O quereres


FRED MARTINS: NASCE UMA ESTRELA!

 

Sempre gostei de prestigiar novos talentos (cantantes) e influenciar os amigos na mesma direção,  por me colocar na situação dos primeiros (alguém precisa dar crédito no início para que o trabalho cresça e apareça!), e por um sentimento de vaidade particular: antes que eles explodam, toquem na Nova Brasil FM  ou apareçam na Globo, guardo aquele sentimento, aquela lembrança íntima, que me levará a dizer aos amigos: “ah, eu o vi começar,  eu  a assisti num show pequeno na USP, no barzinho tal, no SESC... E assim, acompanhei o surgimento de Simone Guimarães em Ribeirão Preto, e também vi uma hiper-tímida e insegura Vanessa da Mata se desculpar no palco do SESC Ribeirão por ser aquele um dos primeiros shows de sua primeira turnê, ainda no primeiro disco (quem diria que dois anos depois ela estaria na trilha da novela e no Faustão?! Eu disse! Tenho faro e intuição para detectar aqueles marcados para brilhar e fazer sucesso). O mesmo vale para os CDs destas pessoas: comprar Virgínia Rosa, Mônica Salmaso, Rita Ribeiro,  Zeca Baleiro, Fabiana Cozza, antes que eles se tornassem mais conhecidos, me dá uma ilusão de que sou da turma, de que os conheço como amigos, de que os "apoiei" no início de carreira. Foi assim que cheguei em Ribeirão, certa vez, com uma fita cassete de Chico César na época em que ele tocava apenas na finada Musical FM em São Paulo e cantei num show, na USP, “À primeira vista” numa versão rápida, meio axé, já para dar o meu toque pessoal de intérprete e diferenciá-la do jeito de cantar do autor. Provavelmente uma das primeiras vezes em que essa música foi cantada fora de Sampa, por outro cantor...

Minha relação com a música é umbilical. Mas ao mesmo tempo respiro palavras. E só acredito na força delas. Minha ligação com a música se dá toda pela via da letra, da poesia. Tanto que só decoro uma letra lendo-a e não apenas ouvindo-a. Como nasci antes, posso dizer que minha irmã Waleska compartilha comigo (ou  herdou de mim?) o  mesmo gosto pelas palavras (tem um texto recente em seu blog sobre isso, link aí ao lado). Vitória, a outra irmã bela e talentosa, pensa em forma de clipes, mas eu e Wal pensamos poemas, crônicas, descrições e sobretudo, canções.

Para que eu goste de uma música (também aprecio e muito, música erudita e instrumental; vamos com calma e não esqueçam que sou o rei do Barroco!), é preciso que ela me chegue por alguém de talento, com uma voz bonita, melodiosa, ou seja: um intérprete.  Por isso, jamais entraram na minha casa Tom Zé, Raul Seixas, Luiz Tatit, Nando Reis, Arnaldo Antunes, Seu Jorge, Belchior, Carlinhos Brown e tantos outros de vozes sofríveis e/ou insípidas.

Movido pela velha e renegada dialética, me dou ao direito de negar, renegar, denegar e vivenciar as contradições. Chegou um dia, portanto,  em que percebi que precisava exercitar mais o ouvido. E passei apenas a ouvir as músicas, dispensando os encartes, as fichas técnicas, os autores, músicos etc., informações que antes eu devorava com avidez.  E até parando de cantar junto, eu que  cantava no banheiro dentro e fora dele 24 horas por dia... Um modo de deixar a música entrar por outras vias, menos racionais, menos pelo olho e mais pelos outros buracos.  (o texto continua abaixo)



Escrito por RENAN BARBOSA às 11h28
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FRED MARTINS: NASCE UMA ESTRELA! (continuação)

 

 

O meu amigo-músico-multi-mídia e parceiro musical Mário Martinez, entretanto, que estuda a criação da canção de modo sério e coordena  oficinas sobre isso, é um expert em MPB e conhece todos os compositores, instrumentistas, letristas, técnicos etc. etc. etc. E sempre me bombardeia com informações sobre os novos nomes, os compositores de talento como ele próprio, Mário, que aos poucos vai conseguindo se firmar no caldeirão cultural de Sampa.  E eu, com a minha sutil arrogância, que já não o espanta, respondo: “Mário, tô cagando e andando pra esse novo fulaninho. Para mim a canção está morta e tudo já foi escrito. Só precisamos de bons intérpretes para reler as grandes obras da MPB!” E  recuso seus convites pra conhecer esses “novos talentos”. “Canta bem ?”- é só que interessa. “E daí que compõe? Compositores jamais deveriam subir num palco" - arremato.  Prêmio Visa de compositores? Ressentido por não ter sido selecionado, ignorei todo as audições públicas deste concurso. Mas Mário foi a todas. E vinha me falando, desde então, de um tal Fred Martins, o grande vencedor do Visa, que o cara prometia e  era bom e outras "mumunhas" mais.

