PRIMEIRO TEXTO DE 2007
"NU COM A MINHA MÚSICA": DE COMO A PRAIA DE CABO BRANCO SE PRESTOU A UMA DIVERTIDA EXPERIÊNCIA DE NUDISMO
Na infância aspirava tornar-me santo, influenciado pela biografia do santo que dava nome à minha escola: Domingos Sávio. Morreu aos 15 anos, de tuberculose, e seu lema de vida era “antes morrer que pecar”. Pois bem, também desejei morrer (naturalmente) antes dos 16 anos e tinha certeza de que isso aconteceria. Como já escrevi aqui, até essa idade tratei de documentar toda minha vida, guardando cartas, contos, poemas e me auto-biografando em longas cartas (de até 100 páginas) para amigos e familiares que moravam em outras cidades. O projeto não vingou: nem o de ser santo, nem o de morrer jovem, mártir e famoso. (rs...) Como não sou avesso ao divã, deixo para os meus passados e futuros analistas me ajudar a descobrir de onde vinha esse projeto tão rígido e angelical de vida e dispenso interpretações leigas...
Mas não creio que seja um pecador inclemente. Entretanto, como todo moralista e conservador, tenho cá minha porção nelsonrodrigueana, mas opto via de regra pela disciplina, pela renúncia, pela sublimação dos impulsos. Tímido, pudico, avesso a exposições desnecessárias, sou da contenção, da discrição, das roupas, dos sapatos, das meias. Nada de extremos, nada de exibir o corpinho por aí, sol e praia raramente por motivos vários.
Mas eis que, chegando ao aeroporto de João Pessoa à uma da manhã do dia seguinte ao Natal, para merecidas férias, fui recepcionado calorosamente pelas irmãs (apelidadas agora de “as siamesas”) Vick e Wal e pelos amigos Paulo e Ezymar. Que ato contínuo me levaram para a praia. Claro que foi difícil encontrar uma palhoça à beira-mar que estivesse aberta e servisse boa cerveja e petiscos regionais. Mas nos sentamos, brisa marinha a nos envolver, na bela e antológica praia de Cabo Branco. E papo vai, papo vem, risadas abundantes, ouvindo o famigerado forró brega que ecoa de todos os auto-falantes da Paraíba, a madrugada foi chegando, uma lua maravilhosa instalada no céu pessoense, a paz nos beijando com seu sopro de harmonia e renovação. Era preciso esquecer as mazelas de 2006 e todo o peso que este ano e mais especificamente a cidade de São Paulo haviam me legado , levando-me a momentos de muita dor e desamparo... Todos foram categóricos: só o mar poderia expulsar aqueles fantasmas. Urgia adentrar na água morna da madrugada, corpo livre de amarras, espírito liberto de todo sofrimento. Mas estávamos numa praia urbana, e não na famosa praia naturista de Tambaba, um dos cartões postais de João Pessoa. A ‘vibe’ do grupo era imperativa: não havia moralismos nem temores em jogo. Vitória e Ezymar foram os primeiros. E depois eu fui. Armado sei lá de que coragem, de qual espírito inovador, de qual despudor súbito. Era o mar chamando. Era a lua. A paz. A praia deserta, o mar invisível para quem estivesse longe dele, e portanto proporcionando total privacidade a eventuais banhistas notívagos. Fui. Atirei as roupas na areia, deixei as convenções, os medos, as amarras de lado e caí na água. Que delícia! Que milagre! Que sopro de vida!!! Saí do mar muito tempo depois, refeito, outro, livre, leve. Waleska e Paulo foram os próximos. E voltamos pra casa (leia-se Campina Grande) às 7 da manhã. Felizes. Claramente felizes. E prontos para deixar entrar o novo do ano novo. Com o coração aberto para o bom. Para o bem. Para a fraternidade dos grandes encontros. Tive uma recepção maravilhosa. Que mudou o meu final de ano e com certeza mudará o ano novo. Eu: nu com a minha paz, com a minha alegria, com a minha música. Com a música da vida. O resto, o mais, conto depois. Uma biografia não se escreve de um fôlego só. (rs...)
Renan
Escrito por RENAN BARBOSA às 20h20
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|