O quereres


 

 

“DE UNS TEMPOS PRA CÁ”  - PRIMEIRA PARTE

 

 

Minha irmã Vânia morava em São Paulo. Eu morava emprestado na casa dela, fazendo o internato de Medicina aqui em São Paulo. Ouvíamos apaixonada e obcecadamente a Musical FM, a “Rádio MPB”. E um dia ela ficou horas no telefone ligando pra uma promoção, até conseguir ser contemplada. O prêmio: um ingresso para o clube Blen-Blen, assistir ao show de Chico César, que  até então nunca ouvíramos mais magro. Ela foi, com uma amiga. Voltou chocada. No bom e no mau sentido. Chico César, contou-me, era uma criatura de no máximo 1,50 m, feio o como cão chupando manga,  performático, com cabelos e roupas esquisitas e pasme!- paraibano. Mas chocada também com a boa música, com a força, a presença de palco etc. etc. Dias depois “Mama África”  e “À primeira Vista” tocavam continuamente na Musical, ao lado de “Vento Ventania” e “Tempo Rei” (na gravação de Lobão).  Qualquer artista que for aceito em São Paulo terá o passaporte para o sucesso em todo o Brasil. E Chico César em pouco tempo estava consagrado. Ainda não chegara ao interior. Algum tempo depois eu seria o primeiro a cantá-lo em Ribeirão Preto, como já relatei neste blog.

Fomos, certa vez, eu, Vânia e o irmão Robson a um show de Chico César numa dessas grandes casas, tipo Tom Brasil. Eu ainda nutria um  certo despeito, um certo preconceito, porque achava que faltava qualidade na voz dele e me perguntava o que  faltava a mim, já que o meu canto permanecia relegado a um certo anonimato, por mais que eu me esforçasse...  Mas não havia como negar: ele era espetacular. Espetacular espetaculoso. Over, pra cima, um artista de uma força cênica impressionante.

De lá pra cá vi dezenas de shows de Chico César, em cidades variadas. E fui ficando cada vez mais fã. Chama-me a atenção que ele, apesar de ser querido por muitos, tem um índice de “rejeição” só comparável ao de Caetano: tenho muitos amigos que não gostam de Chico César, que não curtem suas músicas, não compram seus discos nem vão aos shows. Isso me espanta. Gosto e cu cada um tem o seu, diz o meu amigo Adanel, mas por que não gostar de Chico César?

Vi-o recentemente em três ocasiões: no SESC, com o “Quinteto da Paraíba”, no show do último CD; no projeto de uma biblioteca de poesia daqui de SP, onde ele declamou poemas do seu livro, cantou um pouco e conversou bastante com a platéia e no Memorial da América Latina, num show voz e violão em que ele estava super à vontade e com uma simpatia que nem lhe é tão habitual. Ficara nítido, pelo conteúdo das letras, melodias, figurino e fotos do CD “De uns tempos pra cá”, que ele estava deprimido, talvez coisa de quem se apaixona em cada esquina, como ele mesmo diz. E magro. Mas, neste show do Memorial, semana passada, vi que ele ganhara uns quilinhos. Agora se veste de forma careta, tirou aquele modelo ‘espanador’ do cabelo, mas parece feliz. Eu sempre disse, embora os amigos discordassem: “só os gordos e as mães são felizes”.

E como está Chico agora?

Vou dizer o que penso.  Abaixo:



Escrito por RENAN BARBOSA às 19h55
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“DE UNS TEMPOS PRA CÁ”  - SEGUNDA PARTE

 

 

Chico César está maduro. Parece feliz, engordou de novo, embora não esteja ainda naquela forma de beterraba do começo da carreira, mas conseguiu uma solidez no canto e no palco que só a estrada de shows dentro e fora do Brasil poderia lhe trazer. Sua voz, seus vocalizes, ecoam e unem  as raízes da África, dos povos  indígenas e dos árabes, o que vem a dar no mesmo quando pensamos na formação e influências do povo nordestino. É Nordeste pulsando, gritando suas verdades universais, para além da terra banhada de sangue do sertão mas também dentro dele, o repente, o improviso, o lamento das carpideiras, o aboio do vaqueiro, a força e a criatividade de Gonzagão. Mas é a filosofia, o caldo da cultura cosmopolita, o ritmo alucinante de São Paulo, o migrante que constrói e reconstrói a cidade e suas metáforas.

Chorei durante seu show no Memorial, ali na intimidade da voz com o violão. Porque era impossível não se emocionar. Impossível não admirar sua trajetória para chegar até este ponto, a perseverança do menino de Catolé do Rocha que hoje canta para o mundo e leva música e cidadania às crianças de sua terra, sem muito alarde, mas com a consciência de quem conhece a dureza do “barro do chão”.

Chico César cresceu. E fico feliz por ter observado isso do meu lugar de platéia, seguindo-o nos palcos, ouvindo suas músicas. Sim, ele às vezes comete excessos, mas só quem ousa pode percorrer esta via. 

Waleska, a irmã jornalista já tantas vezes citada neste blog, um dia encontra Chico César na Suíça, na rua, assim, sem mais nem menos. Ela, fanzíssima, não resiste a beslicar sua bochecha fofinha e diz: “Eu sempre quis pegar nesta bochechinha”... E ele, lacônico e impenetrável: “Pegou?”  E segue seu caminho a caminho do festival de Montreux... Dizem que ele xinga a platéia de Campina Grande sempre que canta ao ar livre lá, com os bêbados que gritam: “Toca Raul!”

Mas ele parece feliz. E quem disse que além de genial precisa ser constantemente simpático???



Escrito por RENAN BARBOSA às 19h53
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