O quereres


A IDADE DA LEITURA II

 

BEM, COMO EU IA DIZENDO, eu até aspiraria ser culto, lido, relido, translido, mas o que pensar de alguém que nunca leu Guimarães Rosa, que desconhece “Dom Quixote”, “A Divina Comédia”, “O Ser o e o Nada”, que nunca foi apresentado a “Ulisses”, nunca desbravou João Cabral, Caio Fernando Abreu, nenhum Rubem Alves, pouquíssimoS Rubem Braga, Manuel Bandeira, Poe, Sthendal, Eça de Queirós, nada de Oswald e Mário, nem todos os Shakespeare, raríssimas tragédias gregas. E a lista seria infinita...

Nisso a faculdade de Medicina tem uma parcela de colaboração: não havia como ler outra coisa que não seus tratados, e lá se foram seis anos sem abrir um único romance. Depois, residência médica, especializações várias, e o caminho da leitura ficando mais sinuoso, tortuoso, distante... Até que hoje em dia, entre um paciente e outro, saco do livro e arrisco uns minutos de leitura. Mas há tanta coisa esperando, tantos clássicos por conhecer, alguns autores novos para experimentar... Eu por mim me trancaria num bunker, com livros, cds, dvds e comida. E isso significaria a vida em toda a sua plenitude.

Não presto para o convívio humano e a arte me fascina em todas as suas manifestações. A arte me basta. OU quase. Que trabalho, filhos, amor, sexo e outras necessidades mundanas que nada! Amor e sexo vá lá, mas trabalhar???

Fora com os computadores! Ao invés deles, livros, música, museus. Nada na tela de um computador me atrai: não tenho paciência, não gosto de ler, ver, explorar nada na frente de um computador. Maldigo a necessidade que temos dele hoje em dia. E benditos sejam os livros! Mesmo para um ignorante como eu sempre há esperança de salvação. Ao menos resta um consolo: o caminho dos livros é inesgotável. E aos velhos, o caldo de batatas e a leitura! Hei de terminar meus dias em companhia deles!

Assim seja! E tenho dito!

Renan.



Escrito por RENAN BARBOSA às 09h14
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“A VIDA É UM PALCO”

 

Ontem, Valnei Andrade, amigo querido mas que vejo pouco, e que como eu migrou de Ribeirão Preto para Sampa, me enviou alguns arquivos interessantes, da época em que produzi o meu CD demo, que me suscitaram doces recordações. E também me enviou, de presente, o primeiro CD solo do meu amigo, parceiro, músico e compositor dos mais preferidos, Evandro Navarro, mineiro exilado em Ribeirão. Desnecessário relatar que a primeira música me fez chorar. E toda uma torrente de saudade, memórias, alegria por reencontrar a música e a poesia de Evandro jorrou.

Horas antes, ignorando que iria receber este presente tão especial, eu matutava exatamente sobre por que a música parecia sempre se distanciar, cada vez que eu tentava me reaproximar dela. E mais além: por que quanto mais eu tinha certeza de que cantar é o que me dá mais prazer, mais distante o mundo da música se afigurava dentro e fora de mim? E eis que recebo a música terna, acústica, simples, de Evandro, com quem dividi o palco tantas vezes em momentos verdadeiramente mágicos...

Hoje, enquanto curtia um dia de desemprego (leitores assíduos irão lembrar que larguei um dos meus trabalhos recentemente) num shopping (conselho de Wal: “curta o ócio sem culpa!”), encontro subitamente Khrysantho, amigo querido que também conheci em Ribeirão, também psiquiatra, mais louco que eu, contudo, e tomamos cafés e cafés o resto da tarde, dividindo nossas vidas, memórias do tempo de Ribeirão, planos, conquistas, falatórios da vida alheia, temores, dores, amores. E a promessa de reencontro, já que ele também dá as caras em Sampa, cidade que, desde que me mudei, tem me brindado com a mais franca ausência de vínculos e de pessoas desejosas de conhecimento e intimidade, como já seria de esperar, mas que é duro constatar!

