O quereres


PROPOSITAL  (TEMA PARA UM JAZZ)

Renan Barbosa

 

Se me insinuo assim

Com este olhar

Que quer

Você pra mim

E me coloco

Entre os seus dedos

Descubro os seus medos

Viajo em seus labirintos

E sorrio oblíquo

(Capitu ou Monalisa?)

Você desliza

E escorre

E treme e chora

E geme e fraqueja

E teme e acredita

Sem saber

Que eu sou assim

Proposital

Mas faço parecer

Que é tudo natural

Guardo todos os

projetos

Na gaveta do desejo

Cada frase e cada

Gesto

Vira trama sexual

E me sinto

Sempre mais

Proposital

Cada vez que eu

te vejo...



Escrito por RENAN BARBOSA às 15h38
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A VIDA JÁ FOI MAIS (TEMA PARA UM SAMBA)

Renan Barbosa

 

A VIDA JÁ FOI

MAIS GENEROSA

COMIGO

ME DEU MEUS AMIGOS

ME FEZ SENTIR SENHOR

ME DEU VOZ DE CANTOR

E ALMA DE POETA

MAS TUDO SE FOI

QUASE TUDO PERDI

E EU PERGUNTO:

QUEM SOU?

E PRA ONDE QUE VOU

SE EU NEM SEI

ANDAR DE BICICLETA

EU SEMPRE SEGUI

PELA VIDA SEM MEDO

SEM NENHUM DESATINO

ME FIZ DONO E SENHOR

EU JURO NÃO SEI

QUAIS OS ERROS

QUE EU FIZ

EU SÓ QUIS SER FELIZ

ENQUANTO TENTAVA

ESPANTAR A DOR

EU SOZINHO COMIGO

JÁ NEM SEI DO DESTINO

JÁ NEM SEI DIREÇÃO

A VIDA JÁ FOI MAIS...

QUASE QUE EU DESAFINO

POR CHORAR NO MEIO

DESSA CANÇÃO

TENHO O SONHO NO PÉ

E O SAMBA NA MÃO



Escrito por RENAN BARBOSA às 15h27
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O MUNDO NÃO É CHATO

“O mundo não é chato”. Chato é Caetano Veloso. Difícil admitir, mas é fato sabido e incontestável: meu artista preferido é um chato. O mundo é entediante, bizarro, estranho, violento, mas nem sempre chato. Isso vale para a vida, as pessoas. E para os finais de semana.

 Chato também é meu  (ex?) escritor preferido (do momento), Santiago Nazarian, no seu blog. Do blog, desisti. Cansei de todo aquele didatismo: lista de livros bizarros, lista de músicas para ouvir e se matar em seguida, lista de filmes cruentos, lista de lápides para visitar na sexta-feira. O que ele pretenderia: nos transformar em cópias suas, lendo e  ouvindo as mesmas coisas, tudo bizarro, excêntrico e sangrento? É formado em publicidade: mestre na arte do marketing de si mesmo! Retomei,  entretanto, mais uma vez, a leitura de “A morte sem nome”, que afinal Santiago é melhor nos livros que no blog. Mas foi péssima idéia levar esse livro para o plantão (entre uma agitação psicomotora e outra), onde já vivo um  espetáculo de loucura e sangue.  “A morte” me adoece, me dá náuseas, é impressionante como um livro pode fazer tanto mal. Mas preciso terminar de lê-lo. Não sou assim tão fraco. Só que talvez tenha que escolher horário, locais, apropriados, e o plantão não é a melhor opção. Com certeza. Só acredito na arte que incomoda, que dói, que causa reflexão, náusea, no sentido mais existencialista do termo. Mas “A morte” causa aquela náusea de hospital, de quando presenciamos corpos despedaçados, aflição, urgência, vida se esvaindo sem como ou porquê. Ainda assim, é impressionante como um homem pode ter se colocado dentro do universo feminino, com todo um tratado oculto de psicanálise nas entrelinhas, para assumir a identidade de uma personagem.  Em nenhum momento duvidamos de que quem escreve aquela história é a narradora-personagem-mulher.  Algo digno de grandes mestres como Chico Buarque e Caetano.  Assim, espero ter forças para terminar o livro, e o recomendo. Mas precisa ter estômago forte. E uma boa dose de coragem, paciência, inteligência (coisas nas quais sou um pouco deficiente... rs.)

