O quereres


A CERTEZA E A DOR

Na mesa ficou um retrato esquecido onde dois sorrisos ostentavam a mais crédula felicidade

Nas cadeiras vazias, ainda o peso de dois corpos velados em seu desesperado evadir-se

Não, não era saudade de um tempo onde subjugavam todos os limites de suas lúcidas trajetórias

Não era tristeza pelos medos tão delirantemente afogados ao longo de incendiárias madrugadas

Não era dissabor pelo que já não conheciam de seus sentimentos, (ambos) atônitos

Vagando como se entre as estrelas se ocultasse ao menos uma fagulha da obscura luz da razão

Nos copos algum gim repousava dos goles ardentes e era como se  fosse o resto e o todo e o tudo do que se desfizera e o nada do que ainda palpitava em sua disparatada e inconsistente embriaguez

E eles se afastaram e de longe o sol poente estendia seus raios sobre as calçadas e automóveis

E nenhum deles chorou e nenhum deles ensaiou um gesto cálido de adeus

E eles não fizeram juras

E quem sabe, não era este o momento derradeiro

E quem sabe o que governa

A emoção dos homens

E quem se julga capaz de resistir

A um apelo?

 

Renan

 



Escrito por RENAN BARBOSA às 11h27
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POESIA DE ASSALTO

Tenho dez minutos para fazer um poema. Porque senti a poesia urgindo, e logo o meu

ônibus estará à porta, convocando-me para o outro lado: a crueza fastidiosa do cotidiano.

Ah! Mas como ela (a poesia) me toma de assalto, me viaja a corrente nervosa,

libera-se nas sinapses, derrama-se no líquor, mas não chega nunca a tornar-se impulso

motor, não se precipita impiedosa e sem aviso na brancura do papel.

Quer ver-me aprisionado (e o consegue) mas hesita em sair pelos poros, como se o

contato com o mundo exterior pudesse destruí-la instantaneamente.

E talvez ela não exagere em seus temores. E talvez se dissipasse à menor brisa, ao

menor barulho, ao mais leve movimento do corpo.

Deixo-a estar. Que se fique, que se esconda, que agora sou eu também a temer.  

Se eu puder sentí-la comigo ainda por mais um instante, posso convencê-la a não me abandonar.

E quem sabe  não terei um dia pleno - possuído e inundado por este poema que

fiz e não cheguei a criar?

 

Renan



Escrito por RENAN BARBOSA às 11h14
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