Sim, estou sendo injusto: tem os meus coleguinhas do curso de teatro, com quem tenho dado risadas e vertido umas cervejas, mas somos de idades diferentes, leituras diferentes, eu sou um velho que muito pouco tem a aprender com os jovens porque hoje em dia eles têm muito pouco a ensinar. Tem uma outra amiga nova, um ou outro velho amigo. Generalizações... nem tudo está tão perdido e nem a aridez é tanta. Amores, então, quando irão chover na minha horta?

A verdade é que tem me dado mais tesão me dedicar ao meu curso de teatro, do que tentar voltar aos palcos como cantor. A vida é um palco, é verdade. Muitos amigos me aconselharam a descer dele e cair na real, quero dizer, na vida real, mas quem disse que acato conselhos? E por isso agora quero vivê-la exercitando o meu lado ator. Próximo passo: entrar na escola de circo! Não é pra virar palhaço, não, palhaço(a)! É só pra destravar o corpo e perder o medo das alturas, de pular na cama elástica dos sonhos e dar cambalhotas vida afora, equilibrado na corda bamba da poesia e das emoções desencontradas...

Até breve!

Renan



Escrito por RENAN BARBOSA às 19h27
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A IDADE DA LEITURA I

 

 

Meu amigo Ródio (é isso mesmo: o pai dele era farmacêutico e amava a tabela periódica!), que havia sequestrado meu exemplar de “A idade da razão”, de Sartre, embarcou-o recentemente junto com sua mudança de Sampa para Natal. Então, dei o livro como perdido e o caso por encerrado. Restou-me visitar um sebo, onde achei um exemplar novo (força de expressão! rs), pois sinto que é chegada a hora de reler este manjar da literatura. Adquiri ainda Lolita (Nabokov), que nunca li, e mais um de Sartre, “Sursis” (que compõe com “A idade...” e mais outro uma trilogia).

Não satisfeito, em incursão à Livraria Cultura, encontrei uma versão de “Grande sertão: veredas” para estudantes, preço mais acessível. Se eu, médico, classe média (baixa, é verdade) tenho que olhar bem o preço do livro que estou comprando, imagine nossos garis, empregados do comércio, estudantes de escolas públicas, universitários à base de minguada mesada etc. etc.

Evito comprar livros acima de 30 reais. Tal despesa não cabe no meu orçamento. Não sei se sou muito pobre ou se os livros são caros, ou os dois. Mas é triste colocar o exemplar de volta na prateleira por razões financeiras e guardar o desejo de ler para o porvir. Quanto aos sebos, ainda me são matéria estranha. Não os freqüento quase, tenho certo preconceito com aquele livro que veio de outra vida, outras mãos, outros olhares, outras estantes... O que terá presenciado aquele livro? Sim, os livros, os CDs, os bibelôs, são as grandes testemunhas do nosso cotidiano. E a vida do(s) leitor(es) anterior(es) não me interessa, nem me diz respeito. Parece que estou levando fantasmas para casa, eu que jamais acreditaria neles (só acredito em duentes!). Não tenho o mesmo temor de objetos antigos, mas com os livros... Afora os ácaros, o cheiro de mofo, as manchas, tudo que está impregnado nesses espécimes dos sebos e que para alguns constitui justamente o charme da coisa. Tenho que respeitar minha rinite, sinusite e a asma adquirida após mudar para São Paulo (males inevitáveis da idade, mas pergunto: quem vai querer ouvir um cantor asmático???)

Enfim, tenho livros suficientes para alguns dias de prazerosa leitura. Escolho o que vai ser lido pelo meu humor. Às vezes é preciso alterná-los, interromper esse ou aquele, até me sentir pronto. Há livros que caem na nossa vida na hora errada, é preciso aguardar e identificar o momento certo de reiniciar o contato. No meu caso, pra piorar, o Q.I. é baixo e a paciência pouca. Não tenho vergonha de confessar que “A morte Sem nome”, de S. Nazarian (o “nazarento”, como o apelidou Cassandra Véras) foi demais pra mim, me abalou todos os neurônios da inteligência e do sentimento, e tive que dar um tempo pra tomar um fôlego de vida...

Bem, na verdade este texto era pra falar sobre os livros que ainda não li, e que já estão tardando, mas como o blog vai recusar o texto por “excesso de caracteres”, vou dividir em capítulos...

Renan

 

 

 



Escrito por RENAN BARBOSA às 18h38
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