IDADE DA RAZÃO
O homem se vê diante das suas escolhas, todas: as que fez, as que aspira, as que não fará, e nunca terá a certeza de ter escolhido certo. Óbvio: quando se é livre, quando se tenta ser livre, como é difícil não poder fazer alegações, acusações, projeções. Porque não é o outro o responsável por nossos caminhos. Nem o destino, nem o acaso ou as coincidências. E sobra o peso de arcar com as responsabilidades do que se é. Do que se fez. Do que se quis.
Parabéns aos que se sabem minimamente. Aos que traçaram um caminho e nele seguem com determinação, certeza, gozos. Pertenço ao rol dos que não sabem decidir, não conseguem, não têm certeza nunca e muito menos se sentem jamais satisfeitos. E cada dia acordar é um peso, encarar o cotidiano uma batalha fatigante e enfastiante. Fui eu que tracei sempre meus caminhos com uma independência solitária e dura, solene, áspera, mas talvez desejasse reescrever tudo, tornar-me mais leve, mais ao sabor das ocasiões, menos determinado num certo sentido, embora seja um escravo da dúvida. Mas há o tempo. Insaciável. Infatigável. Imortal. E ele nos consome os sonhos, as esperanças, a juventude. Ele nos lembra de que quanto mais passa, mais nos tornamos responsáveis por nossas próprias escolhas. E há o peso delas, a realidade e suas contradições, os mitos e os desejos que se querem desvendar. A vida não cabe num filme, nem numa canção, nem na poesia. E assim não há alento possível. A arte não me salvou. A arte não me sobrevive. Não me alimenta mais.
Mais uma vez estou lendo Sartre, o mesmo livro que precisa ser revisitado a intervalos irregulares de anos. E como a memória é curta, e já sou bem outro, não me lembro do antes, do que foi significado, do que fui lido. E de novo uma experiência dolorosa me atravessa, me abre ao meio, me rasga em pedaços confusos impossíveis de ser colados. Mas a literatura não salva ninguém. As cartas, que já nem escrevemos, não salvam ninguém , a amizade, apesar de essencial como o sangue, ficou obtusa e preguiçosa. A leitura causa dor. Mas não a inventa. A dor já estava lá. Precisava apenas de um veículo, de um trajeto possível, de um interlocutor.
Viver é dor. Exige força e coragem. Perseverança. Otimismo. Talento. Parabéns aos que conseguiram. Aos que se aliviam da dor com dignidade. Não morrendo, não se matando, não, ao contrário: vivendo! Sendo maiores que a dor cotidiana mesma.
Dilemas muito adolescentes? “O homem velho deixa vida e morte para trás. Cabeça a prumo segue rumo e nunca, nunca mais”... (versos de Caetano Veloso). Eis a grande contradição: nascer velho e nunca deixar de ser, sentir, viver, existir, como um adolescente. Haverá salvação? Além de deixar-se viver?
Renan
Escrito por RENAN BARBOSA às 19h17
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