GOSTO DE SENTIR A MINHA LINGUA ROÇAR A LÍNGUA DE CAETANO VELOSO
No curso de teatro começamos uma fase de experimentações, com pequenas cenas improvisadas, algo que nos levará à montagem de um espetáculo para o encerramento do semestre. E os colegas ficaram impressionados com a minha aparente desenvoltura. Não é talento, é que eles me vêem habitualmente tímido no contato, e ficaram surpresos de me ver improvisando, me soltando. Não sabem que o palco não é um estranho pra mim, depois de 18 anos cantando...
Querem a todo custo saber de onde saiu a prontidão com que saco expressões como “tertúlia dançante”, “alcova”, “modista”, entre outras, para as minhas falas nas cenas de época. Explico que pertenço ao tempo de Machado de Assis, e é verdade. Meu tempo é outro. Eu gostaria de ter vivido nos mil e oitocentos. Nunca me senti fazendo parte do século 20, muito menos do 21, da modernidade, não tenho atração pela tecnologia, sou um conservador, um antiquado, meus sonhos e aspirações são outros, deslocados no tempo.
Machado de Assis, de quem li toda a obra aos nove anos de idade (culpa da minha irmã Vânia, que me presenteou), definitivamente moldou a minha alma. Que também tem pitadas dos poetas do romantismo e ares barrocos. O resto do trabalho foi feito por Camus e Sartre. Para quem leu “A idade da razão” (Sartre) aos quinze, aos 18 e aos 30 (e cá estou eu quase revelando a idade) e só não releu ainda porque o livro foi roubado por um amigo (aceito presente: todos aos sebos!), a vida nunca mais poderia ser a mesma. Não há como sobreviver incólume a esta leitura. A alma se altera, sem sabermos apontar exatamente como e onde, mas não se permanece o mesmo. A dor finca raízes, a liberdade brota incorrigível, as escolhas ganham outro peso e densidade...
E cá estou eu, este produto mal-acabado da literatura, incapaz de ser e pensar como os mestres, mas criando confusões de dores e amores, arte e poesia, música e melancolia. Revólver e coqueiro, dinheiro e paixão, descanso e desejo, querendo sempre mais, mesmo quando pareço ser modesto...
“Ah, bruta flor do querer”....“ah, bruta flor, bruta flor”...
Renan.
Escrito por RENAN BARBOSA às 18h55
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CINEMÃO DE UMA MADRUGADA DE SEXTA-FEIRA
CENA 1
Fui, sozinho, à maratona de cinema do Espaço Unibanco. O evento é mensal, e todas as salas estavam lotadas. São três filmes, com início à meia-noite, lounge nos intervalos com dj e música eletrônica e café da manhã no final. Só vi os dois primeiros, incluindo o novíssimo “O retorno de Irma Vap” (meia boca, apenas visível). E saí, por voltas das 04 e meia da manhã. Como é perto de casa, vim caminhando.
CENA 2
Perto do meu prédio, vejo uma moça, de 30 e poucos anos, maltrapilha, empurrando um daqueles carrinhos-depósito de material reciclável. Sempre me pergunto do que essas pessoas estariam se purgando, para além da necessidade de subvivência, para se colocar nessa posição de “burros de carga”, arrastando essas pesadas carroças pelas ruas, ladeiras, trânsito da metrópole, como uma pena auto-infringida, um sofrimento masoquista, uma promessa que se pagasse com esforço descomunal e muito suor. Atrás da carroça, ajudando a empurrá-la, uma menina de não mais de 08 anos; dentro dela, mais três outros, menores ainda, entre pedaços de papelão. Todos acordados. Todos magros e mal vestidos. Fazia muito frio e era quase de manhã. Remeti-me à crônica de Waleska em seu blog, sobre os falcões do tráfico. Pensei que somos uns cínicos de deitar a cabeça tranqüilos no travesseiro, enquanto as nossas crianças passam por isso. Crianças expostas a situações de risco, violência, miséria, falta de carinho e cultura me deixam revoltado, é algo que não posso assistir placidamente... Mas fui pra casa, tomado apenas de indignação e culpa, em busca do descanso merecido.
