Era uma vez um artista. Seu nome: Luiz Barroso. Uma alma nobre, uma pessoa singular, dotada de poderosíssimo talento. E eu o conheci, e de longe admirava seu trabalho. Ele estava na pláteia do meu primeiro show, Angular, realizado num projeto do Departamento de Artes da Univ. Federal de Campina Grande. E eu fui a um de seus vernissages, e graças ao patrocínio materno pude levar uma de suas obras comigo. E desde então somos amigos, silenciosos, daqueles que não precisam se ver ou falar com frequência para manter o vínculo vivo. E ele um dia foi chamado para trabalhar na França, numa mistura de arte e projeto social. E desde então vive em Marseille. E recentemente, graças às facilidades da internet, nos reencontramos. E em dezembro próximo terei a hontra de hospedá-lo por dois dias, e com certeza nos veremos nas férias que passaremos, na mesma época, na Paraíba natal. Seu quadro, da fase “itacoatiara”, está na parede do meu quarto, e sempre causou grande espanto de beleza. E há muito tempo (ou teria sido ontem mesmo?) escrevi um poema dedicado a ele, que não fala exatamente dele, mas não deixa de fazê-lo, e nem lembro, passados tantos anos, se enviei à Barroso, ou se ele o guardou, mas aí está.
DOMINGO (SÍNTESE II)
Espelho de emoções
em embates roucos
que de tão loucos
foram trancados
em algum porão
de distante navio
sem prumo num
mar que é
cúmplice e carrasco.
Longas crinas de onde se harpeja
doce música,
embalando os sonhos
guardados numa
antiga caixa de bombons.
Olhos metafóricos
que sussurram
verdades incontidas
e resplandecem
com encanto e a
cor roubada
das folhas dos gerânios.
Escrito por RENAN BARBOSA às 13h36
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DOMINGO (continuação)
Ambição de ser
intento de
descobrir-se humano
e ao mesmo tempo
revelar as mágicas
e cruas verdades
do artista
que habita em veios tortuosos
e cava valas solitárias
em si mesmo.
Pulsos e pulsares
postos em altares
de deuses inconformados
e disformes,
oferecendo-se por
inteiro aos desígnios
e à sabedoria
imersa nas cavernas
insondáveis das
almas destemperadas
E ocultas dos abismos.
Renan
Escrito por RENAN BARBOSA às 13h35
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Como não dato os meus poemas, tanto faz se foram escritos há 15 anos ou 15 dias. Aliás, este pode ter sido escrito há 15 minutos. rs...
A FORÇA DOS DIAS
Eu que nem sabia da força dos dias segui caminhando à procura da agência dos correios eu me desfiz em brumas bem antes que o sol nascesse quis me sentir gélido e agredir as vidraças deixando-as opacas com a minha vaporosa presença cruzando viadutos indagando os transeuntes mas numa cidade tão grande nem as pessoas mesmas sabem indicar o caminho da agência postal tornei-me quase brisa e a luminosidade aos poucos invadiu meus percursos eu queria me endereçar sair correr o mundo mas não conseguia me guiar por entre aqueles calçadões eu era só um sopro invisível aos poucos fui me abstraindo enquanto o calor me escaldava as carnes eu estava só aragem morna e já sem forças mas precisava de um destino de seguir uma qualquer direção as pessoas perderam os rostos e os olhos enucleados refletiam mudo terror as mãos eram cinzentas meu último ato foi me transportar (alheio, louco, ofegante) até àquela folha de jornal que seguiria atônita subindo e pairando acima de todos os desígnios e prestes a debater-se/desfazer-se frente a frente com tantos e indiferentes obstáculos
Renan
Escrito por RENAN BARBOSA às 23h08
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Há 18 anos eu iniciava minha carreira musical num festival de música em Campina Grande, com uma composição minha, musicada pelos talentosos Clemilson Dantas e Neander Cortez. Nascia “Destino”, que ganhou troféu de melhor letra. No ano seguinte cantei num coro cênico, o “Nós e Voz”, no qual vivi experiências maravilhosas, ganhei maturidade, conheci pessoas fantásticas, fiz amigos para sempre, e que é até hoje o poço de onde retiro inspiração para seguir cantando e dialogar com o público. E em 1990 veio o primeiro show individual. Que foi chamado “Angular”, título do poema que, naquela época, recebi do amigo, mestre e multitalentoso Thúlio Antunes. Depois de “Angular” mantive acesa a chama do intérprete e compositor de MPB e a fome de palco está sempre viva, bulindo, uma dor gostosa de sentir. Estou ensaiando um show novo, e espero que ele alcance o objetivo, que é chegar aos palcos, às pessoas. Mas como ando passando em revista a minha trajetória, pensei que seria um bom momento para publicar o poema “Angular”, para vocês o rememorem ou o conheçam.
Escrito por RENAN BARBOSA às 10h38
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ANGULAR (Thúlio Antunes)
Sou o somatório
Desses cacos de vidro
Que de forma caleidocópica
Se espalham pelo chão.
Lembrança de um copo vazio
Que, cansado de estar cheio
De ar,
Expandiu-se em forma de pensar
E em mil pedaços de vida-retalho
Se transmutou.
Sou os ângulos
Dessa pequena lasca
Que ao sol
O arco-íris confunde,
Neste bailar irriquieto
De fazer brilhar
Cacos, vidros e copos de todo dia.
Sou, em verdade,
A inércia desta bandeira
Que tomam por ideal.
A imprecisão desta linha sinuosa
Saindo do papel.
Sou em suma,
Toda a soma
Destes múltiplos sons
Que modificam e transformam
Partículas de cores
Em tons.
Sou o copo, o caco
A lasca e o retalho deste mundo avelã.
Sou muitos.
Sou de fato,
Renan.
Escrito por RENAN BARBOSA às 10h37
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O DESTINO E AS MÃOS
Penso me saber
Penso me ter
em minhas mãos
Penso em minhas
mãos como o
comando mais
lúcido do meu
cérebro
Mas não sei aonde
elas me conduzirão
Se, cegas, não vêem
mais que a sombra
de um pérfido
destino ao qual
relutam em me atirar.
Renan
Escrito por RENAN BARBOSA às 21h02
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