã eu gostaria de fazer tombar uns três... Aí o meu dia correria lépido, fagueiro, quase feliz... Sim, porque a vida é insuportável antes das dez da manhã e depois dela preciso de grande esforço pra ME aturar e aturar a humanidade. Mas fazer o quê? Temos que viver conforme as regras. E nunca tive muito talento para ser um transgressor. Mas para quem pensar que sou um bom moço, ainda há tempo de se arrepender. E com certeza terá chegado mais perto de mim e ganhará como prêmio o meu respeito eterno.

Assim seja!!!

Renan (quinta à noite)



Escrito por RENAN BARBOSA às 19h18
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                             SOBRE A PREGUIÇA EXISTENCIAL QUE FOI DELETADA

 

Não pensei que seria fácil escrever num blog, mas tenho que confessar: tem sido mais difícil do que eu pensava. Ser cronista do próprio cotidiano, arrumar prumo e tino pras idéias e alinhá-las de modo coerente (ou não) não é tarefinha amena. E tem mais: como regular a medida de exposição, como dar trégua ao superego e ao mesmo tempo exercer um mínimo de censura de modo a evitar micos e escritas desnecessárias?

Já houve mais de uma vez em que escrevi algo aqui e no dia seguinte, mesmo atrasado pro trabalho, tive que entrar correndo e apagar o texto. Se alguém leu, bem... Se não, perdeu!!! Rs... Ontem nem precisei de uma noite inteira pra mudar de idéia: antes de ir dormir deletei o texto que acabara de colocar aqui, que tratava do meu momento atual (intitulado de preguiça existencial).

Mas, escrever sobre a falta mesma de assunto é ardiloso e clichê, pura covardia. Por isso paro por aqui. Ultimamente ando tão blasé que até o blog de santiago nazarian tem me entediado...

Mas paciência. Logo passa...

Inté...

Renan



Escrito por RENAN BARBOSA às 10h06
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