NO CÉU DE CÁSSIA ELLER SOB UMA CHUVA DE PEDRAS
Quando iniciei este blog pretendia escrever semanalmente alguma coisa. Mera ilusão. Ele tem sido feito de silêncios, mais ou menos prolongados, e palavras. Mas sobrevive. Com uns poucos leitores cativos, outros que lêem mas não se manifestam e outros que ainda estão por vir (“a esperança é a última”...)
Mas por mais que a gente pense que o conteúdo mental está presente, que há coisas bulindo e querendo sair e tomar ar fresco, que a inspiração deu as caras, que isso, que aquilo, que viveu esta ou aquela experiência redentora do ponto de vista da escrita bloguística e que esta irá fluir linda, leve e loira, não é assim que acontece. E muitas vezes já escrevi bobagens aqui para enganar a falta de tema e escrevi sobre a falta de tema que acaba virando um. Uma coisa assim de ‘metalinguagem’ que é não é senão uma tentativa de iludir meus leitores que, entretanto, não são tolos. Às vezes saco um texto da adolescência que encontro na gaveta dos guardados e me encho de culpa por publicar algo tão datado. Mas hoje, eis-me de novo aqui, refletindo se fui muito cruel na crônica sobre Chico César como afirmaram duas assíduas leitoras. Talvez eu ainda tenha uma ponta de inveja/despeito dele e isso tenha me levado a ser mais sarcástico do que o habitual, mas talvez seja porque o estilo mais arrojado de Chico contraste com a vertente que tenho admirado nos últimos anos, a do “menos é mais”, que tem Mônica Salmaso como expoente máximo, mas onde caberiam Céu, Ceumar, Renato Braz e outros. Eu próprio não conseguiria me encaixar num rótulo. Surpreendo as pessoas com uma voz que elas não imaginam que saia de alguém que fala tão manso e parece tão calmo. Deixo a timidez de lado para fazer no palco coisas que nem eu acredito que faço. Mas não há como negar que desde a gravação do meu CD demo em 1998 a minha voz só tem se suavizado. Também, para alguma coisa a escuta de tanto jazz e das divas da MPB deveria servir. Mas, contradição encarnada, ando com vontade de soltar a voz no melhor estilo Cássia Eller, uma das minhas artistas preferidas e cuja partida quase me matou a vontade de cantar. Poucos acreditariam que já fui vocalista de uma banda de rock, como convidado em participações especiais, não de modo fixo. E a memória do repertório, das guitarras distorcidas com solos fenomenais dos meus amigos paraibanos Pedro e Emílio, sob a “regência” do nosso guru à época, o baterista Eugênio Felipe, mais o baixo de Hélder ou Kennedy, tem me acompanhado fortemente nos últimos tempos. De uns tempos pra cá, ando com vontade de cantar coisas fortes, como a antológica “Noite de cão e gato no cio”, um blues rasgado de letra perturbadora, que fez parte do meu repertório por alguns anos. Mas ando mesmo é com vontade de seguir cantando."É pelos palcos que vivo"...
Minha cabeça vive cheia de projetos. No momento apresento o show “Bom-dia, Nordeste”, só com músicas de autores nordestinos, mas me volto para o passado e o futuro e novos shows já se delineiam e até o esboço de um próximo CD. Sairão do plano dos desejos e se materializarão? Este blog contará o porvir - espero. Pertenço à raça da pedra dura. Estou sempre lá. Firme. Com alguns desgastes, limo, cortante o suficiente para inibir eventuais escaladores, alguns arbustos pendurados que tentam me enfraquecer, mas sempre presente. Acreditem: não é fácil ser pedra. Se estamos no meio do caminho, somos removidos. Se estamos ao largo, passamos despercebidos. Ou somos simplesmente atirados ao longe, na água ou na direção de um outro corpo. Mas às vezes somos poesia e compositores nos acariciam.
Ninguém deseja ser pedra. Nasce-se. Mas as pedras têm vontade? As pedras sonham? As pedras realizam? As pedras precisam de você???
Renan
Escrito por RENAN BARBOSA às 19h08
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