O quereres


Um mês distante do blog. Nesse período, algumas decisões tomadas: sair do meu trabalho num ambulatório do HC , espantar a preguiça e procurar trabalho novo (já conseguido, mais um , que médico nunca vive de um emprego só). Tempo se esgotando no teatro: a peça de estréia do nosso grupo  (curso livre) é no dia 27 de junho.

Período também no qual andei cometendo algumas burradas nos relacionamentos interpessoais, deixando um lado forte, hostil, aparecer muito intensamente. Resultado: pessoas magoadas, reparações a fazer (feitas, algumas!), acontecimentos em cadeia quase resultando em pequenos desastres. A gente pensa que amadureceu, e descobre lados que melhor estariam sepultados, ocultos, silenciosos.  Mas enfim, eis-me aqui: sobrevivido! Talvez mais amarelecido do que amadurecido...

Agora novo dilema se apresenta: investir mais no teatro, a partir do segundo semestre, ou retornar à música, de onde talvez nunca devesse ter saído?  E prover a sobrevivência como psiquiatra, que a maré não tá pra peixe... Coisa difícil, nessa cidade-ilusão, onde achamos que tudo é de primeiro mundo e damos com a cara no subdesenvolvimento! Cercado de incompetências, sinto-me ilhado,  tentando fazer direito o meu trabalho em meio a tantos desinteresses! Os sonhos vão se distanciando, a esperança ficando cinza, obtusa, longínqua...

As pessoas me perguntam como aguento estar sozinho, viver sozinho. É possível ser e estar de outro modo vivendo em São Paulo?  Diluo-me no anonimato e isso me é gratificante.  As ruas me atravessam, as calçadas me absorvem, as buzinas me devolvem ao esquecimento. Os prazeres ficam mais distantes: nem mesmo o teatro dá o alento necessário, a voz vai se retraindo, não quer se fazer melodia, eco, emoção. As pessoas não me parecem mais do que espectros de beleza a serem fugazmente contemplados. E como espectros, têm existência curta. Procuro o desejo à luz do dia empunhando uma lamparina.

Na cabeça, os últimos fios se vão com a memória. Desisti de tentar lembrar: tornei-me um inimigo involuntário da agenda.  Não me cobrem compromissos, lembranças, cumprimentos, atenção às datas e eventos. Tudo se foi, como folhas varridas pelo outono. A alma não é nem frio nem  prontidão.  Aqueço-me com a  crua ironia do cotidiano.

O prazer das descobertas se esvai com a juventude. Não há quase nada mais para ser buscado. Acusar-me-ão de exagero, drama, sensacionalismo no melhor estilo barroco.  Minha alma romântica não quer mais se apaixonar por idéias, pessoas, projetos. Ou é isso que deseja mais ardentemente do que nunca?

Escrevo capítulos tardios de uma existência errática e em descompasso com o ritmo comum.

Meu tempo é senão...

 

                                        Renan



Escrito por RENAN BARBOSA às 17h09
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