O quereres


O EXÉRCITO  DO HOMEM SÓ

 

Já devo ter comentado, aqui, que a minha droga é o cinema. Além do amor que tenho pelos filmes, uso o cinema como válvula de escape, quando quero me afastar da realidade, fugir, espairecer, sair do ar. Há quem prefira bebida, drogas, sexo, internet. Não é o meu caso. E esta semana fugi às tarefas por fazer e fui ver algo da Mostra Internacional de Cinema, da qual, habitualmente, consigo ver quatro ou cinco filmes dos 500 que passam nas duas semanas de duração. E escolhi ao acaso, pelo horário e proximidade da sala de exibição. Vi  “Um longo Caminho”, de  Zhang Yimou (2005, China/Japão), e um filme antigo, dirigido por Giuliano Montaldo: “Giordano Bruno” (Itália/França, 1973).

No primeiro, um pai, rompido com o filho, ao descobrir que este está morrendo de câncer, resolve ir do Japão à China para concluir um documentário que o filho deixou inacabado. É um longo caminho, cheio de imprevistos, dificuldades, burocracia, no qual o senhor japonês vai se questionando sobre a sua incapacidade de demonstrar os afetos. Mas deixa atrás de si um rastro de gentileza, perseverança, idealismo, amizade e amor. Vai se transformando à medida em que as dificuldades aumentam e chega a influir na vida de toda uma comunidade de uma aldeia chinesa, no destino de um presidiário, na trajetória de uma criança bastarda renegada pelo pai. Revoluciona, positivamente, o dia-a-dia de um rígida prisão chinesa. E por fim, conclui o filme  e sua pitoresca jornada pela China, reencontra-se com o filho, não da maneira que imaginara mas de modo também vivo, emocionante e transformador. É como se esse velho japonês, retirado numa aldeia distante de pescadores, silencioso e desconfiado, fosse um exército de um homem só, capaz de grandes feitos, à medida em que tenta se reconciliar com o filho. E o filme jamais derrapa para a pieguice, o sentimentalismo ou as soluções fáceis. Exige paciência e generosidade do espectador, faz rir e chorar, emociona, diverte, provoca fortes reflexões, como convém a um bom filme.

A outra película, que eu desconhecia até esta semana, mostra a vida do ex-religioso e filósofo, transformado em herege pelas forças da Inquisição, em 1600, Giodarno Bruno. Ele ousou se descolar do pensamento da igreja católica da época, questionar seus dogmas, propor revisões dos Evangelhos, fazer reflexões pertinentes sobre a Ciência, inclusive com inovadoras opiniões sobre a posição da Terra em relação aos outros planetas. Escreveu muitos livros, e convivia igualmente com reis, pensadores e a gente do povo, aí incluídos bêbados, poetas e prostitutas. Foi inútil prendê-lo  e difícil calá-lo. Temiam que, assim procedendo, suas idéias, que já circulavam por toda a Europa, se alastrassem ainda mais e um “mártir” fosse criado.  E também ele agia e tinha a força de um exército, o exército de um homem só.  Não temeu ser queimado vivo, não abriu mão de suas verdades, prosseguiu  com seus credos enquanto lhe foi permitido.  E  fez-se história, deixou marcas, marcos, ensinamentos, e quatrocentos anos depois aqui estou eu assistindo a um filme que conta sua vida...

Os dois filmes, tão díspares aparentemente num primeiro olhar, na verdade me pareceram ter muito em comum, apesar de filmados em épocas e países tão diferentes.  Deram-me a sensação de que eu não os tinha visto por acaso, embora nada soubesse deles quando os escolhi. Fiquei a pensar como uma só pessoa, por mais que ignore esse poder, pode interferir na vida e no destino de milhões, atravessar a história, remover barreiras impressionantes, sem necessariamente ter esse intuito, ou ser portador de uma função pública ou de cargos de poder. E me veio à lembrança Cecília Meireles, que nos fala num des seus poemas: “à beira dos teus olhos, por acaso detendo-me, que acontecimentos serão produzidos em mim e em ti?”... E mais adiante, no mesmo poema (“Contemplação”): “nossas viagens têm cargas ocultas, de desconhecidos vínculos. Entre o desejo de itinerário, uma lei que nos leva age invisível e abriga mais que o itinerário e o desejo”....

Será que desconhecemos a força que nossos atos podem assumir, a grandeza de que somos revestidos, as histórias fabulosas que podem ser escritas a partir de pequenas ações?

