O quereres


CONTO: CHOCOLATE E ROSAS VERMELHAS (da série "DOS IMPEDIMENTOS DO AMOR")

 

Não era ingênua. Há muito percebera que a colega, alguns degraus abaixo na hierarquia mas competente e afável, vinha lhe premiando com olhares açucarados, cumprimentos demorados, pequenas atenções que não eram incisivas mas que transmitiam algo mais do que a cordialidade que permeava o dia-a-dia no trabalho.

Trocavam e-mails internos tratando de assuntos da empresa, mas passou a receber pequenas mensagens, de conteúdo descartável e superficial, que nem se dava ao trabalho de responder. Em seguida vieram poemas, de Cecília, Drummond, Quintana. Esses pelo menos dignos de leitura e autênticos. Desconhecia o gosto literário da colega e nem sabia se ela realmente gostava de poesia ou estava apenas tentando lhe impressionar. Mas isso não fazia diferença. Os poemas eram neutros, liberdade, identidade, melancolia, passagem do tempo. Respondeu com apenas um, de Hilda Hilst, para não parecer antipática. Foi o que bastou. Os poemas seguintes, da mítica poetisa Safo, eram sobre o amor entre duas, cheios de erotismo e beleza.

Aí teve certeza. E imaginou o que a outra teria para lhe dar. Era bonita, atraente mas sem nenhum encanto especial. Não ostentava o estereótipo da lésbica “caminhoneira”, como já ouvira alguns colegas machistas comentando nos tediosos almoços coletivos. Ninguém diria que mulheres eram o foco de sua predileção. Nem tinha certeza disso, dos gostos da outra. Só sabia que estava havendo uma investida. Manteve-se impassível, como sempre fora, desenganada da idealização dos afetos.

No aniversário recebeu logo cedo, em casa, uma elegante caixa de bombons. E um bilhete afetuoso mas tímido. Ligou, agradecendo, e convidou-a fazer parte do grupo que mais tarde viria à sua casa para champanhe e petiscos.

Foi o que bastou. A outra chegou com um buquê de rosas vermelhas. Percebeu certo risinho mal disfarçado dos convidados, mas sabia lidar com situações como aquela sem maiores tormentos. Nada havia de reprovável em receber flores de uma colega. Agradeceu sem afetação e dedicou à outra a mesma atenção que aos demais. Mas esse acolhimento, ditado pela boa educação, embora as inicativas ferissem inclusive as regras da empresa, pareceu encorajá-la a ir além.

Ao deitar, descobriu embaixo do travesseiro uma carta. E lá estavam todas a declarações que o silêncio escondera. De como o interesse surgira, crescera, de como estava cheia de esperança de que aquele sentimento pudesse ser recíproco. E no final, um “Eu te amo” escrito certamente com calor e desejo.

No dia seguinte, alegando total incompatibilidade com a outra, conseguiu que o diretor responsável demitisse a subalterna. Não acreditava em declarações prematuras de amor, sem convivência, baseadas apenas na fantasia do amante e sem a participação (quase sempre “aniquiladora”) do amado. Não acreditava em cartas de amor. E achava prematuro dizer-se “eu te amo” antes mesmo que o amor tivesse dado as caras, no concreto, na convivência de dois e não na expectativa de um. O amor, sempre tão raro e tão caro, não merece esses riscos, nem tal desperdício - pensou. E preocupada com a balança, tratou de dar os bombons à diarista.

 

Renan



Escrito por RENAN BARBOSA às 21h11
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