Descobri, estupefato, que Cassandra Véras desativou o celacantho, blog que ela criou para escrever para mim/sobre mim, e cujo link, que estava aqui ao lado, fui obrigado então a retirar. Ficou o vazio. De Cassandra pode-se esperar tudo, sem mágoas ou perdões. Ela nos arremessa ao amor, à cólera e ao esquecimento com a mesma velocidade com que nos presenteia com poemas, verdades, beleza, ironias refinadas, desprezos, declarações de afeto.  Então, não pude me sentir ferido. É o jeito de amar de Cassandra.  E já sou feliz por ter sido eleito...

Nem sei do que pretendia falar nesse texto. Mas é melhor assim: tão difícil experimentar um pouco de espontaneidade, eu que sou avesso aos improvisos e a tudo que não estava marcado no calendário...

É sábado.  Acordei tarde, depois de um retorno básico à Vegas, meu clube favorito para dançar à noite (eu que odeio música eletrônica e não sei dançar nem forró).  Mil planos para tornar o final de semana produtivo. Mas, o tempo corre sempre mais veloz que eu... Para onde atirará o revólver do meu sonho?

O mundo não é chato. Chato é não ter tv a cabo e nem uma cozinheira de plantão. Cansei dos fast food dos shoppings... “Quando me lembro de Campina Grande, peço notícias e vc mande”: carne de sol e de bode, xerém, galinha de capoeira, cuscuz com leite, tapioca, bolo pé-de-moleque, inhame, pão doce, munguzá, cabeça-de-galo....

Acho que estou ficando nostálgico. Então, até mais!

Renan.



Escrito por RENAN BARBOSA às 15h08
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A FORÇA DAS COISAS OU: A OUTRA VOZ

 

"é incrivel a força que as coisas parecem ter, quando elas têm de acontecer"...

A força das coisas, a força dos dias parece enfraquecida. Não basta querer, não basta buscar. O que falta?

A peça do meu grupo iniciante de teatro foi um sucesso, levando-se em conta o amdorismo e o pouco tempo de ensaio. Todos se saíram bem. Foi muito bom atuar, manter a concentração desde o início, com o pequeno teatro lotado, as pessoas passando muito perto e comentando: "Nossa, é Renan? O que ele está lendo?" (meu personagem já estava em cena antes do espetáculo começar, lendo Ana Karenina compenetradamente), o nervosismo próprio da ocasião, o medo de esquecer o texto, o frio que fazia nos bastidores. Mas tudo fluiu... como deveria ser.Gosto de quero mais. Medo de querer mais.

O trabalho novo, num convênio "psi", vai bem, é cansativo, um grande número de atendimentos por hora, mas fazer o quê? "Come com o suor do teu rosto", está escrito! (os deuses deviam estar loucos...)

O plantão no Mandaqui continua um circo de horrores, capaz de minar minha energia vital, uma sucessão de pequenas calmarias seguidas por tempestades e tormentas, eu vítima e bode expiatório purgando a burrice e a safadeza alheias. Triste de quem nasceu para funcionário público! E viva o SUS! (rir pra não chorar)

Falta grana para continuar o teatro no segundo semestre. Mas por que continuar o teatro se quero voltar a cantar? Eis a questão...

E como tenho me impressionado com a frieza dos paulistanos, a secura, a quase incapacidade de criar vínculos, o desinteresse pelo outro, a sacanagem sempre embutida, os conluios. E frequento esta cidade há mais de 20 anos, já morei aqui antes, mas tive que admitir: eu ainda não conhecia São Paulo. E eu, cada vez mais recluso, chego a me parecer com um deles. Mantenham distância!

Algum fiel leitor perguntará: mas ele está de novo a "moer" os velhos e decantados temas? Não era disso que escrevia ainda no texto anterior?

