O quereres


 

Conto: Cara e Coroa (da série "Dos impedimentos do amor"; escrito em parceria por

Renan e Vitória Barbosa)

CARA

  

 

Se era aquilo amor havia muita mentira em seu entorno. Ela mesma mentira para si. Mentia. Sua fé no amor era profanada diariamente. O amor mentia? Mentir para o amor? Por fim, não chegava a conclusões.

Foi quando era ainda uma menina que aprendera, ouvindo as conversas dos adultos. Depois os filmes, os romances baratos e sempre,  sempre as canções de amor. Aprendeu que o amor é verdadeiro. Que à pessoa amada deve-se sempre dizer tudo. Mentira. Ninguém suporta tudo. Mas aprendeu assim. Era revoltante. A vida é cheia de engodos. Ensina-se sempre o que não é. Todos mentem descaradamente ou aceitam ser enganados. Não era fácil viver. Tentava, sim, tentava muito ser correta. Mas ninguém suporta tudo...

Como naquele dia em que almoçaram juntos. Poderia dizer para ele que não tolerava quem mastiga fazendo barulho como ele fazia e ainda por cima de boca aberta, exibindo as porções dilaceradas de alimento? Que aquele som ativava nela um novo sentido, um sentido que a tornava irritada a ponto de comovê-la? Queria chorar e queria morrer. Talvez matar. Aquele som a estragava. Poderia dizer ainda que sentia arrepios de asco quando presenciava alguém palitando os dentes, assim como ele o fazia, demoradamente e com prazer, bem na sua frente, sem qualquer constrangimento?

 

(continua)



Escrito por RENAN BARBOSA às 19h07
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Não. Não poderia. Conhecia-o o suficiente para saber que isto o abalaria. Afinal, cinco anos de namoro contam para que se saiba algo de alguém. Ele se sentiria aviltado, descoberto e ridículo como devia se sentir aquele frango geneticamente modificado para nascer sem penas, que vira outro dia no noticiário da TV. Poderia ainda dizer-lhe que aquela saliva que ficava em seus lábios enquanto falava, unindo-os como uma membrana elástica, verdadeiramente lhe assombrava? Não. Não poderia.

Ela disfarçava essas dores durante o almoço. E pensava: “Vou terminar. Preciso ter coragem. Não pode ser. Não agüento. Não é justo. Nem para mim nem para ele. O que digo? O que faço?” Era como ter uma dupla personalidade. Aquilo tudo lhe massacrando e ao mesmo tempo, dividida com as amenidades que ele conversava. Falsa? Estava sendo falsa? Mas a falsidade não causava dor, pelo menos aprendera assim, e aquela situação... aquela situação lhe oprimia da maneira mais brutal.

Pensando no que ia dizer. Que seria forte, que se libertaria. Foi quando pensava nessas coisas que ele anunciou que não comeriam a sobremesa ali no restaurante. Assentiu. Quando entraram no carro, ele mostrou uma caixa, até então escondida. Seus doces prediletos. Em forma de coração. Muitos deles. A gulosa felicidade espantou todos aqueles tormentos. Aliviou-se. O açúcar era muito importante para ela. Mas, após saboreá-lo compulsivamente, sentia culpa. Ah, maldita religião. Nada lhe trouxera de paz. Somente ameaças. E imposições.

Punia-se. Punia-se por odiar sua mastigação, seu palitamento, sua membrana de cuspe. Enternecia-se pela surpresa dos corações e se perdia sem entender o que era afinal o amor, pois aprendera que o amor tudo suporta e aceita. Temia ser castigada. Parecia ver o olhar feroz de sua mãe ao proferir: “aqui se faz, aqui se paga”. Não. Não podia terminar a relação. Ninguém a mimava assim. Olhou melhor para ele. Procurou ângulos inusitados e pouco apreciados pelo senso comum: um cantinho perto da orelha, uma divisa entre os cabelos e o pescoço, uma dobrinha no braço. Procurou amá-lo naquela busca aflita de seus olhos. Lembrou-se que poderia ser TPM aquilo tudo. Sim, ele era seu amor.

Ao mesmo tempo pensava: “que custa comer sem fazer barulho? Que custa reconhecer que palitar os dentes é nojento? Que custa perceber que não é mais um bebê para ter tanto cuspe fora da boca? Que custa disfarçar um pouco as misérias humanas?”

Será que ele nada percebia? Ou, por amor, tudo suportava?

 



Escrito por RENAN BARBOSA às 19h06
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COROA

