Esboço de um conto: Suco de tomate
Ao espelho, já nem se sabia. Ele era um todo de rugas e dentes amarelados e covas e olheiras. Revigorado pelo suco de tomate, temperado, que a diarista preparara. Mas sem saber o que fazer, como ir em direção ao cotidiano. Trabalhar, ler jornal, beijar a mulher, responder memorandos, acessar a internet. Almoços intermináveis. Cenas clichês, que o entediavam. Nem encontrava frases originais para descrever sua existência. Mas o que havia para ser descrito? A barriga teimava em se mostrar mais que seus outros atributos. A angústia trouxera-lhe um discreto tremor, contínuo, ou seria uma onipresente abstinência do álcool, que vertia nos finais de noite, nas madrugadas em que a insônia vinha lhe socorrer? Olhou os pés descalços. Calejados, maltratados, como que lembrados das dores todas já vividas, dos caminhos desperdiçados. As mãos não escreveriam nenhum novo capítulo. E no peito, além dos fios brancos, aquele peso, aquela memória que o visitava sempre. Mais que memória, uma marca, uma segunda pele, cheia de sulcos, fissuras, supurando dores e inquietações. Nem adiantava deixar cair o suco sobre o jornal, a camisa, o copo se estilhaçando sobre o tapete... Nem adiantava ligar a TV e ver notícias recém-acordadas ou mal-dormidas trajando-se de aurora às custas de dissimulações e maquiagem. A dor não se maquia. A solidão acorda sempre sozinha. O que o espelho lhe mostrava que ele não queria admitir? O que admitia e era tão difícil de ver refletido no espelho?
Renan
Escrito por RENAN BARBOSA às 20h50
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