POESIA DE ASSALTO
Tenho dez minutos para fazer um poema. Porque senti a poesia urgindo, e logo o meu
ônibus estará à porta, convocando-me para o outro lado: a crueza fastidiosa do cotidiano.
Ah! Mas como ela (a poesia) me toma de assalto, me viaja a corrente nervosa,
libera-se nas sinapses, derrama-se no líquor, mas não chega nunca a tornar-se impulso
motor, não se precipita impiedosa e sem aviso na brancura do papel.
Quer ver-me aprisionado (e o consegue) mas hesita em sair pelos poros, como se o
contato com o mundo exterior pudesse destruí-la instantaneamente.
E talvez ela não exagere em seus temores. E talvez se dissipasse à menor brisa, ao
menor barulho, ao mais leve movimento do corpo.
Deixo-a estar. Que se fique, que se esconda, que agora sou eu também a temer.
Se eu puder sentí-la comigo ainda por mais um instante, posso convencê-la a não me abandonar.
E quem sabe não terei um dia pleno - possuído e inundado por este poema que
fiz e não cheguei a criar?
Renan
Escrito por RENAN BARBOSA às 11h14
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