Escrito por RENAN BARBOSA às 17h41
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CINEMÃO DE UMA MADRUGADA DE SEXTA-FEIRA
CENA 3
Alguém de um dos prédios vizinhos grita da janela, apavorado: “tem um incêndio ali, precisamos chamar os bombeiros”. Olho pela janela. A impressão que tenho é que o prédio vizinho ao meu está em chamas, na parte da frente, mas eu só vejo os fundos. Tudo quieto, ninguém gritando, mas chamas e fumaça crescendo rapidamente. Não chego a entrar em pânico. Mas preocupo-me. E entre a curiosidade e o temor, não sei o que fazer. Observo a cena por uma fresta da janela. Se houvesse uma explosão, estilhaços seriam inevitavelmente projetados nas minhas janelas, não me sinto seguro. Nada dos bombeiros. Ligo pra o 193, eles já estão a caminho. Ficar embaixo da cama seria exagerado e covarde. Saio, vou até o corredor da escada do prédio, onde me sinto mais protegido e as paredes são firmes. Muitos minutos depois ouço sirenes, espero que os bombeiros consigam debelar o incêndio sem maiores problemas. Fantasias são inevitáveis nessas situações. Ainda esta noite eu lera no blog de Santiago Nazarian, o meu escritor preferido do momento, do qual sou vizinho de prédio e com quem já troquei dois ou três e-mails (embora não o conheça pessoalmente), que ele andava lendo à luz de velas ultimamente, por não saber ou não querer trocar a lâmpada queimada do seu quarto. Vez ou outra ouvimos falar de incêndios provocados por velas acesas. “Será que...?” Não, não era possível... Mas em se tratando de um escritor gótico com tendências a eventos “crash” de si mesmo, tudo se pode esperar, inclusive acidentes desse tipo. E isso só aumentava minha angústia.
CENA 4
Rezo, espero, rezo. Meu prédio não aparenta estar em perigo. Rezo por Santiago e por quem estiver no imóvel em chamas. E torço pra que minhas fantasias não tenham correspondência com a realidade.
CENA 5
Armo-me de coragem e desço até a portaria do meu prédio (moro no 12º. andar). Lá, outros curiosos moradores, despertados pelo barulho, me informam que não é o prédio ao lado que está em chamas, mas uma casa em frente, sem moradores. Um deles diz saber o que aconteceu: havia sem-teto morando lá, catadores de papel. Foram convidados a se retirar e se retiraram, não sem antes atear fogo à casa. Nada comento sobre a família de catadores de papel que cruzava apressadamente nossa rua, minutos antes do fogo começar. Suspiro aliviado por saber que ninguém se feriu, e que não era o prédio do meu escritor favorito que estava incendiando. Os bombeiros finalizam seu trabalho. Claro, a TV estava lá, cobrindo a tragédia iminente...
CENA 6
Tudo isso terminou às seis da manhã. Pra quem esteve de plantão das sete da manhã às sete da noite e encarou uma madrugada de cinema depois, nada mal... Um dia intenso!!!
Cenas da vida real, pra espantar o tédio!
Renan.
Escrito por RENAN BARBOSA às 17h40
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RESUMO DO DIA
(Heitor Ferraz)
Nenhum recado de morte
que sempre abala
tanto a família.
O mundo perplexo parou
e a vida
oblíqua
preferiu continuar traindo
sem matar ninguém.
Sim, prometi que não ia mais ao cinema às segundas; há milhões de coisas por fazer, inclusive preparar currículo pra arranjar emprego novo no lugar de um que larguei. Senão, como vou pagar o cinema e a diarista e a prestação do computador e a conta do telefone e o provedor da internet? Como vou poder dançar vez em quando na VEGAS?
Mas resolvi ir ao Belas Artes somente pegar a programação, pra ir outro dia. Não previa, entretanto, que havia uma mostra “Visconti” acontecendo, e “Morte em Veneza” em cartaz apenas hoje. Mais um clássico que eu não vira. Temática interessante, li matéria que se reportava a ele recentemente (teria sido a propósito dos caubóis gays?)...
Um homem que morre de beleza. Nem sei se é isso. Mas foi fundamental ter visto. Vou precisar de muito pensar, leitura, reflexão e ajuda pra entender esse filme.
Que me reportou ao tema que navega comigo em minhas veias: a beleza. No dia em que eu conseguir falar, escrever, sobre tudo o que me acomete quando sou confrontado com a beleza, terei me curado, serei feliz, nada mais terá o poder de me abater. Algo que está dito, quase como eu o sinto, em “O retrato de Dorian Gray”, MAS QUE EU PRECISARIA DIZER COM AS MINHAS PALAVRAS, TRADUZIR, REVELAR...e não consigo, e talvez não consiga nunca. A beleza entristece, fere, machuca, é intangível, inatingível, incomestível, não se descreve, apenas se sente. E como dói sentir! Melhor ir dormir, senão vai sair um tosco tratado sobre a beleza e a dor... E o filme seria outro: “morte na bela vista” (com perdão do trocadilho)...
Renan
Escrito por RENAN BARBOSA às 21h46
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