Ela era linda. Amara-a desde o primeiro encontro, desde a primeira troca de olhares, desde a primeira conversa ensaiada em pé, numa vernissage, ambos estonteados ante a beleza das obras , equilibrando champanhe, canapés, guardanapo e aquela conversa tímida, constrangida, os olhos se descobrindo, os sorrisos se alargando, a evidente tentativa de impressionar o outro com comentários inteligentes que saíam ridículos e  deslocados.  Mas prosseguira amando-a. Sempre. Cada vez mais. Sabia que tudo no amor é clichê, brega, risível, mas como evitar? Se aquilo tudo trazia uma felicidade duradoura e consistente, por que lutar contra? Cada passo dela, cada gesto, por mais comezinho, por mais banal, o encantava. Ela era alegre, sem deixar de ser crítica e cáustica às vezes, tinha uma energia que ele invejava. Estava sempre disposta a falar, a debater, construindo pequenos e tolos tratados filosóficos dos atos cotidianos, não importava se sobre o preço da berinjela ou o último espetáculo de Débora Colker. Mas ele achava graça em tudo isso.  É certo que às vezes ela se tornava excessivamente exigente. E silenciosa. Sabia que estava ocultando algum pensamento de crítica quando se calava de súbito, seus olhos fixos em algum ponto do rosto dele, como se quisesse retê-lo, fazer uma fotografia incompleta apenas para afastar algum comentário ríspido, alguma reclamação. E nesses momentos nem adiantava provocá-la, espicaçá-la a falar. Ela era um todo de ausência e estupor, mas preenchida   por algo forte o suficiente para destruir o amor, a relação, o namoro de cinco anos, no qual se viram diariamente e diariamente se defrontaram com o inusitado e com o conhecido mas sempre mantendo o vínculo, o afeto fortalecido e intacto... Não, naqueles momentos tinha de respeitar o silêncio dela , sob pena de ver o sentimento desabar. E ele desabaria junto. Aprendera que amor é coisa profunda, exata, embora sujeita a intempéries. E para sempre. Não acreditava que podia amar duas vezes. Não com aquela intensidade.  Ainda ocorria de se sobressaltar com o fato de a vida ter lhe dado uma mulher perfeita. Tão bonita, articulada, sábia, paciente. Bonita quando saía do banho, quando acordava, quando balançava as pernas nos momentos de ansiedade.  Pensando bem, naquela última situação não podia ver nenhuma beleza nela. Não tivera uma educação machista nem retrógrada, mas pensava que ninguém discordaria que é feio, não, horrível,  ou melhor, profundamente deselegante, uma mulher balançando as pernas num restaurante, ou mesmo na intimidade, o salto fino marcando o ritmo no assoalho, chamando ainda mais a atenção, e o pior, traindo o nervosismo, a ansiedade, ferindo as regras de etiqueta que com certeza ela aprendera nos colégios católicos.

Mas não encontrava coragem de censurá-la. Sabia que isso poderia funcionar como uma bomba-relógio. E perdê-la para sempre  por um simples comentário. Melhor calar. Não era só ela que tinha seus silêncios plenos de desprezo e reprimendas sufocadas.  Pior mesmo era quando ela sacava da bolsa, subitamente, até mesmo quando trocavam carícias ou viam um filme deitados no tapete, a temerária lixa de unha.  E demorava-se naquela que ele considerava uma das mais baixas tarefas a que uma mulher podia se lançar na presença de outrem.  Será que ela não percebia o quanto aquele barulho era irritante, fazendo os dentes rangerem, uma sinfonia recalcitrante que punha em ebulição todos os neurônios, todos os pêlos do corpo, levando-o quase à loucura? E aquele pó, pó de unha, que se espalhava, sujava a roupa, grudava nos cílios, poderia haver algo mais repugnante, mais invasivo, mais lesivo a um relacionamento? Mas ela parecia tão concentrada, tão entregue, tão convencida da utilidade do seu ato, que ele não ousava falar.  E engolia em seco, e engolia o pó. Poderia haver algo pior que aquilo? Sim, havia uma. Encontrar o absorvente higiênico usado, com aquela borra de odor e aspecto repugnantes, jogada sem cuidado no cesto do banheiro. Por que ela não colocava na embalagem, enrolava em papel,  disfarçava de alguma maneira aquela evidência repulsiva? Mas não, tinha que fazê-lo deparar com aquele desagradável aspecto da condição feminina, como se aguentar a TPM já não fosse suficiente. Por que as mulheres não podiam dirigir o mal-humor,  a labilidade, a quase loucura da TPM a elas próprias? Por que não se arranhavam, bebiam, batiam a cabeça contra a parede, até conseguir alguma calma, algum equilíbrio? Por que tinham que descontar neles, os homens, os amados, os parceiros, os companheiros? Por que fazê-los alvo de sua descompensação emocional? Era justo? Era correto? Era o caminho mais fácil, parecia. Eles estavam ali, à mão, perto, alvo inocente. E ainda o cobrava porque ele não adivinhava e não compreendia que ela estava na TPM. Como se o calendário menstrual dela tivesse que andar colado em seu cérebro, ele, o homem, que não tinha menstruação, nem  sangrava, a não ser por dentro, sem direito a absorventes e TPM...

Mas seu pai lhe dissera que era assim no amor: tudo suportar, fazer sacrifícios, concessões, perdoar e perdoar e perdoar... E ele a amava. Sempre. Desde sempre. Para sempre. Sempre? Para sempre? Melhor não se fazer indagações. Melhor pedir a conta e levá-la para o carro, onde uma surpresa a esperava. Pensava todas essas coisas ali, palitando os dentes, enquanto ela o fotograva, em pedaços, olho fixo numa orelha, no ombro, nas mãos. Daria tudo para jamais saber daqueles pensamentos, das sentenças que ela repetia internamente e não teria coragem de lhe dizer. Porque sabia que seria o fim. No carro a surpreenderia com uma caixa de seus doces preferidos.

 



Escrito por RENAN BARBOSA às 19h00
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