O quereres


                                          GUARDAR

 

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.

Em cofre não se guarda coisa alguma.

Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por

Admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por

Ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,

Isto é , estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro

Do que um pássaro sem vôos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,

Por isso se declara e declama um poema:

Para guardá-lo:

Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:

Guarde o que quer que guarda um poema:

Por isso o lance do poema:

Por guardar-se o que se quer guardar.

 

Antonio Cícero

 



Escrito por RENAN BARBOSA às 20h26
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o que se guarda?

                                     

 Leio na internet que um carteiro, na Itália, guardou por alguns meses 2 toneladas de cartas, sem entregá-las. Cuidadosamente organizadas em caixas na sua casa.  Uma expressão do que na Psiquiatria chamamos “transtorno obsessivo-compulsivo”? Ou um caso grave de preguiça? Que razões teria para guardar milhares de cartas alheias?

Que razões terá tido o outro desviante da norma, a bola da vez na mídia,  o sequestrador que guardou sua refém por tantos anos, roubando-lhe a adolescência e que um dia “distraiu-se” e deixou-a escapar?

A propósito do carteiro, lembrei-me do poema acima, que Marina Lima recita num de seus discos mas que leio sempre na coletânea "Esses poetas", organizada por Heloísa Buarque de Hollanda. A propósito do carteiro, lembrei-me de um caso que atendi, do qual  modificarei alguns dados, preservando a identidade do paciente mas mantendo a essência do fato. Num ambulatório do SUS aqui em São Paulo, me chega um senhor de quase 70 anos, acompanhado do sobrinho.  Negava queixas. O sobrinho, reticente e constrangido, argumentou que ele tinha mania de guardar coisas, mas fora isso tudo estava bem.  Na avaliação que me cabe fazer, apesar do discurso do paciente nesta ou naquela direção, nada detectei de delirante ou patológico.  Pareceu-me um caso mal encaminhado.  Agendei um retorno, de qualquer forma, para continuar colhendo mais dados e evitar conclusões equivocadas.  Ao sair  do atendimento, os funcionários do serviço me abordaram, perguntando-me como fora conhecer o senhor que ocupara a mídia naquela semana. E o enigma me foi revelado, embora um pouco tardiamente: os vizinhos não aguentavam mais a fedentina, além dos insetos e ratos que infestavam a casa e arredores, e solicitaram intervenção oficial. Polícia, bombeiros, SAMU e todos os aparatos necessários, mais imprensa, presentes à rua humilde de um bairro humilde, fizeram uma descoberta surpreendente: dentro da casa havia lixo acumulado que encheu 15 caminhões. Senti-me logrado pelo paciente, pela equipe, que não me comunicara aqueles fatos antes e fiquei a me perguntar: por que tanto apego ao lixo, por que transformá-lo em companhia dentro de casa, por que tanta necesssidade de guardar? O que ele guardava, afinal? O que se guarda?  Qual é o lance de certos poemas, nem sempre belos, nem sempre compostos de palavras graciosas?  A vida não precisa ser inventada. Toda a literatura já está escrita nela.

Renan.

 



Escrito por RENAN BARBOSA às 20h25
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O TEMPO QUE RESTA

 

“O QUE VOCÊ FARIA SE SÓ LHE RESTASSE ESSE DIA?”

 

Para o personagem do filme “O tempo que resta” resta mais do que um dia. Ele descobre, aos 30 anos, que está com câncer generalizado e terá em torno de três meses de vida. E aí, decide mudar algumas coisas, rever outras, poupar os familiares e o namorado da notícia, deixar o trabalho. Ele não faz grandes exames de consciência nem se trata com auto-comiseração.  E até se permite, não sem alguma relutância, se entregar a um ímpeto de continuidade.  Li uma crítica tão adequada ao filme que qualquer palavra minha a respeito estragaria  a ambos (crítica e filme), mesmo para quem nunca chegar a vê-los. O que fica, o que me inquieta, é a pergunta: o que muda se sabemos que estamos com “os dias contados?” Não, contados só tenho os anos recém-completados em agosto,  não estou por um fio, pelo menos não imagino que esteja (como a maioria, desconheço o calendário de Deus e os seus planos para comigo).  A questão me inquieta desde sempre. Porque não vejo dignidade, nem coragem, nem motivo para se tratar como exemplo as pessoas que precisam sofrer experiências-limite para valorizar a vida, re(descobrí-la) ou fazer mudanças radicais em seu estilo de vida, relacionamentos etc.  Para mim, o heroísmo está em extrair prazer e verdade da vida enquanto não se foi acometido por um câncer, atravessado por perdas avassaladoras, tragédias, guerras.  Será que estou sendo claro? Por que a necessidade de tangenciar a morte para se descobrir vivo?  Penso que eu renunciaria à batalha vã da sobrevivência, como faz o personagem do filme, um fotógrafo bem-sucedido, egoísta, arrogante e que ao longo do tempo se distanciou da família. Ele apenas se prepara para morrer, sem heroísmos ou ações edificantes. Não estamos condenados a morrer desde o dia do nascimento, como nos lembram alguns poetas? Nada de comer folhas e gafanhotos, carne humana ou o que quer que seja, se o avião cai no deserto. Nada  de cirurgias infinitas, medicações de efeitos colaterais devastadores, meses de internação e espera, para provar (a quem?) que se venceu uma batalha contra o câncer. Também não se trata de entregar os pontos ao que pode ser remediado, curado, extirpado. Sejamos sensatos: se não acreditasse na Medicina não a estaria exercendo. Também não se trata de ausência de fé.  Refiro-me às situações extremas mesmo.  Daquelas que vão exigir que o indivíduo se humilhe perante a doença, ou a catástrofe, até o mais fundo que possa chegar.  E no final, descobrir-se revigorado,  com outro olhar e outra atitude para com a vida, para com o outro, bondade, alegria de viver e “paz interior” restauradas. Mas a que preço? Pois quero é viver em paz administrando as angústias cotidianas, não ter motivos para arrependimentos, despedidas ou reencontros sentimentais, revisões panorâmicas de vida, ações edificantes, se o infortúnio bater à minha porta.  É do sofrimento miúdo, mastigado e digerido no dia-a-dia, que penso que extraímos as maiores lições. Pertenço à raça da pedra dura. Mas não me furtei às lágrimas que o filme me provocou, embora a película jamais resvale para o clichê ou o pieguismo (o filme, mas eu vivo caindo nessas armadilhas: sou vulnerável e piegas, no fim das contas, só para fazer jus ao meu lado barroco).  O que quero dizer,  resumindo, é que o grande desafio da vida, pra mim, é extrair algum prazer do cotidiano enquanto se está vivo, e não ameaçado por alguma sentença súbita de morte. E se a sentença ainda assim desabar sobre nossos frágeis pescoços, que não sejamos guilhotinados por auto-piedade e culpa. Nada de testemunhos e testamentos. O meu já estava escrito, de certo modo, desde a infância. Para quem alimentou a crença de que só duraria até os 16 anos e tratou de deixar toda a vida até então documentada em textos, cartas, objetos propositalmente conservados, por ingenuamente acreditar-se destinado à fama, até que tenho vivido bastante. E agora já não me atribuo nenhum prazo de validade, não tenho pretensões de rever a minha “obra” e nem aspiro à imortalidade, seja esta de que maneira for (um livro, uma árvore, um filho – não os plantarei!). O que está feito está feito. Acho simpático viver até os 60 anos. Chegada a idade da razão, acabam-se as motivações para as descobertas. E já estou nela há algum tempo.

Até breve!

Renan



Escrito por RENAN BARBOSA às 18h59
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