A DESCONTRUÇÃO E O (DO) MITO
Desconstruo a minha trajetória
E já não sei que dores poderiam ainda me insultar
Não percorrerei de novo as mesmas veredas
Disponho os feixes de mim mesmo
em diagonais entrelaçadas
Como a não me submeter a nenhuma estrutura
Que possa aprisionar
a seiva, que goteja do meu sexo, saliva em minha boca
e derrama-se dos meus olhos.
E que sucumba o mito,
Boiando na atmosfera de sombra e silêncio de
Onde atomentava a si e aos outros.
E que dissolva-se a vergonha, por ter
incessantemente acalentado o medo.
Já não sou um. Sou pedaços.
De amorfa substância
semelhante ao sonho.
E já não me amoldo
mais aos duros contornos
de pretensos e desmedidos saberes.
Em emoções se encharcam
meus compartimentos esvaziados.
E de ímpeto se acolam meus novos dias.
Renan
Escrito por RENAN BARBOSA às 09h33
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AS VERDADES DO PRISMA
Toda certeza esbarra numa dor
Todo contentamento tem memória de solidão
Às vezes a alma destampa-se, e voláteis as emoções escapam,
frágeis e invisíveis.
Às vezes a mão se estende num gesto que pede silêncio.
E num calar altivo, tudo se assoma como um rico mistério
de portas de outro trancadas e sonhos despertos.
Às vezes o riso é escárnio; outras vezes não: é confissão de fraqueza.
E num instante, tudo pode se desprender: a disciplina dos sentidos, a turvação dos abismos,
a ferocidade dos medos
Deixando à mostra - sem barreiras - a humanidade, que como num prisma,
se desfaz em espectros de incomparável e nobre beleza,
que fascinam o lhar
[enquanto a alma e seus fluidos vagueiam, e encontram os jardins, os coretos,
as esquinas, as avenidas e seus transeuntes, enfim...
Renan
Escrito por RENAN BARBOSA às 09h18
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CIDADÃO DANÇANTE I
É preciso que vocês conheçam o trabalho de Ivaldo Bertazzo, um dos mais prestigiados e talentosos coreógrafos do Brasil. É preciso que conheçam a ação que desenvolveu com adolescentes (de baixa renda) de diversas ONGs de São Paulo e que resultou em dois espetáculos dos mais belos que presenciei em minha vida inteira: “Rua do Encontro” e “Milágramas”, promovidos pelo SESC SP. Dos espetáculos há DVD, CD com trilha sonora e centenas de matérias na mídia.
Ivaldo, dono de um humor irreverente e contagiante, tem o dom de arrancar alma, vida, talento, beleza, emoção, de quem quer que se aproxime da sua arte. Afirma que a dança está em todos, basta tirar as amarras, os entraves. Mas cobra disciplina, entrega, uma reeducação do movimento... Está completando 30 anos de carreira, e pela sua escola já passaram anônimos, globais, celebridades, gente da periferia...
E eis que recentemente, entediado com essa coisa pasmacenta de final de ano e insatisfeito por ter de esperar o ano que vem (pós carnaval) para buscar alguma coisa de arte, de alimento, para os meus frágeis ossinhos, fui surpreendido com o anúncio do projeto “Cidadão Dançante”: 150 inscrições abertas para trabalhar com Ivaldo, pessoas com talento ou não para a dança, durante cinco meses, ao final dos quais será apresentado um espetáculo que ficará em cartaz em São Paulo por algum tempo. O projeto já teve outras edições, eu é que o desconhecia. E foi dando aquele comichão de tentar me tornar um “cidadão dançante”. Mas incrédulo, porque como já escrevi não falo a linguagem do corpo, não tenho ritmo, disciplina, coordenação motora. Sou daqueles que vai para a esquerda quando o grupo vai para a direita e ao abrir os braços derruba meia dúzia...
Pois bem, me enchi de coragem, a mesma que me socorreu para me inscrever no curso de teatro semestre passado: fui um dos últimos a chegar, já nas vagas extras (170 ao todo). Além dos ensaios do projeto, três horas seguidas com a coordenação de Ivaldo, temos que fazer duas aulas semanais em sua escola de reeducação do movimento, com os outros professores. E tudo é novo, diferente, nada que lembre ginástica, nem aulas de dança formais. Redescobrir o corpo, ajeitar a postura, deixar a alma se descobrir no movimento... E suor, muito suor, esforço, erros, erros, erros, erros.... erros e mais erros. Mas eles dizem que todo mundo vai conseguir. Que no final mesmo os que estavam pensando em desistir (estou nesta categoria), por se acharem incapazes, vão se descobrir dançando e brilhando no palco. Tenho adormecido de cansaço, de qualquer jeito, sem comer, sem trocar de roupa, ao voltar das aulas e ensaios. Mas há um clima de alegria, de comunhão, de interação, no projeto, que vão nos animando a continuar. Essa é outra das crenças de Ivaldo: trabalhar coletivamente e sair do ensimesmamento.
(o texto continua abaixo)
Escrito por RENAN BARBOSA às 08h58
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CIDADÃO DANÇANTE II
Ainda amargo a tristeza de ver um show sonhado e ensaiado e pronto ter sido cancelado (o “Bom-dia Nordeste”, que seria mostrado em campina Grande dia 30 de novembro), por motivos “alheios à minha vontade”... Mas faço tudo em nome da arte. Da minha arte. Acho que estarei melhor no palco, ao cantar: mais solto, menos tímido... Porque de fato não tenho talento para a dança. Mas o corpo não pode ficar esquecido, envelhecer precocemente. Então, palmas para o movimento. Tornar-me-ei um cidadão dançante? Ainda não acredito. Vou para as aulas arrastado, chegando lá é que me sinto melhor. Mas como odeio errar, ainda mais em público, é sempre uma luta dar prosseguimento. Mas Ivaldo diz que errar é divertido! Que o espetáculo final é o que menos importa! É o processo de se descobrir, de descobrir algo novo, de criar com o outro, que está em jogo. A escola é um deslumbre: instalações primorosas, obras de arte até nas paredes do banheiro, chazinho para antes e depois das aulas e ainda cruzamos com os meninos do “Milágramas”, que ensaiam para apresentações pelo Estado e nos dão monitoria.
Então, que assim seja. Em abril devo estar no palco, com mais 150, 160, 170...
Nem procurei descrever tudo que isso representa, ou o método usado para nos tornar cidadãos do movimento, porque isso precisaria ser vivenciado na prática, assistido...
Vou de novo hoje à aula, descrente, com uma motivação flutuante. Não sou desses que gosta de desafios: “juro que conseguirei”! Não, prefiro desistir aos primeiros obstáculos. Por enquanto, não estou nem num extremo nem no outro. Vou na corda bamba, com as pernas ainda bambas. E encolhe a barriga, ajeita esse tronco, abre as escápulas, respira, levanta o crânio, olha pra frente... E dança, cidadão!!!!!!!!!!
Renan
Escrito por RENAN BARBOSA às 08h57
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