Também fui ver, no lounge da Mostra, um debate sobre documentários, com alguns diretores de peso desse gênero, mediado por Serginho Groisman. E alguns deles contaram como seus filmes saíram das telas do cinema e ganharam hospitais, sindicatos, comunidades, escolas, universidades, ONGs etc. Uma rede que vai se tecendo a si própria, independente da vontade e do projeto inical do criador. Mas a partir do gesto primeiro, fundamental, único, de contar uma história, fazer um filme, transmitir uma mensagem.  Sinto-me privilegiado por ser espectador dessas estórias/histórias. Elas me ensinaram muito.  E sobra a idéia de que se  deve ir à luta, mesmo quando parecer vão e todos nos aconselharem a desistir. E buscar, sobretudo, a FORÇA DOS DIAS. Ela se esconde atrás das adversidades e das nossas fraquezas. Um homem só pode muito. Porque é dele o exército de sua vontade.

Renan



Escrito por RENAN BARBOSA às 22h18
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Emocionado com a crônica que minha irmã Waleska publicou em seu blog (link ao lado), publico esta, sobre o mesmo tema, embora escrita antes da dela.

“BOM-DIA NORDESTE”

Há registros emocionais que nunca se apagam. E gerações de paraibanos compartilham uma mesma memória: José Bezerra e seu programa na Rádio Borborema, o “Bom-dia, Nordeste”- com eternas e autênticas músicas de forró que nos acompanhavam logo às primeiras horas da manhã. Na minha infância Campina Grande só tinha AMs. Família simples, sem vitrola em casa, era o rádio o nosso grande companheiro! E José Bezerra (1921-1991) um ídolo, uma figura mítica, de quem nós, pequenos, só conhecíamos a voz que preenchia de música, alegria e informação as nossas manhãs.

A rotina matinal não se alterava: café e cuscuz quentinhos, a preparação para o colégio e forró, muito forró. Canções alegres, de inocente malícia, inspiradas no barro do chão, retratando a vida simples do nosso povo, suas festas, desventuras, bravuras e aspirações. E o radialista nos encantava com o humor, os gracejos com os “velhinhos do calçadão” (de Souza da Pipoca a Orlando Tejo, passando por Manoel Barbosa, Coronel Ludugério e Raul Pequeno), o alô para nossas personalidades e figuras folclóricas e ouvintes de todos os bairros, de José Pinheiro à Bodocongó, a leitura entusiasmada das manchetes e da página policial do jornal "Diário da Borborema".

Foi justamente vasculhando a memória da infância que descobri que veio dali minha ligação com a música, que anos depois, jovem adulto, me fez ganhar os palcos e levar minha voz ao nosso teatro municipal, à João Pessoa, Ribeirão Preto, São Paulo... A raiz do meu canto está lá, no seu “Bom-dia, Nordeste!” E esta foi uma grata e reconfortante descoberta.

Tenho certeza de que José Bezerra é um dos “santos padroeiros” do “Maior São João do Mundo” e nas minhas conversas com conterrâneos, músicos, paraibanos em geral e todos que ouviram o seu programa, nunca esqueço de louvá-lo e agradecê-lo por tudo que nos legou. Ele ajudou a sedimentar na nossa gente o amor pela música regional, pela nossa cultura, o respeito pelos nossos compositores e artistas. Deve sempre ser lembrado e homenageado em justa medida. Sua trajetória de mais de vinte anos de programa mereceria ser contada em livro e se tornar objeto de pesquisa de nossos pós-graduandos.

“Cante a sua aldeia e será universal”, diz a célebre frase. E por isso, há anos idealizei um projeto que tornou-se na verdade um sonho obstinado, e esperava a ocasião de vê-lo realizado. E a oportunidade chegou finalmente, na forma de um honroso convite para participar da festa de aniversário dos 43 anos do Teatro Municipal de Campina Grande. Apresentarei o show acústico (voz, violão e percussão) “Bom-dia, Nordeste”, em homenagem à José Bezerra, acompanhado de dois músicos paulistas, na noite de 30 de novembro próximo. Desde já estejam todos convidados!

Hoje, nostálgico, escrevendo desta São Paulo de tantos migrantes nordestinos,  mando um abraço pra ti, Paraíba. E lembro: “é hora de tomar um gostoso café e ler o Diário da Borborema de hoje, que publica: ‘José Bezerra está vivo!’ E a chama da sua obra grandiosa e inspiradora não deve se apagar jamais!”

 



Escrito por RENAN BARBOSA às 21h48
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