A MÃO E AS MÃOS
Não gosto de apertar a mão das pessoas. A minha está sempre suada. A dos outros não me interessa, não é um contato desejado. Apertos de mão são constrangidos: há os que oferecem apenas a ponta dos dedos, e afastam a mão abruptamente. Há os que quase quebram nossos ossos, deixando uma marca, uma dor que perdura como que para nos rememorar da força do interlocutor, ou da sua fraqueza disfarçada. Há os que colocam a mão em concha, num aperto que nada significa porque nos põe em contato com o oco, o vazio. Há os que não se desprendem, que demoram, como a nos querer intimidar ou sugerir malícias recônditas. Há os que apenas nos tocam, palma a palma, mas com suavidade exagerada para não “fisicalizar” o contato. Há poucos que são sinceros, que não fogem ao contato, que nos oferecem calor e aproximação na medida exata. E há aquelas mãos que há pouco assoaram o nariz, comeram o biscoito de polvilho, estão igualmente suadas ou não sofreram nenhuma higienização por muitos dias (não esqueçam: trabalho na rede pública).
E que serventia tem apertar a mão de um estranho? Uma formalidade dispensável, no meu “modo de vista”. Eu pensava, antes, que tinha um aperto de mão caloroso, honesto, até o dia em que um holandês, também como eu um estudioso “informal” dos apertos de mão alheios, comentou com uma terceira pessoa que o meu cumprimento carecia de firmeza e personalidade. Como é difícil ver um tal mito ruir, e beber do próprio veneno... Mas talvez eu me esquive a um contato sincero e firme para não estender as mãos suadas (principalmente se tenho que ser apresentado a um desconhecido ou a alguém que me intimide por algum motivo), consequência da timidez exagerada, da ansiedade cotidiana e constante, que inutilizam o meu gesto.
Não gosto que me toquem. Em nenhum sentido. Não compartilho a linguagem do corpo. Paradoxalmente, ao mesmo tempo vivo a observar cada detalhe de todas as pessoas: o olhar, as mãos, as rugas, as orelhas, os vincos da pele, as unhas, os sapatos, as meias, os dentes e o sorriso, os tiques, o cotovelo, o cabelo... Nada me escapa. E cada detalhe terá uma história, uma hipótese, um significado, um interesse. Revelações que o outro me faz sem saber, sem pressentir. Sou definitivamente um escravo do olhar.
Mas voltemos às mãos: uma pessoa pode perder todo o interesse para mim se suas mãos contradizem sua beleza ou sua personalidade. Se a falta de cuidado deixou-as envelhecidas precocemente. Se as unhas estão roídas, ou sujas. Não confio em pessoas de mãos pequenas. Explico: pessoas cujas mãos são menores do que o todo, destoando claramente do resto do corpo. É como se nos contassem que naquela personalidade há algo de incompleto, que não se desenvolveu, que é menor, por mais que se queira exagerar nos atributos. Usualmente são pessoas corteses, sorridentes, aparentemente muito decentes e sóbrias e é justamente por isso que me inspiram desconfiança. Mãos pequenas demais para escrever uma história completa. O mesmo vale para mãos imensas num corpo pequeno... Bem sei do risco dos rótulos, matriz dos preconceitos e dos grandes equívocos, mas o que posso fazer?
Atormenta-me, no momento, um problema banal e sério ao mesmo tempo. Habituei-me a pegar nos lápis e canetas de um modo totalmente diferente do comum, e nunca me dei conta disso. Até as pessoas perceberem, mas aí já era tarde demais. Culpam as minhas professoras do primário por não terem notado essa peculiaridade. Eu nem sabia que há um modo único de segurar o lápis. Nunca percebi que era diferente neste aspecto. Só que hoje, vivenciando a terceira idade (ou seja, no rol dos que têm mais de 30 anos), sou acometido de dores teríveis na rotina diária de médico, anotando prontuários e prescrevendo medicações. Às vezes tenho que interromper as anotações para que as dores passem. Teria que reaprender a escrever, pois experimentei segurar a a caneta de outro modo e percebi que seria menos lesivo. Mas não é tarefa fácil. Percebem o significado simbólico disso? É quase como trocar de casca, reescrever-se, aprender a ser outro. Não é impossível, mas como é difícil...Minhas mãos são o meu maior patrimônio, ao lado do meu olhar. E não concebo vê-los adoecidos, inertes, defeituosos, incapacitados em suas funções vitais para mim.
E por que todo este assunto me veio à baila? Porque acabo de assistir o péssimo filme “O maior amor do mundo”, de Cacá Diegues, e de ler as críticas a respeito, e nele o personagem principal, que chega do estrangeiro, limpa as mãos com álcool gel, ao perambular por favelas e lugares comuns do nosso cenário. Numa das entrevistas publicadas na net, o repórter chama a atenção para essa característica do personagem e pergunta por que José Wilker foi escolhido para o papel (ora, o que tem a ver a mania de limpeza do personagem e o ator escolhido para interpretá-lo?). As críticas que li são tão superficiais e ruins como o filme. E por associação livre, um tema me levou ao outro. Tenho que confessar que também carrego um tubinho de álcool gel específico para mãos, isso porque nos hospitais do SUS nem sempre há pias, sabão e tolhas de papel disponíveis, e não podemos ser disseminadores da infeccção hospitalar (digamos que esta é uma explicação politicamente correta). Nem por isso fui escolhido para fazer um filme, gravar um CD ou escrever um livro....
Escrito por RENAN BARBOSA às 10h36
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