Esta semana, Mário, antes de tudo um persistente, me chama: “tem show de Fred Martins no Villagio Café. Se você for, também vai se apaixonar pelo trabalho dele”. Fred Martins trabalhava com Almir Chediak (songbooks de Caetano, Gil, Vinicius, Ary, Chico e tantos outros), o que por si só funcionaria como um imbatível cartão de visita. Adoro “Vagabundo”, o cd de Ney Matogrosso com Pedro Luís onde está “Tempo Afora”, de Fred Martins e Marcelo Diniz, e a canção “Novamente”, de Fred Martins e Alexandre Lemos no cd “Olhos de Farol”, também de Ney. Se não bastasse, nosso jovem compositor já teve músicas gravadas por Zélia Duncan e Maria Rita. Muito bem. Fomos à internet, vi Fred Martins nos vídeos do Prêmio Visa, acessei seu release no site do Villagio e gostei mas sem maiores entusiasmos.  Mas cansado de desapontar meu amigo Mário, fui com ele ao barzinho. Um lugar pequeno mas bonito, agradável, exalando o aroma da boa música,  onde muitos astros atuais começaram a carreira, como Zeca Baleiro e Chico César.

E eis que Fred Martins, que ganhou o mais importante festival da música brasileira, aparece. E ele já poderia vir com ares de estrela, imbuído da aura de grandeza que o prêmio Visa confere... Mas não. Vestindo calça jeans e camiseta preta básica, violão em punho, à vontade e com um tom completamente informal, ele assume seu lugar no palco. E parece não se importar com a platéia pequena. Aí se dá a grande surpresa: ele é um músico incrível. O violão e ele são uma coisa só. O virtuosismo personificado, mas sem caras e bocas, sem solos joão-bosquianos cacetes, sem vanguardismos desnecessários e forçados. Conduzindo-nos do samba ao rock, literalmente, com domínio total do instrumento. A música flui, brota límpida, verdadeira (o que é o mais importante), talvez por ele ser o autor das melodias, em cima de letras de grande apuro estético e poético.  E talvez por ele ser o autor das melodias, o canto também impressiona, uma voz honesta e charmosa, com um brilho singular que nos cativa e encanta. E em poucos minutos já estamos todos fãs. No palco, ele mostra que não veio à toa, que não surgiu por acaso, que tem uma trajetória sólida que o conduziu ao momento atual. Não conseguimos desgrudar os olhos  nem um minuto. E o que ele faz? Não dança, não declama, não rebola, não é sarado nem tem os olhos de Chico nem a imponência leonina de Caetano. Mas tem uma presença de palco incrível, que nos hipnotiza. Paixão à primeira vista  pelo artista, sensível, bem-humorado, espontâneo como todo bom carioca mas sem o pedantismo e a  malandragem que lhes é peculiar.  E que músicas! Quanto vigor, quanta aragem, quanta verdade nessas letras de novos caras que ele musicou com tanta competência.

Assistimos ao nascer de um novo astro (na verdade prefiro a palavra estrela para me referir aos homens também). Ouso dizer, embora não sei se Fred Martins aprovaria a comparação, que estamos diante de um novo Chico César. Que conquistará os palcos e o espaço que  lhe é destinado, ao mesmo tempo em que será disputado a tapa pelos intérpretes da MPB.

No final, Mário, que já o conhece, me apresentou a ele como cantor, e Fred, gentil: “avisa quando você for fazer show, a gente aparece!” Uma noite iluminada, doce, reconfortante, dessas que faz a gente voltar pra casa agradecendo aos deuses por estar vivo. E que fez renascer, mais uma vez, o meu desejo de voltar ao palco, de  reverenciar este dom e compartilhá-lo com generosidade com as pessoas ao redor, assim como Fred está fazendo. Que os deuses não me abondonem. E que o Brasil descubra o talento deste jovem: com o perdão pela frase clichê, Fred Martins veio para ficar. Anotem e ouçam isso!

Renan

 



Escrito por RENAN BARBOSA às 11h27
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