Pois é o que me assusta: onde os imprevistos (bons!), a força do desejo fazendo as coisas acontecerem, o prazer de conhecer novas pessoas, de buscar o outro com avidez e ser também buscado? Como por fim aos ciclos que se repetem, e repetem, e repetem... e entediam, e entirstecem e desiludem?

Há uma outra voz à minha procura???? rs... Não creio.

A outra voz, por acaso, é o título de uma letra que fiz há duzentos anos e que todos, absolutamente todos, os compositores amigos me enrolaram sem colocar a melodia que faltava. Pois cansado de esperar, fí-la eu mesmo (isso está certo??? graças a deus não sei nenhuma regra de gramática). "A outra voz", que retrata os meus encontros musicais com Evandro Navarro, um dos meus compositores preferidos, fala do que acontece quando dois se juntam para criar algo que não é nem um nem outro, mas uma terceira coisa, um filho, uma maçã, algo que os ultrapassa e se afigura maior do que a dupla que a originou, e que ao mesmo tempo é a entrega, ceder para que o outro brilhe, trocar, encantar pelo que se deu ao outro e não pelo que se exibiu de si mesmo. Pois não era isso que Evandro proporcionava quando abria mão de sua carreira solo para apenas me acompanhar ao violão nos meus shows, ele que é completo (voz, violão, composição, talento!) e que não precisaria de mim para nada? Mas ele vinha, e tocava, e cantava também, e parece que nascia uma terceira voz a partir dos nossos duetos. E as pessoas comentavam de como ficávamos bem, juntos no palco, afins, irmãos, construindo beleza e emoção. A poesia do encontro.

Pois esta foi a primeira vez em que eu mesmo fui responsável por letra e melodia de uma música. Palmas para mim!!!!! Mario Martinez, tornado-se paulistano, bem que tentou arranjá-la, mas ela se recusava, não acontecia. Não por falta de empenho e talento dele. É que ela é teimosa mesmo! Mas os deuses me mandaram Rogerio Rochlitz, tecladista de primeira, acostumado a tocar com monstros sagrados da MPB e ela se apegou a ele, que fez um arranjo de piano lindo. Sugeri a Rogerio que tirássemos a voz e deixássemos só o piano. Ele riu, depois disse que eu lembrava Geraldinho, depois Chico (e eu: "quem aprendeu a cantar ouvindo Simone e Chico só poderia dar num desafino"; só não digam que eu lembro Belchior, ou não viverão para repetir tal disparate). Eu acho que não lembro ninguém: queria era ter a voz de Caetano ou a de Zé Renato, ou uma parecença com a de Nana ou Bethânia, mas os deuses não sopram no mesmo lugar duas vezes.

Por causa de questões do estúdio, acabei cantando meio apressado, fugindo do andamento do piano. Por questões de edição, um dos trechos foi repetido uma vez a mais do que deveria, mas a pobre tá pelo menos parida. Depois a gente cuida mais, dá banho, troca fralda, põe talco, beija e dá carinho e canta pra ela dormir. Aí quem sabe ela cresce e fica "taluda" (este termo vai em homenagem a Wal, Paulo Dantas, Vick e "Albebé"). Se alguém quiser escutar a canção, a filha caçula, tá aí, no trama virtual, link ao lado.

Quem for mais ardiloso perceberá que mais uma vez tentei burlar a minha falta mesma de assunto com historinhas auto-umbigais, pendendo tanto para "Espiral Sentinela" como pra muriçoca que volta pra azucrinar com sua agudeza de soprano. O veneno e a cura, juntos, exalando a mesma falta de frescor.

Ouço no momento Renato Braz, versão masculina de Mônica Salmaso, mas não apaixonante como ela. Mas que beleza de voz  e de afinação! Quem sabe não me contamino com tanta técnica e melhoro como cantor? Como pessoa talvez já seja um caso perdido...

Ainda volto aqui com um texto, um causo, uma história, totalmente original! Prometo!

Enquanto isso, procuro a outra voz e vou indo sem ir...

 FUI!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

beijos, R.



Escrito por RENAN BARBOSA às 18h15
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