O quereres


“As coisas não precisam de você”

 

Talvez a minha frase preferida, sem amargura. Apenas constatação. Se aprendemos isso, embora doa aprender, vale por mil anos de análise.

Há muito descobri, aprendi, entendi que as coisas não precisam de mim. E isso não pode criar um sentimento de invisibilidade, de inutilidade. Deveria, sim, dar mais consistência ao Ser. Ao estar. No mundo. Nas coisas. Na vida. Mas no mundo de Narciso, uma descoberta como esta pode ter conseqüências avassaladoras.

Continuei precisando das coisas, eu que já afirmei que só existo através do olhar do outro. E nesta dicotomia, me perdi e me encontrei várias vezes. Mas causava-me tristeza saber-me grão de terra, molécula de oxigênio vagando nos ares irresolutos do universo, sopro de vida que poderia se apagar com a mesma velocidade com que expiramos sobre uma vela e a impedimos de brilhar.  As coisas não precisavam de mim. Nem de você, que me lê, se me lê. As coisas não precisam dos calos da fala, nem da filosofia de Seu Cisco, um velho que decidiu e desdecidiu se enterrar vivo (mas os velhos já não estão condenados?). Nem da minha música. As coisas não precisam seguir as pegadas de Graciliano como fez tão lindamente Audálio Dantas. As coisas não precisam nem mesmo de Elza Soares se reinventando aos 70 depois de quedas, perdas, remendos, tapas, pontapés, apoiando-se numa cadeira para levar sua força indestrutível de leonina aos palcos. Cantar é preciso, viver não é preciso! As coisas... bem, as coisas não precisam...

As coisas são. Estão. Virão.

E nesse desfazimento do ser, fui descobrindo que poderia existir, reexistir, me desvestir, a partir de tão grandiosa verdade. E foi como se a vela se acendesse, como se do chão brotasse água limpa e não só reflexo distorcido, como se a língua descobrisse novas texturas e desistisse da poesia solitária.

Li no jornal que o filho de Manoel de Barros faleceu. Acidente de avião. Que agonia deve ser para o pai octagenário ver o filho perecer cedo. A poesia da perda. Há poesia na perda? Há dignidade possível na perda? Quem precisa perder?

A vida também não precisa de nós.

Engana-se quem pensar que este é um texto pessimista, niilista, existencialista. Sim, é existencialista. Porque faz um brinde (tímido) à existência. Ainda em copos de vidro, que o cristal sempre foi caro e a grana anda pouca.

As coisas... acontecem, quando têm que acontecer. Com força. Sem tanta força. Mas, dá pra beber nos pequenos veios. O sangue também se espraia pelos capilares...

Há um sorriso. Disseram que nunca haviam me visto sorrir antes. Não acreditei. Nunca me viram sorrindo fora do palco? Levei a sério demais meus personagens? E por que estava feliz no palco? Estava feliz? O microfone era ruim, as pessoas conversavam alto ao invés de ouvir, sem óculos não enxergava nada à minha frente (nem o roteiro do show!), mas eu estava feliz?

As coisas doem. Hilda Hilst que o diga. Ela também se foi, sem muito alarde. Mas deixou sua poesia marcada em  mim.  E vez em quando a ela retorno.

É tarde. Hora de jazz e licor, enquanto aguardo a visita. Waleska vai chegar! O telefone acabou de tocar. Ela já está no aeroporto.

Renan

 



Escrito por RENAN BARBOSA às 07h54
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